Homilia na Missa da Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus

Homilia na Missa da Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus
Celebração na Sé de Santarém

Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus

Santarém, 1 de Janeiro de 2020

Dia Mundial da Paz

Caros Irmãos em Cristo

Começamos o novo Ano civil com esta Solenidadee celebração da Eucaristia, sacramento da presença de Cristo, Deus-connosco. Não estamos sós, o Senhor nos acompanha, dá-nos força e ilumina o caminho a seguir.

1. Início do novo Ano civil

Damos graças a Deus por todos os dons recebidos ao longo do ano 2019 e, certamente, todos desejam acolher a mensagem de Bênção da Primeira Leitura (Nm, 6,22-27) para o novo ano de 2020.Na verdade, gostamos de acolher as orações e gestos de Bênção do sacerdote que preside à celebração. Trata-se da Bênção do próprio Deus:“O Senhor te abençoe e te proteja”. O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e te seja favorável”. É, portanto, a graça e a força de Deus que é rogada como Bênção para os que creem.

2. Santa Maria, Mãe de Deus

Em Tempo litúrgico do Natal, evocamos a Virgem Santa Maria como Mãe de Deus; é o mais antigo e mais elevado de todos os títulos de Nossa Senhora.Trata-se de uma afirmação de Fé acerca do seu Filho: afirmamos que Jesus Cristo é verdeiro homem e verdadeiro Deus, com o Pai, e que nasceu de Maria inteiramente com as duas naturezas. 

Porque o Filho de Deus foi concebido no seio da Virgem Maria e dela nasceu, nós a evocamos como Mãe de Deus. Entretanto, Cristo na cruz atribuiu-lhe a nova missão de ser Mãe dos seus discípulos;por isso, também a evocamos como Mãe dos cristãos e Mãe da Igreja.

Conforme ensina São Paulo, na Segunda Leitura(Gl 4,4-7), a grande graça que recebemos da Vinda do Filho de Deus ao mundo é o dom do Espírito Santo que “Deus enviou aos nossos corações”; é o “Espírito de seu Filho, que clama: Abbá! Pai!”. Em Cristo recebemos a nova vida de Deus, vida espiritual que é comum na sua origem para todos. 

Assim, os que recebem este Espírito rezam o Pai Nosso com toda a legitimidade e graça, já não são escravos, mas Filhos de Deus. Esta é a grande graça libertadora.

3. 53º Dia Mundial da Paz

Com a elevada evocação da Mãe de Deus, no primeiro dia do Ano civil, a Igreja assinala o Dia Mundial da Paz, que resulta de uma iniciativa doPapa São Paulo VI, em 1967. Foi há 53 anos. 

Este ano, o Dia Mundial da Paz tem uma mensagem do Papa Francisco, com o tema «A Paz comoCaminho de Esperança: Diálogo, Reconciliação eConversão Ecológica», da qual sublinho breves passagens. 

“Abrir e traçar um caminho de paz é um desafio muito complexo, pois os interesses em jogo, nas relações entre pessoas, comunidades e nações, são múltiplos e contraditórios. É preciso, antes de mais nada, fazer apelo à consciência moral e à vontade pessoal e política. Com efeito, a paz alcança-se no mais fundo do coração humano, e a vontade política deve ser incessantemente revigorada para abrir novos processos que reconciliem e unam pessoas e comunidades. (...)

A paz é uma construção que «deve estar constantemente a ser edificada», um caminho que percorremos juntos procurando sempre o bem comum e comprometendo-nos a manter a palavra dada e a respeitar o direito”.(...).

Na nossa experiência cristã, fazemos constantemente memória de Cristo, que deu a sua vida pela nossa reconciliação (cf. Rm 5, 6-11). A Igreja participa plenamente na busca duma ordem justa, continuando a servir o bem comum e a alimentar a esperança da paz, através da transmissão dos valores cristãos, do ensinamento moral e das obras sociais e educacionais”.

Irmãos, é meu dever partilhar a preocupação que se vive nas Instituições de Solidariedade Social.Preocupação que é de todos os Bispos de Portugal.

