Irmãos e irmãs
Celebramos a Eucaristia do III Domingo da Quaresma, Domingo da Cáritas, Dia Internacional da Mulher, a caminho e preparação da Páscoa do Senhor, em tempo de grande preocupação com as decisões de quem pretende decidir o futuro do mundo utilizando a força das armas.
O medo, a ambição de mais poder e o desejo imoderado de prestígio histórico leva à falta de bom senso, falta de moral, desvalorização da pessoa humana e da solidariedade. Infelizmente, vemos que o diálogo diplomático entre as nações não consegue resolver os conflitos de interesse e surge a vontade de resolver os problemas com armas de destruição de pessoas e bens, aumentando assim o sofrimento humano e a pobreza no mundo.
Neste contexto, a guerra no médio Oriente tem implicações na vida económica dos portugueses e das suas empresas e instituições. Se antes da guerra do Irão, 30% dos Centros Sociais Paroquiais em Portugal já estavam com dificuldades económicas, com o aumento do preço dos combustível as instituições sociais ficam em maior dificuldade de gestão. Estamos solidários com todos os que vivem a preocupação da viabilidade da instituição social que assumiram dirigir em nome da comunidade local. Vamos acompanhar com interesse e com esperança.
Hoje, 8 de março, é o Dia Internacional da mulher. Aqui está uma referência que nos ajuda a reconhecer aquilo que no Concílio Vaticano II se designou por necessidade de leitura dos ‘sinais dos tempos’. A defesa dos direitos da mulher nasceu na sociedade civil e a Igreja deve reconhecer que na origem desta iniciativas do mundo também está a vontade de Deus. Neste sentido, a informação recente da Agência Lusa de que em Portugal, entre 2002 e 2025, foram assassinadas 709 mulheres faz-nos pensar que há muita educação e formação humana a promover para se conseguir uma sociedade pacífica e respeitadora.
A Palavra de Deus na primeira Leitura do Livro do Êxodo, refere também uma crise do povo conduzido por Moisés no deserto; o problema era a falta de água. A súplica e a escuta de Deus levou Moisés a encontrar a solução.
O tema da água aparece também no Evangelho. Uma mulher samaritana procura água no poço de Jacob, e Jesus pede: “dá-me de beber”.
Como escreveu o Cardeal Tolentino: “A sua sede não se materializa na água, porque não é de água a sua sede. É uma sede maior. É a sede de tocar as nossas sedes, de tocar os nossos desertos, com as nossas feridas. É a sede dessa parte significativa de nós mesmos que fica tão frequentemente adiada, abandonada à solidão. É a sede dessa porção de nós (porção suspensa, omitida, calada) para a qual não encontramos interlocutor”.
A mulher samaritana representa a humanidade que procura a vida. É a esta humanidade que Jesus aparece com uma palavra; mostra que conhece tudo acerca da vida da samaritana (e da nossa) e declara-se como alternativa ao poço de água.
Dois poços e duas águas; a água do poço de Jacob e a água do poço que é Jesus. A água de Jesus é o Espírito Santo que jorra até à vida eterna.
“Se conhecesses o dom de Deus e quem é Aquele que te diz ‘dá-me de beber’, tu é que lhe pedirias e Ele te daria água viva”
-“Senhor dá-me sempre dessa água”. A samaritana que não tem nome e bem pode representar a humanidade que esperava o messias, reconhece Jesus como Profeta e Messias e vai anunciá-lo. Os samaritanos acolhem Jesus,acreditam que Ele é o Messias prometido, vibram de contentamento e fazem a experiência da alegria da Fé.
A água viva que Jesus promete, o Espírito de Deus, possibilita a existência humana com nova luz de esperança, é o Amor grande que encheu o coração dos samaritanos e os levou a testemunhar: “Nós próprios ouvimos e sabemos que Ele é realmente o Salvador do mundo”.
O povo hebreu, sequioso no deserto, e a samaritana que procura água no poço de Jacob, representam todos os que no mundo procuram uma vida melhor e um mundo mais justo. A vinda de Jesus ao mundo revela-nos que ninguém está fora do desígnio amoroso de Deus. Com a sua Páscoa, Jesus introduziu na História um amor indestrutível que salva do ódio, do egoísmo e da indiferença, valorizando cada pessoa a descobrir o mistério e a potencialidade de amor e de vida que está ao seu alcance.
Como ensina São Paulo, “a nossa esperança não engana, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rom 5,2).
Irmãos e irmãs, é este Amor, que tem origem e reflete o próprio Deus, que os cristãos designaram por Cáritas. É o Amor de Cristo, Bom Samaritano da humanidade, é o Amor-Cáritas que nos faz próximos de quem necessita de apoio. Cáritas é também o nome da instituição diocesana que, em rede com a outras Cáritas Diocesanas e a Cáritas Portuguesa, responde às emergências e necessidades das pessoas que chegam às Cáritas Paroquiais e outros Grupos Sócio caritativos. Assim se justifica o ofertório da missa de hoje em todas as Paróquias em Portugal.
O Papa Francisco definiu a Cáritas como “a carícia da Igreja ao seu povo”. Acrescentandoque “a Cáritas não é apenas uma organização, é uma forma de viver; estar perto dos outros, estar perto daqueles que sofrem”. No mesmo sentido, o Papa Leão XIV no início do seu pontificado, exortou: “sem nos fecharmos no nosso pequeno grupo nem nos sentirmos superiores ao mundo; somos chamados a oferecer a todos o amor de Deus, para que se realize aquela unidade que não anula as diferenças, mas valoriza a história pessoal de cada um e a cultura social e religiosa de cada povo. Irmãos, irmãs, esta é a hora do amor! A caridade de Deus, que faz de nós irmãos, é o coração do Evangelho”.
Irmãos e irmãs que esta celebração seja para glória de Deus e reforce em nós a alegria da fé e da esperança como tiveram os samaritanos ao reconhecerem Jesus junto deles.
+ José Traquina