Este é um momento tão duro da vida que quase ficamos sem palavras.
A morte está connosco desde sempre e, mesmo sem nos darmos conta, é nossa companheira.
Este enigma, para os homens de fé, como o Sr. Roldão, é transição.
O Cardeal José Tolentino de Mendonça diz-nos que a ausência daqueles que amamos continuará a doer-nos até ao fim da vida terrena.
E continuaremos, até ao fim, a trabalhar interiormente esse vazio, que depois se descobre não ser só vazio, mas também excedência, também companhia, pois a memória dos nossos queridos mortos é uma pátria sagrada que não nos larga.
A ela iremos buscar a força, o entendimento de nós mesmos, a palavra que nos disseram, o gesto e o carinho com que nos surpreenderam, o rastro do coração que neles bateu forte e intenso e do qual nos sentimos para sempre amados.
António Luís Roldão nasceu na vila alba da Barquinha, na Rua da Barca nº 72, em 19 de novembro de 1934, ali bem pertinho daquele rio que, parafraseando Fernando Pessoa, “ é mais livre e maior, pois pertence a menos gente e, também, por ele se vai para o mundo e … até à América.”
Casou em 10 de junho de 1963, com a Dona Lurdes Roldão. Teve 3 rebentos, duas mulheres e um homem.
De infância sofrida, como muitos outros garotos do seu tempo, no seu verbo de poema “foi moeda de troca do trabalho infantil, norma ancestral nesse tempo”.2
Cresceu, foi ajudante de sapateiro, empregado de serração e escriturário, músico e cidadão do mundo, por todos conhecido pela sua capacidade de semear cultura e o associativismo sempre em prol das instituições barquinhenses.
Uns dias foi dirigente, noutros cantor, músico, mil e um artifícios, e disfarces,para um homem onde a arte, a cultura e a amizade ao próximo se confundiram com o conselheiro ou nas suas palavras poéticas“intruso desta noite claridade, que anda por estas ruas de ninguém”. 3
Desde há muitos anos que os barquinhenses reconheceram nele um homem humanista, escritor, poeta e investigador.
O seu denodo, entrega e dedicação ao concelho veio a ser reconhecido pela Câmara Municipal com a medalha de ouro municipal – Cultura e com a atribuição do seu nome ao Arquivo Municipal.
Sobre a Barquinha investigou aspetos relevantes que aqui aconteceram como o de recuperar hábitos, ritos, tradições, pensamentos, reconhecer património sempre num estilo sensorial e fotográfico, acontecido num determinado tempo e no sítio onde circularam aquelas personagens dos tempos idos a que chamamos ancestrais ou egrégios avós.
António Luís Roldão investigou estruturas de longa duração inscritas na natureza e nas paisagens materiais, questionou o património, relatou factos quotidianos, analisou actos de arte, de partilha, de vida e de fé, sempre inspirado na sua enorme sensibilidade cristã e humana, uma das suas superiores características.
No seu verbo não existiu temor em referir o bom e o menos bom, pois, tudo para ele era nobre!
O triunfo e o sofrimento tinham o melhor e o pior e, obviamente, faziam parte da história das nossas gentes e do nosso povo.
Viu publicados:
– vários artigos no Jornal Novo Almourol,
– vários artigos em publicações diversas,e livros de poemas com temas como:
• quotidiano
• Autobiografia
• Realismo / naturalismo
• Composição clássica
• As vivências e os lugares
• A moralidade
• A critica social,
• A ironia
• A melancolia
– Livro Ícaro 1961
– Sinfonia 1973
– Retratos 1987
– Crónicas Históricas I, em 2014
– Crónicas Históricas II, em 2020
– Em 2022 brindou-nos com o seu último livro, sobre poesia, “Ritornelo”.
Trouxe-nos para quadros abaláveis e indefiníveis perto daquele céu onde a paz reina.
A sua poesia surgia tão natural como o nascer e morrer das folhas das árvores que observava no Parque, na Av. dos Plátanos, à beira do tejo e que lhe serviu de inspiração, de alma e de alento.
Nesta obra rememorou, através do verbo emocionado e muitas vezes sarcástico, as quimeras e os desencantos, a intemporalidade dos recantos temporais, a natureza no seu esplendor, os caminhos que percorreu e o seu quotidiano de vida.
Uma comunicação secreta com os encantamentos, e sofrimentos humanos,deste homem a quem Vila Nova da Barquinha muito fica a dever.
Com as suas pesquisas no Arquivo Municipal, agora com o seu nome, em Santarém e em Lisboa, que lhe abrasaram o olhar, e anos de vida, obtivemos testemunhos de grandíssima qualidade, investigações reconhecidas pelos seus pares.
A investigação de estruturas de longa duração inscritas na natureza, as visitas régias, o convento do Loreto, os pelourinhos, os estrangeiros do Entroncamento, histórias e memórias da Moita e da Atalaia, figuras impares como Carlos Barral Filipe, os forais, os marcos, a estrada de neveiros, os relógios, as varandas, o chafariz, NS Reclamador, Capela e Igreja de Santo António, A Misericórdia, os inventários, os expostos, as ruas, os cais, as quintas, as paisagens materiais, o casal Iria Teresa; o Pedregoso, o Soveral da Lameira, os Torroais, etc. etc.
Tive a distinção de o ter como amigo, e de o poder acompanhar a muitos locais, pois, como ele, tenho a paixão pela história.
A ele ficamos a dever:
– Tanto questionamento do património;
– Tanto relato de fatos quotidianos;
– Tanta análise dos actos de arte;
– Tanta partilha de vida e de fé;
– Tanta dedicação e entrega à Paróquia e aVila Nova da Barquinha!
Além de músico da banda dos Bombeiros, durante dezenas de anos, foi organista e solista desta Paróquia de Santo António da Barquinha que hoje, fisicamente, deixa.
O Sr. Roldão era sempre dado a uma bela e culta conversa.
Estava sempre inspirado!
E aliava essa inspiração à sua enorme sensibilidade humana, uma das suas superioras características.
Que conforto foi sentir o seu cantar épico, o correr de verbo e das narrativas, saindo fervilhando da sua língua mãe e da sua alma, sinal genuíno deste povo, bem fraterno, resiliente e rijo, numa roda diária, anual, rítmica, incerta e finita como a sua e nossa vida!
E, depois, e depois … momentos e pormenores humanistas nas majestosas cerimónias religiosas e, também, em conversas privadas, e de incertezas sobreas gentes barquinhenses que agora ficam mais pobres por ausência do seu ser e do seu pensar.
“Tudo deixamos quando descemos à terra, mas deixamos aqui ficar o bem que fizemos”.
Em nome de todos os barquinhenses, gratifico, encarecidamente, a sua doação em vida e a sua dedicação.
Heráclito de Epheso anunciou: “O pior de todos os males seria a morte da palavra”.
O seu verbo não morreu, ficougravada a letras de oiro por esses locais de leitura, vulgo Bibliotecas, e, como gostava de dizer, “por estas ruas de ninguém!”
São homens como este que criam em nós uma sólida vontade de conservar as nossas raízes e de tornar a terra onde vivemos num lugar impar, num sítio único.
Não se interessem pelo que ele disse;/ interessem-se pelo que ele escreveu.
O que disse era o que sentia; /O que escreveu era o que pensava.
E o que pensava perdurará por todo o sempre!
“Descanse em paz” Sr. Roldão. O nosso eterno Bem-Haja