Na manhã de quarta-feira, 28 de janeiro, a Formação Permanente do Clero da Diocese de Santarém, contou com uma conferência com o tema “Padres acompanhadores e acompanhados; os cuidados para acompanhar e ser acompanhado”, apresentada pela Psicóloga Clínica Margarida Cordo.
A oradora da manhã do último dia da formação anual do Clero, fez questão de informar que abordaria o tema do acompanhamento espiritual e da necessidade do cuidado humano, a quem habitualmente tem a missão de cuidar, com o sentido de desafiar à atenção de temas pertinentes.
“O padre, o psicólogo, o médico que acompanha também precisa de se deixar acompanhar. Somos produto da nossa historia, mas não temos de ficar reféns dela. O nosso passado é o nosso meio de transporte até ao presente, mas não uma jaula. O ser humano pode ser olhado por muitas dimensões, porque somos seres em relação com a própria vida, com o corpo, o silêncio, os outros”, afirmou.
Abordou na conferência, os dois lados do acompanhamento – clérigos acompanhadores e acompanhados – quem oferece orientação e suporte espiritual, servindo como guias no caminho da fé e do crescimento pessoal; e acompanhados, os que buscam apoio e orientação, reconhecendo as suas próprias necessidades de crescimento e cuidado. “Dá quem tem, recebe quem precisa”, afirmou Margarida Cordo. No contexto do clero, elucidou que “a entrega ao outro é a norma. Mas os que dão precisam de ter um equilíbrio na sua doação e entrega. A harmonia da vida e a disciplina, são essenciais. Quando damos, somos capazes de receber? Ou é só uma máscara a doação exterior? Ninguém dá apenas nem recebe só”, esclareceu.
Existem critérios claros, segundo a psicóloga clínica, que ajudam a compreender quando alguém necessita de cuidado, porque existem sinais de alerta que se revelam e que devem ser atendidos. Um quadro de sintomas psicossomáticos como fadiga extrema, ausência de apetite, insónia severa, dores crónicas; uma rigidez e escrúpulo obsessivo demonstrados de um vida espiritual compulsivo, um perfeccionismo paralisante, a incapacidade de paz interior, e pensamento ruminativo sobre pecado, devem servir de alertas. Também se identifica a ideação da morte e falta de esperança, com pensamentos que levam à morte, ao suicídio, a compreender a desesperança profunda que não responde a intervenções espirituais (oração, sacramentos etc). Surge ainda por vezes quadros, segundo a interveniente, que revelam sinais de alerta, como a ausência de vontade de agir, notada pela incapacidade de tomar decisões básicas, perda de iniciativa, e apatia generalizada, que leva muitas vezes a quadros perigosos na má gestão de afectos, emoções e funções.
Desta forma, Margarida Cordo, identificou na apresentação que realizou uma série de critérios de cuidado, úteis para o padre acompanhador, e para qualquer pessoa, que é chamada pela missão, a orientar a vida de quem lhe é confiado. A pessoa que deve conhecer os próprios limites, feridas e pontos cegos para não projetar os mesmos nos que são acompanhados. A capacidade de ouvir verdadeiramente, no exercício de escuta sem pressa em julgar ou oferecer soluções rápidas, validando a experiência do outro. Desafio da gestão de reconhecer e viver adequadamente as dinâmicas emocionais que surgem na relação de acompanhamento, mantendo a distância e limites saudáveis, que leva quando há déficit, a questões de abusos de poder, sexuais entre outros, pelo perigo da dependência das relações. Prevenção da fadiga por compaixão, pois o excesso de entrega pode conduzir a uma fadiga e cansaço doentio. O tema actual do “burnout” na vida consagrada, deve ser confrontado com coragem. “Um padre saudável é aquele que transita saudavelmente entre a cadeira de quem acompanha e quem é acompanhado. Pedir ajuda não é falhar na fé”.
Alertou ainda para a importância de que nas comunidades e nos próprios, se deve ajudar a “desconstruir a imagem da figura do “super homem” sacramental tantas vezes colocada sobre os ministros da Igreja, “pois somos todos humanos, e assumir a vulnerabilidade não é humilhação”. Margarida Cordo, esteve ainda disponível para dialogar com o clero presente deixando questões para reflexão. “Reconhecer que não acompanhamos funções, acompanhamos pessoas concretas com biografias complexas e historias imperfeitas”, concluiu.
No edifício do Seminário de Santarém, a tarde seguiu o mesmo modelo do dia anterior, com trabalhos de grupo, um plenário e oração de vésperas. O Bispo diocesano acompanhou toda a formação.
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