A Igreja assinala os 800 anos do Trânsito de São Francisco de Assis, recordando um santo que fez do Evangelho o centro da sua vida e continua a desafiar os cristãos à fraternidade, à simplicidade e à paz.
A Igreja assinala neste dia 4 de outubro a memória litúrgica de São Francisco de Assis, no contexto dos 800 anos do seu Trânsito. Francisco morreu na tarde de 3 de outubro de 1226, na Porciúncula, em Assis, e foi precisamente junto desse lugar que, em janeiro, teve início o Ano Jubilar Franciscano, convocado pelo Papa Leão XIV e que se prolonga até 10 de janeiro de 2027.
A celebração deste oitavo centenário não pretende apenas recordar uma das figuras mais conhecidas da história da Igreja. É uma oportunidade para redescobrir a atualidade do seu testemunho: um homem que procurou viver o Evangelho com radicalidade, despojamento e confiança em Deus, colocando Cristo no centro de toda a sua existência.
A Agência ECCLESIA tem destacado, nestes dias, diferentes iniciativas que assinalam o centenário em Portugal. Em Coimbra, por exemplo, a comunidade de Santo António dos Olivais propôs uma caminhada de reflexão e oração em torno de quatro verbos que sintetizam muito da espiritualidade franciscana: reconstruir, fraternizar, cuidar e servir. A celebração do Trânsito é assim apresentada como uma ocasião para fazer memória, mas também para descobrir uma “mensagem de esperança, fraternidade e vida nova”.
«O Senhor te dê a paz»
É precisamente a paz que o Papa Leão XIV coloca no centro da celebração dos 800 anos. Numa carta dirigida à Família Franciscana, o Papa recorda a saudação de Francisco — «O Senhor te dê a paz» — e sublinha que a paz não é simplesmente uma conquista humana: é um dom de Deus que deve ser acolhido e vivido diariamente.
«Que ilusão seria pensar em construí-la apenas com as forças humanas!», escreve Leão XIV, perante um mundo marcado por guerras, divisões e desconfianças. Para o Papa, São Francisco continua a falar ao nosso tempo não por apresentar soluções técnicas para os conflitos, mas porque a sua própria vida aponta para Cristo como fonte autêntica da paz.
A mensagem franciscana de paz ultrapassa, por isso, as relações entre as pessoas. Leão XIV recorda também a relação de Francisco com toda a criação: o sol como irmão, a lua como irmã e cada criatura como reflexo da beleza de Deus. A paz com Deus, a paz entre os homens e a paz com a criação aparecem, assim, como dimensões inseparáveis de uma mesma vocação à reconciliação.
Uma vida que aponta para o essencial
Francisco chegou ao fim da sua vida reconciliado e em atitude de louvor. A tradição franciscana contempla o seu Trânsito como uma verdadeira Páscoa: aquele que aprendeu a chamar “irmã” à própria morte entregou-se confiadamente a Deus, depois de ter procurado viver até ao fim a pobreza, a fraternidade e a alegria do Evangelho.
É também esse o convite que permanece oito séculos depois: voltar ao essencial. Num tempo marcado pelo excesso, pela divisão e pela inquietação, São Francisco recorda que a renovação da vida cristã começa quando deixamos que Cristo volte a ocupar o centro.
Ao concluir a sua carta, Leão XIV pede que o exemplo de Francisco desperte nos cristãos a confiança no Senhor e o desejo de uma existência fiel ao Evangelho, fazendo deles “operadores de paz”, testemunhas capazes de construir pontes onde o mundo levanta fronteiras.
O VIII Centenário do Trânsito de São Francisco torna-se, assim, muito mais do que uma efeméride. É um convite à conversão do coração, à fraternidade e à paz. Oito séculos depois, o “Pobrezinho de Assis” continua a apontar para Aquele que foi a razão de toda a sua vida: Jesus Cristo.
Para a Diocese de Santarém, contudo, este dia não é uma data indiferente.
Há 51 anos, em 4 de outubro de 1975, a Igreja de Santa Clara, em Santarém, acolhia a ordenação episcopal de D. António Francisco Marques, escolhido por São Paulo VI para ser o primeiro Bispo da recém-criada Diocese de Santarém.
Franciscano, D. António Francisco Marques tinha professado solenemente na Ordem dos Frades Menores em 1949 e foi ordenado sacerdote em 1952. A 16 de julho de 1975 foi nomeado primeiro Bispo de Santarém e, poucos meses depois, recebeu a ordenação episcopal precisamente no dia da festa de São Francisco.
Não foi uma coincidência sem significado. Como recordou D. José Traquina na celebração do cinquentenário da ordenação episcopal, em 2025, São Francisco foi uma referência fundamental na espiritualidade e formação do primeiro Bispo de Santarém. A identidade franciscana de D. António Francisco marcou também a forma como viveu o seu ministério episcopal, deixando na Diocese a memória de uma Igreja próxima, disponível e de coração aberto.