Irmãos e irmãs
Em pleno Tempo litúrgico do Natal e no 1º dia do novo Ano civil, em comunhão com toda a Igreja, celebramos a Solenidade de “Santa Maria, Mãe de Deus”. É um título e evocação de Nossa Senhora aprovado no Concílio de Éfeso, no ano 431.
Em toda a Igreja, este 1º dia do Ano civil é designado “Dia Mundial da Paz”; foi uma iniciativa do Papa São Paulo VI, em 1967, ocorrendo o primeiro Dia Mundial da Paz em 1 de janeiro de 1968. É uma oportunidade para refletirmos sobre a paz, contando com o contributo da mensagem do Papa em exercício.
Vivemos em tempos preocupantes de conflitos e guerras em diversas geografias do globo. Na sua origem estão complexos de superioridade, ideias velhas de imperialismo, desejo insaciável de mais poder e domínio, relegando para segundo plano o valor da pessoa humana. Serão também resultado das “enormes concentrações de interesses económicos e financeiros privados que estão a empurrar os Estados nessa direção”. As guerras correspondem a uma regressão da civilização, podem corresponder a muita ciência e tecnologia mas não correspondem à vocação nobre do que é ser pessoa humana em sociedade. É necessário falar de paz.
Na 1ª Leitura: (Núm. 6,22-27) ouvimos a promessa de Paz que Deus faz a Moisés para todo o povo de Israel. Deus concede a Paz através da Bênção que o sacerdote havia de dar ao povo, com uma condição: é necessário que cada pessoa se coloque sob o olhar de Deus e faça oração evocando o nome do Senhor.
A Bênção de Paz, corresponde assim a um coração que procura sintonizar com a vontade e os sentimentos de Deus, um coração que reúna as condições de acolhimento do dom da paz. De facto, o coração, morada interior de uma pessoa, pode estar cheio de paz ou cheio de maldade e injustiça.
Para este nosso Dia Mundial da Paz, o Papa Leão XIV publicou a sua mensagem com o tema: “A paz esteja com todos vós. Rumo a uma paz desarmada e desarmante”.
O Santo Padre convida a todos a acolher a paz e a tornar-se testemunhas dela porque ela “existe, deseja habitar-nos, tem o poder suave de iluminar e alargar a inteligência, resiste à violência e a vence. A paz tem o sopro da eternidade”. Citando Santo Agostinho, o Papa Leão convida os cristãos a “estabelecerem uma amizade indissolúvel com a paz”: somos todos convidados a caminhar na estrada traçada pelo Ressuscitado; Ele mesmo encarnou uma paz desarmada, porque “desarmada foi a sua luta”.
É necessário cuidar da paz como um dom e umbem a ser protegido para bem de todos. “Se a paz não for uma realidade experimentada, guardada e cultivada, a agressividade espalha-se, tanto na vida doméstica, quanto na vida pública” e há o risco de incorrer no engano de que, para obter a paz, é preciso se preparar para a guerra.
A fim de obter uma paz desarmante, afirma o Papa Leão, “devemos encarnar a mansidão porque a bondade é desarmante. Talvez por isso Deus se tenha feito criança”, pois em sua fragilidade uma criança tem a capacidade de mudar corações.
Na 2ª Leitura (Gal 4,4-7) ouvimos: “Quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o Seu Filho nascido de uma mulher e sujeito à Lei(…) para nos tornar seus filhos adotivos”.
A “plenitude dos tempos” é o tempo novo inaugurado por Cristo, tempo marcado pela presença do Espírito de Deus. Aqui estamos no início do ano 2026 depois do Nascimento de Cristo, em Ano novo e também tempo novo!
E porque somos filhos, em sina São Paulo: “Deus enviou aos nossos corações o Espírito de seu Filho, que clama em nossos corações: Abbá! Pai!”
Assim, “Se somos filhos de Deus, se possuímos o seu Espírito, então também somos irmãos uns dos outros. É a mesma vida de Deus que circula em todos nós”.
Irmãos e irmãs, Jesus deu-nos o seu Pai como nosso Pai e os nossos semelhantes como nossos irmãos. Não é nada pouco! Valorizando o Nascimento do nosso Salvador, somos convidados a edificar um tempo novo que corresponda ao Espírito Santo que pode renovar todas as coisas.
Depois do Ano passado ter sido marcado pelo Cinquentenário da criação da Diocese, este novo ano civil pode corresponder a um tempo de graça e de desejável entusiasmo apostólico que faça crescer a experiência da Fé, o encontro com Cristo, a promoção da vida espiritual e o sentido da missão.
Este cuidado tem de incluir os cristãos migrantes estrangeiros que, em número significativo, já frequentam as nossas celebrações da Eucaristia.
No Evangelho: (Lc 2,16-21) temos a contemplação dos Pastores ao Menino nascido em Belém.
Os Pastores eram dos habitantes menos considerados e menos amados da sociedade. Tiveram um anúncio para eles acerca do Menino. Vemos os pastores como representantes dos pobres deste mundo a alegrarem-se com o Nascimento do Menino.
“Maria guardava todas as coisas em seu coração”. Maria, mulher de Paz, deu à luz o Filho de Deus e Príncipe da Paz!
Os homens que são chamados a construir a Paz, têm ou tiveram uma mãe!
Em grande parte dependemos muito da mãe que tivemos. Se o pecado, a infidelidade a Deus, tinha a sua origem numa mulher (Eva), Deus havia de escolher outra Mulher, nova e fiel, que havia de corresponder à sua santa vontade para edificar a humanidade reconciliada com o seu Criador.
Hoje é dia de evocar Nossa Senhora como Mãe de Deus. Com ela, é também dia de valorizar avocação da Mulher Mãe e a sua maternidade.
A Salvação vem ao mundo por uma Mulher, Maria. Pela sua maternidade, a Mãe do Filho de Deus vem a ser também a Mãe dos discípulos de seu Filho e, portanto, simultaneamente Mãe e membro da Igreja desde a sua origem. Com Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe, somos exortados a construir a paz pela força da oração, conforme a sua mensagem em Fátima: “Rezai muito. Por fim o Meu Imaculado Coração triunfará”.
+ José Traquina