Missa Crismal

Missa Crismal
Homilia do Bispo de Santarém - D. José Traquina

Caríssimos Padres e Diáconos,

Caro Bruno Filipe e demais companheiros seminaristas

Irmãs e irmãos

Escolhemos este dia, de especial significado na História da nossa Diocese e da Catedral, para celebrar a Missa crismal que não pudemos celebrar em quinta-feira santa. A consulta que fiz no Conselho Presbiteral foi indicativa de que, com os distanciamentos e outros cuidados, devíamos promover esta celebração.

A renovação dos compromissos de Ordenação sacerdotal que os presbíteros fazem nesta celebração costuma ser acompanhada por grande número de fiéis cristãos. Desta vez, por razões de segurança, não confirmámos o convite, mas alguns, certamente, acompanham-nos pela transmissão em direto para as redes sociais.

A Unção espiritual de Cristo

Não nos cansamos de escutar o Evangelho proclamado: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres”. Jesus confirma que n’Ele se realizava a profecia de Isaías: “cumpriu-se hoje o que acabais de ouvir”. Assim, a unção do Espírito é em Jesus para assumir uma Missão que é dedicação ao Povo de Deus mais afastado, pessoas socialmente desconsideradas: os pobres, os reclusos, os cegos e os oprimidos.

A Unção espiritual de Cristo em nós, seus discípulos enviados

Hoje retomamos a Unção de Nosso Senhor Jesus Cristo. Naquela sinagoga de Nazaré, todos tinham os olhos postos n’Ele. Também nós, ‘espiritualmente’, devemos fixar os olhos em Jesus, pois na sua Igreja, é d’Ele que recebemos a unção e a missão. Como ouvimos na segunda Leitura: “Cristo é Aquele que nos ama e pelo seu sangue nos libertou do pecado e fez de nós um reino de sacerdotes para Deus, seu Pai” (Ap 1,5b-6).

Na verdade, quando ao padre é pedida uma bênção, um atendimento de confissão, a unção de um doente, a oração por uma pessoa hospitalizada ou por uma família que ficou sem rendimentos para se sustentar, o dirigir uma palavra a uma família enlutada, o acompanhamento e fortalecimento dos leigos que exercem missões de evangelização... quando isto acontece, o povo de Deus está a expressar a sua Fé na Unção espiritual de Cristo que o Padre recebeu na sua Ordenação sacerdotal.

Portanto, cuidemos da Unção espiritual de Cristo em nós, no exercício do ministério, com acolhimento ao Espírito Santo que purifica e renova os corações. Necessitamos desta ação do Espírito, também, para assumirmos a dimensão profética e pastoral que o Senhor nos confia a todos como Igreja Diocesana. Este cuidado pessoal permite que não se perca a beleza e o odor do perfume recebido na Ordenação sacerdotal, para nossa alegria, o bem da missão e a maior glória de Deus.

O estilo de Jesus: acolher

No ano pastoral que está a terminar, a palavra de referência do nosso programa era o verbo “acolher”. Na pessoa de Jesus, a capacidade de acolhimento tinha o tamanho do seu coração. De forma itinerante, Jesus acolhia todas as pessoas nas mais diversas situações de aflição ou distanciamento. Rezava ao Pai e saía à procura daqueles que viviam “como ovelhas sem pastor”. A capacidade de acolhimento de Jesus não é uma questão de tempo cronológico, não se mede pelo horário do cartório, é uma graça que corresponde à sua infinita capacidade de amar as pessoas. Jesus olha para todos e acolhe com a bondade e o coração de Deus Pai.

Importa salientar esta capacidade de acolhimento de Jesus, em cada um dos seus discípulos enviados: a capacidade de amar as pessoas, as da comunidade e as de fora. Trata-se de captar e viver o próprio estilo de Jesus: uma vida e um coração que torna presente no mundo o Amor e a preocupação de Deus pela humanidade. : “Quem acolhe um destes pequeninos, é a Mim que acolhe; e quem Me acolhe a Mim, acolhe o Pai que Me enviou” (Mc 9, 37). Trata-se de uma simplicidade que até pode incomodar. Mas foi assim, com simplicidade, bondade e coragem que Jesus revelou a Unção espiritual e a divindade do Pai.

