No passado dia 13 de fevereiro, integrado no grupo dos bispos do Conselho Permanente da
Conferência Episcopal Portuguesa, estive no espaço da Fundação Calouste Gulbenkian a
ouvir a apresentação do relatório da Comissão Independente sobre os abusos de menores
acontecidos por membros da Igreja em Portugal desde 1950. A apresentação teve larga
concorrência dos órgãos de comunicação social que, de imediato, tornaram acessível os
conteúdos apresentados pelos membros da referida Comissão.

A Conferência Episcopal Portuguesa manifestou coragem em querer a cura de um
problema escondido em vidas humanas, problema que contraria a missão da Igreja e a
exortação à vida segundo o Evangelho. Assim, contratou agentes credíveis e tecnicamente
preparados para, de forma independente, fazerem um levantamento e um estudo sobre o
problema dos abusos nas instituições da Igreja. Fiquei chocado com a leitura de tantos
testemunhos de abusos e interroguei-me acerca da opção no formato da apresentação, mas
o que é importante é que resulte e o efeito seja o pretendido: conhecer e enfrentar o
problema dos abusos, começando pela atenção às pessoas abusadas e cuidar de prevenir
quanto ao futuro.

O Evangelho tem força de sal e luz na vida humana, e é esse sabor e iluminação que o
cristão é chamado a suplicar diariamente. Temos a responsabilidade de assegurar a
credibilidade da Palavra do Evangelho que anunciamos com o testemunho de uma vida
transformada pelo acolhimento dessa mesma Palavra. Neste registo, temos necessidade de
agradecer aos milhares de pessoas voluntárias que trabalham na Igreja, nos mais diversos
âmbitos de instituições católicas, com toda a seriedade e empenho, dando bom testemunho
de santidade.

A denúncia de um padre que abusou de uma ou mais crianças, contraria em absoluto o
sentido de uma vocação sacerdotal, pois é suposto um ministro sacerdote ter a maturidade
humana e cristã e a consciência bem formada acerca da sua natureza, vocação, identidade e
missão. Mas também é necessário reconhecer a graça dos padres que são fiéis à sua
vocação e que, por isso mesmo, fazem bem a muitas pessoas com a sua palavra, o seu
acompanhamento, a formação que promovem e os sacramentos que celebram.

Como escreveu o Papa Francisco: “Os crimes de abuso sexual ofendem Nosso Senhor,
causam danos físicos, psicológicos e espirituais às vítimas e lesam a comunidade dos fiéis.
Para que tais fenómenos, em todas as suas formas, não aconteçam mais, é necessária uma
conversão contínua e profunda dos corações, atestada por ações concretas e eficazes que
envolvam a todos na Igreja, de modo que a santidade pessoal e o empenho moral possam
concorrer para fomentar a plena credibilidade do anúncio evangélico e a eficácia da missão
da Igreja. Isto só se torna possível com a graça do Espírito Santo derramado nos corações,
porque sempre nos devemos lembrar das palavras de Jesus: «Sem Mim, nada podeis fazer»
(Jo 15, 5). Embora já muito se tenha feito, devemos continuar a aprender das lições
amargas do passado a fim de olhar com esperança para o futuro” (Vos estis Lux mundi).

Unamo-nos no cuidado pela qualidade dos relacionamentos humanos e
corresponsabilidade pedida aos agentes de pastoral, para que Igreja seja segura para as
crianças e para todos.

+ José Traquina, Bispo de Santarém

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