Discurso do Bispo diocesano no Centenário d’O Almonda

Discurso do Bispo diocesano no Centenário d’O Almonda
No passado sábado, o jornal “O Almonda” comemorou 100 anos de existência, com uma história que congregou e construiu a zona de Torres Novas. Esta data importante foi assinalada pela presença do Bispo da Diocese, D. José Traquina.

A Igreja é Comunicação

 

Saudação às entidades presentes

Duas palavras, uma sobre a Igreja e o seu interesse pelo jornalismo e por tudo o que é comunicação social, e outra sobre o Almonda.

A Igreja é comunicação, nasceu da palavra comunicada oralmente que só depois passou a escrita. A Igreja é um povo que celebra, tem uma Liturgia, como acontece na celebração da missa e dos outros sacramentos. A Igreja tem a missão de testemunhar de forma organizada, através das instituições sociais promovidas pelas comunidades (Cáritas, Centros Sociais Paroquiais, Misericórdias, etc.). Comunicação e ensino, celebração litúrgica e ação social, são três aspetos (rostos) pelos quais a Igreja se manifesta e é conhecida.

A Igreja é comunicação e é por aí que tudo começa. Comunica e ensina. Interessa-se por jornais, revistas, rádio, televisão, redes sociais, internet e também por ensinar; formação cristã, escolas, colégios católicas, universidades católicas, etc.. Qual é o fundamento deste interesse? Encontra-se no Evangelho.

O evangelista S. João começa por afirmar que Cristo é o “Verbo de Deus” (cf Jo1, 1-18), ou seja, a Palavra por excelência. Na sua origem a Igreja tem a seguinte indicação dada por Jesus aos seus discípulos: “Ide e ensinai…” (Mt 28,19). E disse também: “O que vos digo na escuridão, dizei-o à luz do dia, e o que escutais em segredo, proclamai-o sobre os telhados» (Mt 10, 27).

Trata-se de comunicar por palavras (sons e imagens) o testemunho acerca de Jesus Cristo, a sua Novidade acerca de tudo o que é humano, o valor, o interesse e o sentido da vida. Na verdade, também hoje é importante e necessário que o homem saiba qual é a sua vocação e o seu destino (cf. Vaticano II, Gaudium et Spes, 22).

Por fidelidade, a Igreja não pode calar-se. Tem de anunciar a Palavra, onde Cristo é referência para a edificação da Vida humana e da sociedade com base na justiça e na paz.

“À Igreja, pois, compete o direito nativo de usar e de possuir toda a espécie destes meios, enquanto são necessários ou úteis à educação cristã e a toda a sua obra de salvação das almas” (in Concílio Vaticano II, Decreto Inter mirifica, nº 3)

Assim a Igreja tem o direito de usar os meios de comunicação social existentes ao serviço do bem do homem, considera-os bons para o progresso de toda a sociedade humana e ensina que tais meios devem ser corretamente usados para não se converterem em meios da ruína do próprio homem.

Considera ainda a Igreja que deve existir uma ética e uma obrigação moral em todos os agentes da Comunicação Social. E há. Tenhamos presente apenas o que diz o nº 1 do  Código Deontológico do Jornalista

“O jornalista deve relatar os factos com rigor e exatidão e interpretá-los com honestidade. Os factos devem ser comprovados, ouvindo as partes com interesses atendíveis no caso. A distinção entre notícia e opinião deve ficar bem clara aos olhos do público.” (Aprovado a 4 de Maio de 1993).

O Jornalismo na Igreja tem servido como plataforma de anúncio e defesa de valores:

-Há valores e princípios morais e éticos a defender;

-É um serviço à comunidade que a faz crescer e progredir;

-É plataforma que identifica a Igreja pela sua missão de esclarecer e ajudar a formar a consciência;

-É um meio de defesa de acusações falsas;

-É um direito de cidadania numa sociedade democrática.

Jornalismo regional (da Igreja e não só da Igreja), como verdadeiro serviço público que presta, merece ser apoiado para ser independente e estar ao serviço da verdade e do bem comum da comunidade cristã e da sociedade mais alargada.

Reconheça-se o direito a uma certa linha editorial de um Jornal católico que deve estar em sintonia com o ensino da Igreja acerca da pessoa humana e dos valores que defende para a edificação da sociedade. Nesta lógica, se um jornalista não está de acordo com certos princípios fundamentais que a Igreja defende não deve aceitar trabalhar num jornal católico.

A uma Direção de um Jornal católico supõe-se o amor, o respeito pela  realidade social a que se destinaNão funcionando como empresa baseada em objetivos de lucro económico, um Jornal Católico deve assumir o amor por uma causa nobre que é informar com intenção de colaborar no bem comum da sociedade a que se destina.

Desde que assumi a missão de Bispo da Diocese, faz amanhã um ano, a Gráfica Almondina e o Jornal Almonda fazem parte das preocupações da Diocese. Nas conversas que tive com Padre Durval, com Padre Ricardo Madeira e outros responsáveis na direção da Gráfica Almondina, o Almonda foi assunto recorrente por razões económicas.

O momento é de gratidão por todos aqueles que ao longo destes cem anos colaboraram no Almonda e o fizeram com bom espírito de colaborar na edificação do bem comum desta cidade e das comunidades deste Concelho. O momento é também de balanço sobre as possibilidades reais da continuidade da publicação do Almonda. Para o efeito solicitei ao Prior e Vigário, Padre Ricardo Madeira, e à Administração da Gráfica Almondina uma reflexão abrangente e responsável onde não esteja ausente a melhor vontade para que o Almonda possa prosseguir o seu caminho. Existem sinais de esperança.

Muitos parabéns ao Almonda, muitos parabéns a todos os que nele colaboram e colaboraram e Deus recompense os da primeira hora que lhe deram origem e já não estão entre nós.

Muito obrigado por esta oportunidade de partilha.

 

+ José Traquina, Bispo de Santarém

 

Sessão comemorativa do Centenário do Jornal “O Almonda”

Torres Novas, 24-11-2018

Segunda, 3 de Setembro de 2018