O futuro do mundo exige bondade

 Como sairá a Igreja desta Pandemia? Perguntam alguns! Depende da sua fidelidade a Cristo e ao Evangelho; depende da atenção que os cristãos prestam uns aos outros e aos mais pobres da sociedade. Sublinho a fidelidade traduzida em sinais vivos de bondade e do Amor que o mundo necessita para se salvar. O Evangelho é fonte de humanização. Num mundo onde o bem comum das pessoas, em tantas situações, não é o centro nem a razão de ser dos investimentos, importa reconhecer que não basta o conhecimento para definir estratégias de caminho com futuro; além dos conhecimentos é fundamental a bondade.

O Novo ano pastoral

Na fidelidade ao acolhimento da Palavra e do ensino dos apóstolos (cf. At 2,42), a Igreja, povo de Deus, é chamada a ser referência e testemunha credível de espiritualidade e de unidade, vivendo as dificuldades da sociedade e do mundo do seu tempo e decidindo a vida à luz da Fé. Temos pela frente o novo ano pastoral 2020-2021. Não sabemos que condições teremos para o viver. No entanto, entre outras propostas, temos um ano para tomar conta das orientações do Novo Diretório para a Catequese e aprofundar a Carta Encíclica Laudato Si, do Papa Francisco. A questão ecológica do planeta Terra e os milhões de pobres no mundo, são os dois maiores problemas mundiais que a Igreja inteira deve refletir.

Valorização dos sinais

Ainda referente aos últimos meses, onde se viveram perplexidades e desânimos, quero salientar os muitos sinais esperança que os Padres promoveram em muitas terras e comunidades. A pandemia levou muitas pessoas a tomar mais viva consciência e a valorizar a sua dimensão de Fé, recebendo sinais de bondade e de alegria. Vimos o esforço feito para a transmissão de celebrações e tempos de oração e outros ensinamentos, bem como o cuidado dos pobres e dos mais frágeis. Com a qualidade possível, padres e leigos promoveram, assim, manifestações de bondade à luz da Fé.

Caríssimos padres, continuemos a desenvolver a capacidade de adaptação e de resposta às necessidades das pessoas e a chegarmos mais longe, quanto possível, na promoção do bem. Reine a bondade no meio das dificuldades. E esta celebração seja um momento de graça: Deus Pai renove o nosso coração como ungidos e enviados no Espírito Santo e fortaleça a nossa identidade como discípulos do mesmo Senhor, Jesus Cristo Bom Pastor.

Ministério do Acolitado

  Uma palavra ao Bruno Filipe.

Caro Bruno, o ministério do Acolitado situa-te mais na proximidade do altar. Enquanto candidato às Ordens sacras, permite-te uma gradualidade na responsabilidade de servir o Senhor, servindo o Povo de Deus na Liturgia, e ajuda-te a aprofundar o mistério da tua vocação. Este novo ministério supõe a tua fidelidade à oração e o culto da generosidade, um amor generoso, como se deve identificar um discípulo de Cristo. Não devemos menosprezar a importância deste ministério. O Acólito tem a função de cuidar do serviço do altar, auxiliar o Diácono e o Sacerdote, distribuir a Sagrada Comunhão, como ministro extraordinário, quando necessário, e também, sendo necessário, pode ainda fazer a Exposição do Santíssimo Sacramento e a respetiva reposição, sem a Bênção.

Tudo isto, caro Bruno, supõe que, progressivamente, possas exercitar a tua doação pessoal, para te ires identificando com Cristo no mistério da Eucaristia que celebramos no altar. Uma doação que se pode expressar por uma concentração, serenidade e alegria no exercício do ministério. Para nós, a tua a vida com o ministério do Acolitado é uma esperança; que seja também um testemunho e exemplo para os jovens na nossa Diocese.

  + José Traquina