19-07-2026: Santarém
Ordenação sacerdotal do Diácono António Francisco Sá Nogueira
Irmãos e irmãs
Várias afirmações da Palavra de Deus deste Domingo bem se conjugam com a vocação e missão de quem é chamado ao ministério sacerdotal.
A 1ª Leitura do livro da Sabedoria (12,13.16-19), diz-nos que o “Senhor da força, julga com bondade e governa com muita indulgência”. Assim, o nosso bom Deus não se regozija com o poder de condenar, é “clemente e compassivo” como canta o Salmo responsorial. O Deus criador que veio ao mundo em seu Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, é paciente.
No Evangelho (Mt 13,24-30 ou 43) a parábola do trigo e do joio é um ensinamento acerca da paciência e da necessária vigilância para controlar a tentação da intolerância. Muito facilmente podemos pensar, como os servos da parábola, que o melhor é separar o joio do trigo mas a mensagem do Evangelho diz-nos que tal opção não é aconselhável. O que é necessário e possível é que haja vigilância porque o terreno onde aparece o joio pode ser em alguém que nos é próximo ou até no nosso próprio coração.
É necessário cuidado para não cairmos na tentação da intolerância: colocando os bons para um lado, e os maus para o outro. O Evangelho sugere-nos outra atitude: sejamos vigilantes para não permitir o triunfo do joio que aparece dentro de nós ou próximo de nós. Igualmente o cuidado com o joio que surge junto do trigo na atividade da Igreja. O nosso tempo é de vigilância e oração, e saber esperar. A recomendação é também de Jesus: “Vigiai e orai para não cairdes em tentação” (Mt 26,41).
Vigilância e paciência parece não corresponderem a um tempo em que tudo tem de acontecer muito depressa. Porém, em família ou em qualquer outro ambiente humano, sem paciência, sem capacidade de escutar e de esperar, tudo se torna mais difícil.
Um breve comentário do Papa Francisco:“Redescobrir a paciência faz bem a nós próprios e aos outros. Frequentemente São Paulo recorre à paciência para sublinhar a importância da perseverança e da confiança naquilo que nos foi prometido por Deus, mas sobretudo testemunha que Deus é paciente connosco: Ele, que é «o Deus da paciência e da consolação» ( Rm 15, 5). A paciência – fruto também ela do Espírito Santo – mantém viva a esperança e consolida-a como virtude e estilo de vida. Por isso, aprendamos a pedir muitas vezes a graça da paciência, que é filha da esperança e, ao mesmo tempo, seus suporte” (Spes non confundit, 4).
Caríssimo ordinando, Diácono António Francisco Sá Nogueira, Irmãos e irmãs, a experiência apostólica que consta no Evangelho continua na experiência da Igreja. Jesus Cristo, nosso Bom Pastor e único Sacerdote,continua a chamar alguns homens para os preparar e enviar em missão com a sua palavra, a sua paz, a força dos sinais de cura, libertação, valorização da vida humana e também a sua bondade e paciência. Àqueles que chama e envia assegurou a companhia e a amizade. “Estarei convosco todos os dias até ao fim dos tempos” (Mt 28,20).
Nos últimos anos procurámos na nossa Diocese incentivar a oração pelas vocações sacerdotais. O próprio Jesus assim o aconselha: “Pedi ao Senhor da messe que envie trabalhadores para sua messe” (Lc10,2). Existe a consciência de que a vocação ao ministério sacerdotal acontece por chamamento de Deus em resposta à oração suplicante do seu povo. Esse chamamento acontece e confirma-se através de sinais e interrogações que exigem caminho vocacional, acompanhamento, aprofundamento das motivações, oração, estudo e conjugação de vários pareceres de membros da Igreja até se concluir que há sinais convincentes de uma vocação e uma resposta livre à vontade de Deus.
Na diversidade do desafio pastoral, o presbítero sacerdote cresce na fé e amadurece como pai espiritual na medida em que procura ser fiel ao cuidado diário do exercício do seu ministério junto do povo de Deus, em comunhão com o seu Bispo e os outros presbíteros.
A propósito da vida espiritual dos presbíteros, éoportuna a palavra que Papa Leão XIV dirigiu no passado ano a um grupo de Padres em Roma (26 de junho de 2025): “As palavras de Jesus «Chamei-vos amigos» (Jo 15, 15) não são apenas uma declaração afetuosa aos discípulos, mas uma verdadeira e própria chave de leitura do ministério sacerdotal. Com efeito, o sacerdote é um amigo do Senhor, chamado a viver uma relação pessoal e confidencial com Ele, alimentada pela Palavra, pela celebração dos Sacramentos e pela oração quotidiana. Esta amizade com Cristo é o fundamento espiritual do ministério ordenado, o sentido do nosso celibato e a energia do serviço eclesial ao qual dedicamos a vida. Ela sustenta-nos nos momentos de provação e permite-nos renovar a cada dia o “sim” pronunciado no início da nossa vocação”.(…) Procurai viver aquilo a que o Papa Francisco tantas vezes chamou “proximidade”: proximidade com o Senhor, proximidade com o vosso Bispo, ou Superior religioso, e proximidade também entre vós, porque deveis ser verdadeiramente amigos, irmãos; viver esta bela experiência de caminhar juntos, sabendo que somos chamados a ser discípulos do Senhor”.
Caríssimo ordinando, esta palavra do Santo Padre é uma boa sintetize de recomendações fundamentais para a vida de um Presbítero, discípulo de Cristo. Acrescento somente o seguinte: o ministério sacerdotal não é uma promoção por mérito, é por vocação e visa o bem comum, a missão e o crescimento da Igreja. Neste sentido, é bom assumirmo-nos como humildes servidores dos dons de Deus buscando sempre maior perfeição na missão que nos é confiada, alimentando-nos dos mesmos dons espirituais que propomos aos outros cristãos.
Com a missão de pregar e ensinar, aprendemos. Com missão de santificar, crescemos espiritualmente. Com a atenção aos mais pobres, temos a oportunidade de estar diante de Cristo que com eles se identifica. Com a castidade celibatária temos a possibilidade de crescer na força do amor que transforma e na identificação com Cristo.
Entretanto, no tempo presente, o insistente aconselhamento para todos é: saber escutar. Saber escutar a Deus pela oração, pela leitura, pelo exercício do ministério e escutar as pessoas da Igreja e do mundo. Um padre que sabe escutar dá lugar à esperança e ao diálogo construtivo. Pode não ter soluções mas saber ser próximo, mais ainda nos momentos de dificuldade, faz suscitar a esperança e reforça a confiança em Deus. Um padre, discípulo e enviado de Cristo, é uma referência de esperança; recebo testemunhos de pessoas gratas pelo apoio recebido dos padres.
Como nos lembra São Paulo na carta aos Romanos (Rom 8,26-27), o Espírito Santo vem em auxílio da nossa fraqueza e intercede por nós, em conformidade com a vontade de Deus.
Assim mesmo, frágeis mas confiantes, invocamos sobre ti o Espírito Santo, na esperança de que sejas um padre generoso, santo e fiel à vontade de Deus para bem do seu povo, a Igreja, e do mundo.
Conta sempre com a intercessão poderosa de Santa Maria, Senhora da Conceição, Mãe de Jesus e de seus discípulos.
+ José Traquina