Bispo de Santarém presidiu à Paixão do Senhor, sem assembleia de fiéis, na Catedral
Sexta Feira Santa
Sé de Santarém
Homilia na Celebração da Paixão do Senhor (sem assembleia de fiéis)
Irmãos
Esta liturgia de Sexta feira Santa tem a cor do martírio e a dimensão do silêncio, revela-nos a Paciência de Cristo e a sua fidelidade ao projeto de Reino em que o Messias é pobre, mas com a capacidade de implementar no mundo, o Amor abrangente e misericordioso de Deus que renova a humanidade. É nesse reconhecimento que rezaremos, hoje de forma especial, por todos os povos e nações e por todas as situações preocupantes em que o mundo se encontra.
A Paixão de Cristo, com tudo o que tem de drama, fidelidade e luta interior, amor e sofrimento, encontra-se espelhada no mundo perplexo, de dor, dúvidas e preocupações. Porquê assim? Como compreender? Onde está a causa de tudo isto? Estas interrogações que podemos colocar, acerca da origem da pandemia, podem ser as mesmas sobre a Paixão e Morte de Jesus.
No que se refere à pandemia não temos resposta. O que não temos dúvida é que o mundo está a viver, já há semanas, numa grande Sexta feira Santa.
Sobre a paixão e morte de Jesus atribuímos, facilmente, as culpas aos judeus ou aos representantes do Império Romano. Mais tarde, refletindo melhor, acabamos por confessar no Credo que o Senhor morreu pelos nossos pecados: “também por nós foi crucificado sob Pôncio Pilatos; padeceu e foi sepultado”. Portanto, morreu por todos, também nós lá estávamos representados naqueles que pediam a morte de Jesus. Em verdade, apesar de algum esforço de fidelidade da nossa parte, por fragilidade e falta de vigilância, facilmente atraiçoamos o Senhor com opções na vida que são rejeição do critério da cruz.
Por Cristo, na cruz, Deus revela-se pobre e acolhedor dos pobres e pecadores. Na cruz não se revela um Deus que pode tudo, revela-se um Deus que, embora pareça ausente, é o Pai de bondade a quem Jesus tudo confia. Na cruz, é selada a nova e eterna Aliança; Cristo consagra a fidelidade do Amor de Deus pela humanidade. “Deus de tal modo amou o mundo que lhe deu o seu Filho unigénito, para que todo o que n’Ele crê não se perca, mas tenha vida eterna” (Jo 3,16).
É difícil entender a lógica de Deus, é uma loucura. Diante da cruz, com a imagem de Cristo crucificado, somos convidados a fazer um ato de Fé: Jesus deu a vida, morreu por amor para que seja vencido o poder do mal e da morte; não mostrou resistência, não fugiu, assumiu que tinha chegado a sua ‘Hora’, a ‘Hora’ em que a sua morte tinha significado. Tinha a força da Páscoa libertadora. Com Cristo, a cruz passou a ser símbolo da vitória do Amor.
Foi no Calvário, em sofrimento por amor, que Jesus nos deu a sua Mãe. “Eis a tua Mãe”. A Virgem Maria, é-nos dada como Mãe dos novos Filhos de Deus. Mas é também exemplo e o estímulo para que a Igreja se apresente com amor de mãe junto de todos os sofrem. Que a Virgem Mãe, a Senhora da Dores, interceda e acompanhe todos os seus filhos, e são muitos os que vivem em especial sofrimento e tribulação.
+ José Traquina