Bispo diocesano propõe caminho para os 50 anos da Diocese

Bispo diocesano propõe caminho para os 50 anos da Diocese
Em 2025, de hoje a seis anos, a Diocese de Santarém celebrará os seus cinquenta anos. (...) Foi definido um Objetivo para atingir no ano jubilar:  “Diocese de Santarém: Igreja missionária que se renova e agradece”.

Homilia da Solenidade da Dedicação da Catedral 

(44º Aniversário da Criação da Diocese)

Santarém, 16-07-2019

Senhor Bispo Emérito, D. Manuel Pelino

Caríssimos Padres e Diáconos

Seminaristas, Irmãs de Vida Consagrada, irmãos e irmãs em Cristo

A Festa litúrgica da dedicação da Catedral, acontece no mesmo dia do aniversário da criação da nossa Diocese de Santarém. Temos portanto motivos reforçados de ação de graças. Fazemos também deste dia o lançamento dos próximos anos pastorais para a nossa Diocese.

Para o documento que elaborámos, houve consenso em que o nosso projeto pastoral devia ter como base a Exortação Apostólica do Papa Francisco Evangelii Gaudium (A Alegria do Evangelho). O Santo Padre, ajuda-nos a situar como crentes neste mundo em que vivemos. Embora seja extensa a citação, penso que vale a pena revisitar a leitura: 
“O grande risco do mundo atual, com sua múltipla e avassaladora oferta de consumo, é uma tristeza individualista que brota do coração comodista e mesquinho, da busca desordenada de prazeres superficiais, da consciência isolada. Quando a vida interior se fecha nos próprios interesses, deixa de haver espaço para os outros, já não entram os pobres, já não se ouve a voz de Deus, já não se goza da doce alegria do seu amor, nem fervilha o entusiasmo de fazer o bem. Este é um risco, certo e permanente, que correm também os crentes. Muitos caem nele, transformando-se em pessoas ressentidas, queixosas, sem vida. Esta não é a escolha duma vida digna e plena, este não é o desígnio que Deus tem para nós, esta não é a vida no Espírito que jorra do coração de Cristo ressuscitado.
Convido todo o cristão, em qualquer lugar e situação que se encontre, a renovar hoje mesmo o seu encontro pessoal com Jesus Cristo ou, pelo menos, a tomar a decisão de se deixar encontrar por Ele, de O procurar dia a dia sem cessar. Não há motivo para alguém poder pensar que este convite não lhe diz respeito, já que «da alegria trazida pelo Senhor ninguém é excluído». Quem arrisca, o Senhor não o desilude; e, quando alguém dá um pequeno passo em direção a Jesus, descobre que Ele já aguardava de braços abertos a sua chegada” (EG 2-3).

Irmãos e irmãs, estamos na Catedral, sintamo-nos acolhidos por Jesus, o Senhor de todos os discípulos, que a todos envolve na sua paz, alegria, e missão. E demos lugar à Palavra referente a esta solenidade.

A igreja Catedral é considerada na Diocese, a igreja-mãe de todas igrejas onde é celebrada a Eucaristia e demais sacramentos. A celebração da Missa crismal na manhã de Quinta Feira Santa, ilustra bem o que acabamos de referenciar: aqui se preparam e são benzidos os santos óleos e daqui são levados para as igrejas paroquiais da Diocese.

Um aspeto da beleza espiritual da Dedicação, é o facto de ser um espaço especialmente reservado onde Deus se revela pela sua Palavra. Um espaço onde os cristãos se  reúnem em Nome de Deus, Pai, Filho e Espírito Santo, e se dispõem a escutar a Deus na sua Palavra, depois explicada por aquele que preside.

A primeira Leitura que escutámos, de Neemias (8,2-4a.5-6.8-10), é reveladora do efeito da Palavra. Com um espaço e ambiente bem preparados, e a Palavra bem escutada e explicada, o povo percebeu quanto tinha perdido ao longo de anos, quanto mal aconteceu, por estar afastado da Palavra profética.

A Palavra de Deus produz efeito no ambiente interior e exterior de quem a escuta; reconstrói-nos, “Somos edifício de Deus”, como diz São Paulo (cf. 1Cor 3,9c-11.16-17). Por isso, o grande tesouro na Catedral e em todas as igrejas dedicadas, é a Palavra de Deus. Assim como a igreja-templo é dedicada (consagrada) a Deus, também aquele que crê considera a sua consagração na maravilha do seu Batismo. Em Cristo, é-nos dado participar da plenitude da graça de Deus pelo dom do Espírito Santo, tornando-nos morada e imagem de Deus invisível. Com esta consciência, o cristão ganha beleza  interior e, livremente, dispõe-se a rever os seus critérios de vida. A experiência de Fé, engrandece a alma, gera novo entusiasmo, leva ao testemunho e a novos comportamentos.

No Evangelho (cf. Mt 16,13-19), ouvimos a afirmação de Cristo, exclusiva na versão de São Mateus: “Tu és Pedro e sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja”. Cristo associa a si a missão dos apóstolos.  Esta afirmação identifica já a Igreja Apostólica organizada. É carismática pela Graça do Espírito Santo que foi e é derramado, mas cresce harmoniosamente em sabedoria, com diversos serviços e ministérios.

Esta nossa igreja Catedral tem beleza, porque houve inspiração e organização de trabalho para a edificar. Também na Igreja, Povo de Deus, tem de haver a graça e dinamismo do Espírito Santo e necessariamente tem de haver organização. Assim, a Solenidade da dedicação da Catedral leva-nos a assumir: somos Igreja Diocesana, somos a Igreja de Cristo; una, santa, católica e apostólica. Usando as palavras de São Paulo, entre nós, “há diversos dons espirituais, mas o Espírito é o mesmo. Há diversidade de ministérios mas o Senhor é o mesmo. Há diversas operações mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos” (1Cor 12,4-6).

