Senhores Bispos (D. Manuel Pelino e D. José Miguel Pereira), reverendos padres e diáconos

Irmãos e Irmãs

Caros Ordinandos

Para vós, António Francisco e Diácono André, para as vossas famílias e Paróquias, para os vossos amigos, companheiros e formadores no Seminário, para todos nós aqui presentes e para toda a Diocese, hoje é um dia de alegria e de esperança.

Para todos, o Sacramento do Batismo é o primeiro grande dom e sinal da nossa consagração e pertença a Deus. Aqui estamos no Domingo da Festa do Batismo do Senhor a fazer a passagem do Tempo do Natal para o Tempo comum da Liturgia da Igreja.

Trinta anos depois do seu Nascimento, Jesus deixou a vida oculta em Nazaré da Galileia e partiu para Cafarnaum para assumir a missão que justificava a sua vinda ao mundo. Jesus bem conhecia a Palavra do profeta Isaías: “Eis o meu servo, a quem Eu protejo, o meu eleito, enlevo da minha alma. Sobre ele fiz repousar o meu espírito para que leve a justiça às nações”.

Nesta disponibilidade daquele a quem Deus envia, está presente o desígnio de bem que Deus quer para o seu povo: “O Senhor abençoará o seu povo na paz”.

Os novos tempos surgem com um profeta como já há muito tempo não havia em Israel: João Batista. Das cidades e aldeias, as pessoas deslocavam-se ao rio Jordão para escutarem o grande profeta e serem por ele batizadas, em sinal de conversão, desejo de mudança de vida e preparação para a vinda do Messias prometido. Neste contexto, Jesus desceu ao rio Jordão e, numa atitude semelhante às pessoas pecadoras, apresentou-se também para ser batizado. João Batista opôs-se mas, perante e esclarecimento de que era para se “cumprir toda a justiça”, batizou Jesus e aconteceu uma grande Epifania: Deus Pai fez-se ouvir, declarando a sua Paternidade e o Espírito Santo, em forma de pomba, desce sobre Jesus. E assim o Batismo ganhou novo significado e dimensão.

Com o Batismo, Jesus nasceu para a sua vida pública, foi ali confirmada a sua missão que seria cumprida em perfeita comunhão com o Pai. Jesus não mais esqueceria a “voz vinda do céu” no momento após o Batismo: “Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência”.

Já próximo da sua paixão, Jesus informa os seus discípulos: “Tenho de receber um batismo, e que angústias as minhas até que ele se realize” (Lc 12,50). Assim, o Batismo que Jesus nos oferece na sua Igreja é o Batismo da sua entrega pascal, é morrer e ressuscitar com Ele, é dar lugar à vida nova com a graça do Espírito Santo, é morrer como condenado ao pecado e ressuscitar como filho muito amado do Pai.

Hoje é também dia de gratidão pelo dom do Batismo: sacramento da nossa consagração como filhos e filhas de Deus. Reconheçamos a Igreja como Mãe, pois foi nela e através dela que nascemos como filho de Deus.

Também para vós, António Francisco e Diácono André, o Batismo foi o sim de Deus em resposta à Fé dos familiares que vos apresentaram na Igreja. A experiência da Fé acontece, não como uma ideia que nos convence, mas como uma luz do Amor de Jesus que cresce no coração de uma criança. Com mais maturidade catequética vamos descobrindo as dimensões da Igreja com o testemunho de muitas pessoas. Descobrimos que a Igreja é Mãe e é a casa, como a de Marta e Maria onde Jesus continua a ensinar, como a sala do cenáculo onde Jesus celebra a Ceia pascal com os seus discípulos, e é também a estalagem do Bom Samaritano onde são curadas as feridas causadas pelo pecado.

Com o Pentecostes, a Igreja alongou-se no espaço e no tempo. O Apóstolo São Pedro testemunha-o: “Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judeia, a começar pela Galileia, depois do batismo que João pregou: Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus de Nazaré, que passou fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo Demónio, porque Deus estava com Ele” (At 10,37-38).

Jesus partilha a vida de Deus com todos os que aderem ao seu Reino de Amor e aceitam a graça do Batismo, dom da sua Páscoa. A alguns chama-os para O seguirem mais de perto e confiar-lhes especial responsabilidade na sua missão.

O Santo Padre, Papa Leão XIV, retomou vivamente no seu ministério a mensagem do Amor. “Por sua natureza, o amor cristão é profético, realiza milagres, não tem limites: é para o impossível. O amor é sobretudo uma forma de conceber a vida, um modo de a viver. Assim, uma Igreja que não coloca limites ao amor, que não conhece inimigos a combater, mas apenas homens e mulheres a amar, é a Igreja de que o mundo hoje precisa” (Dt 120).

Irmãos e irmãs, o Amor de Jesus presente na Palavra, nos Sacramentos e no coração dos cristãos é a força que nos perdoa e renova em esperança. O ódio e o medo destroem, o Amor e a confiança edificam.

Algumas observações e alertas:

-A identidade de um clérigo, Diácono, Padre ou Bispo, depende da sua vida espiritual, da sua união com Cristo. Devido há falta de padres e diáconos, é necessário disciplina pessoal para que ninguém seja atraiçoado pela sua própria generosidade. Ou seja, o excesso de atividade pode secar a vida espiritual.

-Como discípulos de Jesus, devemos dar-lhe o centro da vida interior, do coração, e cultivar o amor que nos identifica como seus discípulos. Se não houver esta vigilância, facilmente um discípulo torna-se o ídolo de si mesmo.

-Está a decorrer em toda a Igreja, a implementação da sinodalidade como o modo de ser Igreja. É também o nosso programa diocesano de pastoral. Está em causa a capacidade de nos escutarmos uns aos outros, abertos à surpresa do Espírito Santo para discernir e decidir novas opções. Não podemos fazer do ministério um exercício de poder de forma a inibir os cristãos de participarem no discernimento da vida e missão da Igreja.

-Um desafio permanente da missão da Igreja é o cuidado com os mais pobres.

Não podemos ficar na indiferença e deixar os pobres à responsabilidade do Estado e das instituições sociais. O Papa Leão XIV lembrou-nos recentemente: Desde os tempos apostólicos, a Igreja viu na libertação dos oprimidos um sinal do Reino de Deus. O próprio Jesus, ao iniciar a sua missão pública, proclamou: «O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa-Nova aos pobres; enviou-me a proclamar a libertação aos cativos» (Lc 4, 18) (Dt 59). E continua o Santo Padre: “O cuidado com os pobres faz parte da grande Tradição da Igreja, como um farol de luz que, a partir do Evangelho, iluminou os corações e os passos dos cristãos de todos os tempos (Dt 103).

Este assunto é desafiante e não podemos abraçar o ministério sagrado sem considerar a necessidade de corresponder ao cuidado social da missão da Igreja. Jesus não nos chamou para um refúgio de vida fácil, aliás até nos preveniu das dificuldades que podemos encontrar. Temos de estar com os cristãos leigos apoiando-os na procura de soluções para situações de carência social e colaborar com eles na gestão das instituições sociais das paróquias e dos grupos socio-caritativos, sem esquecer o cuidado espiritual junto dos pobres.

Irmãos e irmãs vamos acompanhar os candidatos na ordenação de Diácono e Presbítero rogando para eles a graça da configuração com Cristo Servo e Cristo Sacerdote e não lhes falte o conforto espiritual da Virgem Santa Maria a quem Jesus confiou como Mãe dos seus discípulos.

+ José Traquina

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