Homilia de D. José Traquina na Sé de Santarém
Irmãos
Em tempos difíceis para o povo de Israel, sobressai a palavra profética de Isaías. Numa oração de louvor e exultação, o Profeta vê a grande luz que começou a brilhar para o povo “que andava nas trevas”. A linguagem é de vitória sobre o pesado jugo e as forçaspolíticas e religiosas opressoras.
Um povo escravizado, sem ponta de soberania, é alimentado na esperança pelo homem de Deus, que fala como conhecedor íntimo do projeto do “Senhor do Universo: um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado. Tem poder sobre os ombros e será chamado Conselheiro admirável, Deus forte, Pai eterno, Príncipe da Paz”.
Ó profecia maravilhosa! “Um Menino nasceu para nós”.
São Lucas, no Evangelho que ouvimos, partilha connosco o anúncio feito de noite aos humildes pastores de Belém: uma grande alegria para todo o povo, que é o Nascimento do Salvador, “um Menino recém-nascido”.
Nesta Noite Santa de Natal, esta Palavra é para nós Palavra de Deus e Palavra da Salvação. É a força da Liturgia da Igreja que, pelo dom da Fé, atualiza a graça da vinda de Deus ao mundo.
O anúncio é de alegria, e a proposta é de imitarmos os pastores, indo ao encontro do Menino, o Salvador, com cânticos de alegria. A Liturgia oferece-nos o cântico, o Salmocom o refrão: “Hoje nasceu o nosso Salvador, Jesus Cristo, Senhor”.
Na contemplação do mistério do Natal, desponhamo-nos a olhar um Menino e considerar: Deus desceu ao nível da sua criatura humana. Sendo divino e humano, convive com os humanos, é Deus connosco. Não há desconsideração pela criatura humana; há consideração e reconhecimento. O Natal do Senhor Jesus revela a graça da nova criação: a criatura humana tem a capacidade de experimentar em si a presença de Deus. O Natal valoriza a criatura humana.
O anúncio feito pelos anjos aos pastores, do Salvador, do Menino recém-nascido, tem dois pormenores de identificação: está envolto em panos e deitado numa manjedoura.
Porquê assim? Por que motivo Deus surge envolto em tanta humildade e pobreza? No Natal, também podemos contemplar até onde vai o Amor de Deus! A humildade e pobreza do Menino Jesus do presépio, torna-o atrativo e luminoso. É uma provocação à mudança, a um novo nascimento, um novo amor e um novo olhar.
A humildade é virtude de referência no atual Ano Pastoral 2019-2020, na nossa Diocesede Santarém. Por isso, importa salientar a humildade no Natal de Jesus.
A humildade não é virtude cultivada no nosso tempo, é abandonada. A seguir, também facilmente é abandonada a verdade, a consideração e a estima. Todavia, Jesus associoua humildade à coragem, ao amor, ao espírito de serviço e capacidade de acolhimento. Econvidou à aproximação a Ele, sem medo: “vinde a mim que sou manso e humilde de coração” (Mt 11,29). O humilde é aquele que se descobriu amado por Deus! E só quemé amado, é capaz de dar a vida por amor.
O humilde reconhece que tudo recebeu de Deus. Por isso, Jesus ensina aos seus discípulos: “Quando tiverdes feito tudo o que vos foi ordenado, dizei: somos servos inúteis, fizemos o que devíamos fazer” (Lc 10,17). Ou seja, o discípulo não deve gloriar-se a si mesmo, deve amar, servir e dar glória a Deus.
O Natal do nosso Salvador, é revestido daquela mesma humildade que Jesus havia de revelar na última Ceia, quando lavou os pés aos Apóstolos, dando-lhes o exemplo do que eles haviam de fazer uns aos outros. A humildade, não é inferioridade doentia, é a virtude que permite ao cristão encontrar o caminho da verdade e do amor.
Com humildade, conseguimos reconhecer que nada do que temos é propriamente nosso.Tudo o que somos e temos, tudo é dom. Não pode haver lugar para a soberba. O que deve existir é alegria, interior e exterior.
Meus irmãos, na segunda Leitura que ouvimos, da Carta de São Paulo a Tito (2,11-14), temos a melhor exortação para concluir a mensagem desta Noite: “Manifestou-se a graça de Deus, fonte de salvação para todos os homens, ensinando-nos a renunciar à impiedade e aos desejos mundanos para vivermos, no tempo presente, com temperança, justiça e piedade”.
Contemplando a pobreza, a humildade e a ternura de Deus, e contando com aintercessão da Virgem Maria e de São José, regressemos como os pastores de Belém, louvando e glorificando, contentes porque privilegiados com o anúncio. Que esta solenidade reforce, em nós, a Luz da Bênção, a alegria de nos sentirmos amados e chamados a pertencer ao Reino de Cristo.
+ José Traquina