A alegria do ministério de Bispo

A alegria do ministério de Bispo
Na igreja Catedral, D. Manuel Pelino, Bispo emérito de Santarém, presidiu à Eucaristia, celebrativa do 22º aniversário da sua entrada na Diocese como Bispo.

Homilia proferida no IV domingo da Quaresma pelo Bispo Manuel Pelino:

"Ao celebrar convosco os vinte e dois anos de entrada ao serviço da diocese de Santarém manifesto os meus sentimentos de ação de graças a Deus que, pela sua misericórdia, me chamou a este ministério e de agradecimento aos presentes na celebração: ao Senhor Dom José Traquina que atualmente orienta esta porção do Povo de Deus com exemplar dedicação e bondade; ao Padre Campos,  na altura Vigário Geral, em quem sempre encontrei um colaborador com sabedoria, paciência e humildade; ao atual Vigário Geral, P Aníbal, zeloso, fiel e incansável trabalhador da Messe do Senhor, sempre disponível para as responsabilidades que lhe confiei; ao Padre Diogo, na altura vigário de Rio Maior, padre com o cheiro das ovelhas; e a estes dois padres mais novos, João Moita e João Ramalho, esperança do presbitério futuro.

É uma coincidência interessante recordar, passados 22 anos, a entrada na diocese também no dia 22 de Março e também no domingo da alegria. Para ser ordenado Bispo escolhi igualmente o domingo da alegria, fez 32 anos no passado dia 13. Porquê este apego ao domingo da alegria?

Quando fui chamado à Nunciatura Apostólica, em Lisboa, estava a preparar a missa do domingo “Gaudete” do Advento. Ao ser chamado, os sentimentos iniciais eram de “ovelha levada ao matadouro”. Mas a mensagem do domingo Gaudete levou- me a meditar na alegria da missão de levar a Boa Nova de conforto e consolação.

Antes do Concílio Vaticano II, a igreja vivia uma espiritualidade muito marcada pela cruz e pelo sofrimento onde a alegria do evangelho nem sempre era suficientemente realçada. No entanto, o mistério cristão está envolvido pela alegria. A partir do Concílio Vaticano II, esta dimensão tem sido mais claramente realçada, ao apresentar a fé como uma esperança, uma boa nova, uma fonte alegria. É um anúncio que nos liberta e nos orienta à caridade. A alegria é um dos frutos do Espírito Santo, elencado logo a seguir à caridade. O Papa Francisco tem realçado bastante esta dimensão da fé cristã como notamos nos títulos de várias Exortações Apostólicas.

Este IV Domingo convida-nos a viver a alegria juntamente com a iluminação. A vida cristã oferece uma perspectiva diferente para ver o mundo que leva a estilo de vida também diferente, pautado pela “bondade, justiça e verdade” como nos dizia São Paulo na segunda leitura. Na mesma orientação o Evangelho narra a cura do cego de nascença. É Jesus quem toma a iniciativa de curar o cego, Com o gesto de pegar na terra lembra a criação. De facto é como se desse uma nova vida ao cego. Este acolhe, obedece e mostra-se disponível para a surpresa de Deus. Pela sua humildade e confiança chegou à luz da fé. Afirma .a sua identidade – “sou eu mesmo” - e reconhece Cristo com presença de Deus – “Eu creio Senhor”.

Este domingo também nos ensina a ver na luz de Deus, como recomenda o salmo  35/36: “em vós, Senhor, está a fonte da vida e é na vossa luz que vemos a luz”. É a iluminação e a alegria que vêm da Páscoa. É este mistério pascal que nos permite ver e interpretar este momento difícil que estamos a viver numa atitude de conversão interior para alcançarmos uma vida nova, mais humana, mais liberta do individualismo e do materialismo. Nós, cristãos, temos a esperança de que a penitência da Quaresma nos ajude a vencer as nossas fragilidades e apegos para alcançarmos a liberdade de filhos de Deus. Que a luz do evangelho nos ilumine e nos dê coragem para caminharmos para a Páscoa como fonte da nossa esperança e da nossa alegria."

Domingo, 22 de Março de 2020