Conforme consta no Programa Diocesano, já disponível: “A Diocese de Santarém, constituída em 1975 como Igreja Particular, é a Igreja de Cristo aqui, Povo de Deus, neste espaço geográfico e humano num conjunto de comunidades cristãs, com diversos movimentos de espiritualidade e apostolado (...).

Neste Povo de Deus, Diocese, estamos todos; cristãos leigos, religiosos/as, diáconos, padres e bispos. Promovendo a participação e escutando as diferentes sensibilidades, não podemos deixar de considerar que o dinamismo da missão da Diocese, depende da união espiritual e da unidade na diversidade de carismas e iniciativas”.

Em 2025, de hoje a seis anos, a Diocese de Santarém celebrará os seus cinquenta anos. Será um ano jubilar. Na projeção pastoral, desenvolvemos uma reflexão e trabalho em equipa, enriquecido com a participação de várias auscultações, nomeadamente as duas sessões do Conselho Presbiteral. Foi definido um Objetivo para atingir no ano jubilar:  “Diocese de Santarém: Igreja missionária que se renova e agradece”. E foi definido um Lema que nos acompanhará ao longo dos seis anos:  “Somos uma missão nesta terra” (EG 273).

É apresentado um caminho, com diversas articulações e considerações, de modo a haver harmonia e progressão nos seis anos pastorais. Finalmente, é apresentado o primeiro dos seis anos, o próximo ano pastoral 2019-2020, com os seus objetivos e linhas de ação, e respetivo calendário pastoral. O próximo Ano Pastoral privilegia o discernimento, dos sinais e da missão, tendo como o Santo de referência, Santo Inácio de Loyola, como virtude de referência, a Humildade e como palavra inspiradora, o verbo: Acolher. Um ano para valorizar o Sacramento do Batismo e a vocação e missão dos Leigos, não esquecendo que teremos em Santarém o Encontro Nacional dos Leigos em 23 de Novembro. A tudo isto acresce os dinamismos a nível dos Organismos diocesanos: Já está Constituído o Comité Organizador Diocesano para na Jornada Mundial de Juventude em 2022; a Escola de Formação Cristã irá apresentar novas propostas de conteúdo e novo formato de participação e os Diversos Secretariados apresentarão também os seus programas, parte dos quais já se encontra no Calendário do Programa Diocesano.

Na próxima Assembleia Diocesana, no dia 5 de Outubro, terei oportunidade de ouvir a partilha, os ecos do acolhimento do Projeto e Programa Pastoral que hoje é apresentado. Não é uma obra prima, é um instrumento de ajuda e sai a tempo das Vigararias, Paróquias, Comunidades e Movimentos Apostólicos, o poderem considerar como referência, para elaborarem a sua própria programação.

Irmãos e irmãs, o mundo está em constante mudança e exige novas adaptações. Será em conjunto, uns com os outros, que havemos de encontrar as melhores opções de caminho na ação pastoral. Não podemos deixar de acompanhar o que existe na tradição cristã das nossas comunidades, mas temos de propor formação cristã para não nos sentirmos desgastados com uma religiosidade sem consequências na vida real das pessoas e da sociedade e, portanto, sem futuro.

Também há quem considere que devíamos promover o combate para denunciar os erros ideológicos da esquerda e da direita. Sabemos que não podemos ficar calados perante as injustiças e os erros, mas não podemos gastar o tempo a promover condenações, esquecendo a vitalidade do Evangelho que temos para anunciar e oferecer. E não é uma fuga, pois nos preocupa a realidade. Preocupa-nos o ambiente da indiferença e saber que existem pessoas abandonadas, mal amadas, sem alegria e sem esperança, sem apoios e com muitos medos, sem luz interior que as anime. A indiferença progrediu na sociedade e instalou-se até no seio de muitas famílias.

Existem preocupações diversas que suscitam a necessidade de propor o conhecimento do Evangelho de Cristo. Somos responsáveis pela missão de testemunhar a vida, vivida em confiança e paz, amor e respeitabilidade, sobriedade e alegria e em esperança, promovendo a cultura do interesse e do cuidado pelos outros.

O êxito da missão da Igreja Diocesana depende de todos os cristãos, dos jovens e seus animadores nos grupos e movimentos juvenis, dos adultos, dos catequistas, das famílias, das comunidades paroquiais, vigararias e movimentos apostólicos, dos Secretariados e Serviços Diocesanos, do apostolado desenvolvido pelas Irmãs de Vida Consagrada, das propostas de índole cultural e espiritual que vierem a ser promovidas,  e também dos que se empenham responsavelmente nos Corpos Sociais e gestão das Instituições de solidariedade social, na Cáritas e grupos socio caritativos.

Com uma realidade social sempre com novas preocupações, mas com o nosso privilégio da vida à luz da Fé, assumamos o lema: “Somos uma missão nesta terra”. A força encontra-se n’Aquele que nos envia: Jesus Cristo, nosso Mestre e Senhor. Celebrando a Dedicação da Catedral, roguemos a Graça necessária para a missão no contexto da nossa Diocese, e em sentido mais largo, da Igreja em Portugal.

À Virgem Maria, modelo eclesial para a evangelização, Mãe da Igreja e nossa Padroeira, a Imaculada Conceição, rogamos a sua companhia e intercessão para a missão que a todos é confiada.

     

+ José Traquina

Bispo de Santarém

Quarta, 17 de Julho de 2019