Celebração de início do Tríduo Pascal aconteceu à porta fechada na Sé
Quinta Feira Santa
Sé de Santarém
Homilia da Missa Vespertina da Ceia do Senhor
(Missa sem assembleia de fiéis)
Irmãos
Com esta Missa vespertina da Ceia do Senhor, damos início à celebração do Tríduo Pascal, o ponto alto de todo o ano litúrgico, no qual estão contidos oMistério Pascal de Cristo e o Nascimento da Igreja.
Nascemos na Páscoa e voltamos a comemorar a Páscoa para atualização da graça abundante da vida de Deus em nossas vidas. É a solenidade das solenidades da Igreja, mas este ano a solenidade é sóbria e restrita,por prudência e defesa da saúde dos fiéis. Este jejum sacramental obrigatório a que estão sujeitos os cristãos, é do conhecimento de Deus. Pedimos-lhe que conceda a todos a graça da participação, em comunhão espiritual.
Nesta celebração, a Igreja celebra a instituição da Eucaristia e do ministério sacerdotal de Cristo e o mandamento do amor fraterno. Em que circunstância é que Jesus dá início a estes sacramentos da sua presença? É o início do Evangelho proclamado que o revela: “Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai, Ele, que amara os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim” (Jo 13,1).
A Eucaristia é o memorial da morte e ressurreição de Cristo. Ao celebrarmos este memorial, atualiza-se a graça salvífica da entrega do Senhor pela sua Igreja e por toda a humanidade. É a grande herança que o Senhor Jesus nos deixou antes de morrer. A entrega que faz de si mesmo na cruz é antecipada na celebração da Ceia: “Isto é o meu corpo entregue por vós”. Esta foi a última e a única Ceia, já que todas as celebrações da Eucaristia são atualizações da mesma entrega e é o mesmo Senhor que, em nós, repete as mesmas palavras.
Ao confiar aos Apóstolos a missão “Fazei isto em memória de mim”, Jesus estava a confirmá-los na identificação sacerdotal da entrega. O ministério sacerdotal é um dom que requer comunhão profunda com aquele que representamos, numa entrega total pela causa do seu Reino e pela beleza e riqueza espiritual da Igreja, o seu povo, também ele sacerdotal.
A Eucaristia e o ministério sacerdotal são na Igreja e através da Igreja sinais do Amor de Deus para todos os que acolhem a sua Palavra. Mas os sacramentos da Fé devem traduzir-se na vida. A verdade do Amor revelado na celebração da Eucaristia deve traduzir-se em serviço aos irmãos. Surge, assim, o Lava pés. Ogesto de Jesus a lavar os pés aos discípulos não serve apenas para lembrar o ministério dos Diáconos, servepara traduzir o espírito que deve animar a vida de todos os cristãos: amar e servir. Este ano, por razões extraordinárias, não se faz o rito do Lava pés nesta Missa. O que é importante é guardar a palavra de Jesus: “Dei-vos o exemplo, para que, assim como Eu fiz, vós façais também” (Jo 13,15).
O apóstolo Pedro não queria aceitar a iniciativa de Jesus, porque só um escravo lava os pés ao seu Senhor e isso não condizia com a sua leitura acerca da majestade de Cristo como Messias. Foi necessário mais alguns dias para o Apóstolo Pedro entender e assumireste gesto de Jesus.
Lavar os pés à humanidade traduz o mistério pascal. Uma entrega por amor para purificar e libertar. Pensamos no que está a acontecer com muitas pessoas a trabalhar nos cuidados de saúde, entregues à causa de salvar pessoas doentes e fragilizadas com a pandemia que se instalou em todo o mundo. A celebração da Páscoa ajuda a dar especial significado aos redobrados cuidados, assegurados por tantos profissionais de saúde. Se nesse serviço acontece dedicação e amor aopróximo, então, também aí, Cristo se identifica com o doente e com aquele que dele cuida.
Preocupados uns pelos outros e pelo mundo, como acontece especialmente nesta altura, a celebração da Páscoa mobiliza-nos a sermos um dom para os outros, procurando estar do lado das soluções, agindo com generosidade e confiança.
Celebrada nestas circunstâncias, a Páscoa ainda reforça mais o modo como a vida dos cristãos deve ser traduzida em amor e serviço. No ambiente de uma família ou comunidade cristã, não interessa a importância social de cada um dos membros. Interessa, sim, que reine a verdade e o amor e haja solidariedade. Jesus deu-nos o exemplo e convidou-nos a segui-lo.
+ José Traquina