Sé de Santarém, 02-04-2026
Homilia da Missa Vespertina da Ceia do Senhor
Irmãos e irmãs
Há cerca de 40 dias iniciamos a Quaresma como tempo de revisão de vida, aperfeiçoamento e luta por crescer na fidelidade à nossa identidade cristã, tempo de preparação para celebrarmos a Páscoa Senhor. Aqui estamos com esta celebração da Missa Vespertina da Ceia do Senhor a dar início à celebração da Páscoa do Senhor.
Com a 1ª Leitura: Ex 12,1-8.11-14: ficamos a conhecer a forma, os cuidados e o significado da celebração da Páscoa do povo hebreu, ao tempo de Moisés: a libertação da escravidão no Egito.
Celebração a acontecer em família de geração em geração.
Jesus bem conhecia esta tradição festiva do seu povo. Mas chegou a sua “Hora” em que Ele mesmo é o Cordeiro a oferecer e o Sacerdote ofertante.
Jesus dá início a uma nova Páscoa, com novo significado. Já não é a libertação do Egito, é a libertação do poder do mal, do pecado e da injustiça.
Com as palavras e o mandato como o Apóstolo São Paulo teve a preocupação de transmitir aos coríntios e que nós ouvimos na segunda Leitura: (1 Cor 11,23-26) Jesus, pela primeira vez, torna-se presente naquele Pão e naquele Vinho da celebração da Páscoa com os seus discípulos.
Há dois mil anos que é assim: o que temos para oferecer a Deus é o Pão e o Vinho que representam o trabalho humano e que se tornam Corpo e Sangue de Cristo por força da sua mesma Palavra. (“Isto é o meu corpo tomais e comei….”). Aquela Ceia pascal de Jesus com os seus discípulos, é a celebração da entrega que Jesus faz de si mesmo na cruz. A Ceia, a Eucaristia, é o memorial dessa entrega: com tudo o que tem de fidelidade, de consagração de tudo o que disse e ensinou.
É também a confirmação da sua Igreja, a sua Família, a sua comunidade. A Igreja nasce da Páscoa de Cristo e a Eucaristia é o centro e o seu grande sacramento da presença de Jesus: “Fazei isto em memória de mim”.
São João (13,1-15) informa no seu Evangelho um momento da ceia, que os outros evangelistas não registaram: “Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai, Ele, que amara os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim” (Jo 13,1). E já no decorrer da Ceia, resolveu lavar os pés aos discípulos. Depois de os ter lavado e vencido a recusa de Pedro. Jesus ensina: “Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei” (Jo 13,34). “Dei-vos o exemplo, para que, assim como Eu fiz, vós façais também” (Jo 13,15).
Lavar os pés aos seus discípulos, era um serviço próprio de um escravo. Mas o contexto é solene e tem um significado especial: Jesus quer dar aos seus apóstolos um ministério e uma capacidade de amar que não fique apenas em palavras mas se traduza em serviço e em purificação da humanidade. Trata-se de amar e cuidar dos outros nossos semelhantes como Deus quer, para isso é necessário alargar o coração e rever objetivos pessoais: foi o que o apóstolo Pedro teve que fazer.
Repetimos o gesto do lava pés mas sabemos que o seu significado é traduzir o espírito da missão apostólica de todos os cristãos: confiar, amar e servir. Mas cada pessoa a quem é lavado os pés tem uma história de vida. E é assim mesmo como é, com a sua história que Deus a ama, purifica e chama a progredir na missão de discípulo ou discípula. O melhor que podemos recolher do Lava-pés é meditar no amor que Jesus tem aos seus discípulos, a todos e a cada um de nós aqui presentes.
+ José Traquina