Há dez anos atrás, (com início pelo ano 2008) estávamos em Portugal numa acentuada crise económica, com a governação do país a acontecer com a fiscalização da Troika, do Banco Central Europeu e do Fundo Monetário Internacional. Foram anos de especial dificuldade para a população portuguesa “com milhares de pessoas sem rendimentos económicos suficientes. Nessa crise, que se alargou por vários anos, as IPSS foram o setor social que mais conseguiu garantir os locais de trabalho dos seus colaboradores, assegurou os serviços aos utentes, cujas famílias não conseguiam pagar a sua comparticipação, e assegurou ainda apoio de alimentação a pessoas e famílias que ficaram sem rendimentos.

Passados dez anos, perante a paulatina superação da crise, são as IPSS que vivem uma situação de preocupação quanto ao futuro do serviço que prestam, devido à dificuldade económica que atravessam. Aumentaram os encargos sociais para o seu funcionamento e reduziram-se as receitas, em virtude da fragilidade social com a diminuição e envelhecimento da população. Em media, 58% dos custos de funcionamento das IPSS são com o pessoal, e em muitas situações com salários baixos. (...) O conjunto das diversas dificuldades tem como efeito que 40% das IPSS se encontram financeiramente deficitárias” (CEP, in Carta Pastoral “Um olhar sobre Portugal e a Europa à Luz da Doutrina Social da Igreja” (2019), 4.2.).

Irmãos, como é do conhecimento de todos, a partir deste mês de janeiro, os custos de funcionamento das IPSS vão aumentar e, portanto, a preocupação está acrescida. Não é bom para a sociedade civil que as suas instituições sociais sejam asfixiadas, por falta de condições económicas para corresponder aos serviços que prestam, em conformidade com as exigências legais. Não sabemos nem como, nem quando, decorrerão as conversações que necessariamente se impõem sobre este assunto, com a Segurança Social, mas esperamos que haja justiça e bom senso para bem de toda a população.

O Natal de Jesus que celebramos leva-nos à consideração da pessoa humana. É uma afirmação exaltante de cada ser humano, e o Evangelho deste dia refere a presença dos pobres pastores de Belém. São uma referência da missão de Jesus: veio para todos, especialmente para os pobres. 

Cuidar da pessoa humana é cuidar da sua saúde, educação, ambiente familiar, trabalho, espiritualidade, ideais com objetivos positivos,sentido do bem comum, em espírito de solidariedade, onde haja lugar ao perdão e à festa. Porém, a inquietante falta de respeito pela vida humana, a falta de educação e formação da consciência, a violência dentro do espaço familiar, a falta de respeito para com as crianças e outros comportamentos que corrompem o tecido social, mostram ao cidadão comum que o êxito económico empresarial não é suficiente para o desenvolvimento e bem-estar da sociedade em que queremos viver.

Não nos fiquemos pela lamentação nem pela exigência de responsabilidades aos governantes e decisores políticos. Sintamo-nos responsáveis pela sociedade em que vivemos e participemos em reflexões de aprofundamento que levem a atitudes,segundo princípios e valores de defesa do bem comum. Os cristãos devem estar na primeira linhada frente no interesse pelo bem da sociedade em que vivem.

O Evangelho (Lc 2, 16-21) que escutámos, diz que“Maria conservava todos estes acontecimentos, meditando-os em seu coração”. Na verdade, Maria e José não tinham uma indicação prévia de como haviam de responder a todas as situações complicadas. Tomavam decisões conforme as circunstâncias com que se deparavam, e meditavam em seu coração.

Sigamo-los como homens e mulheres de paz. Não uma paz de quietude de quem não tem problemas, de quem não tem nada que fazer. A nossa paz é operativa, vem-nos de Cristo; é a certeza de um amor indestrutível que nos liga e envolve na construção do que é bem. 

Cristãos, homens e mulheres de paz e bem. Como rogava São Francisco de Assis, que o Senhor faça de nós instrumento da sua Paz. Para isso, disponhamo-nos à conversão e reconciliação necessárias, como sugere o Papa Francisco na sua Mensagem para este dia.

Interceda por nós, a Mãe de Deus, Rainha da Paz.

+ José Traquina