Homilia da Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo

D. José Traquina Os cinco pães e os dois peixes que Jesus abençoa e multiplica saciando aquela multidão, é sinal e anúncio da Eucaristia que nós celebramos.

Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo
Santarém, 20-06-2019 – Ano C


Irmãs e Irmãos

            Acabámos de escutar o Evangelho (Lc 9,11b-17) que nos coloca em contemplação de uma multidão de pessoas que num espaço aberto escutava Jesus a falar sobre o Reino de Deus. Manifestando sentido de responsabilidade, os discípulos pedem a Jesus que mande embora aquela multidão, pois o dia estava a declinar e havia poucos alimentos. Jesus, porém, desafia os seus discípulos a serem eles mesmos a garantirem o alimento necessário.

            Os cinco pães e os dois peixes que Jesus abençoa e multiplica saciando aquela multidão, é sinal e anúncio da Eucaristia que nós celebramos. A Bênção da Eucaristia é sempre de Cristo, e a multidão é sempre olhada por Jesus com todo o interesse e com todo o amor.

            Neste dia, 20 de Junho, em que celebramos a Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, por coincidência, ocorre o Dia Mundial dos Refugiados. É oportuno ter em conta que existem no mundo quase 70 milhões de pessoas refugidas. Pessoas que foram obrigadas a abandonar as suas casas por causa da guerra, conflitos ou violência. E o fenómeno da busca de outro lugar no mundo, continua: em cinco meses deste ano terão morrido no mar mediterrâneo 600 pessoas a tentar chegar à Europa.

            Não existe consenso nos países da Europa quanto a opções políticas e humanitárias no apoio a imigrantes e refugiados; nalguns países é considerado crime auxiliar um refugiado. A Cáritas manifestou preocupação pelas formas de “repressão a migrações irregulares”, a chamada “criminalização da solidariedade” que se tem difundido pela Europa.

            Conforme o Evangelho, Jesus interessa-se pela multidão de pessoas; pessoas não só famintas de pão, mas carenciadas de dignidade, de esperança, de garantia de direitos humanos.

            Somos convidados a colocarmo-nos do lado de Cristo a olhar a multidão e a considerar que é possível o milagre da alimentação para todos. É verdade que a população do mundo aumentou, é verdade que muitas pessoas passam fome, mas também é verdade que são produzidos muitos alimentos que, por excesso, não chegam a ser consumidos. 

            Existem nas Comunidades da nossa Diocese, cristãos e cristãs que, de forma organizada em grupos ou serviços, assumem a missão de olhar e atender as situações de carências que surgem na população. É importante registar essa dedicação como extensão da Missa que celebramos. A Eucaristia, é sempre o Pão partido e repartido, celebração do Amor de Cristo por todos, Amor que envolve os discípulos para que estejam inteiramente ao serviço do Reino de Deus, para que todas as pessoas encontrem a sua dignidade e vocação de filhos de Deus.

            Com a instrução para que celebrássemos o Memorial da nova e decisiva Aliança, “Jesus entrega à Igreja a atualização perene do mistério pascal” (João Paulo II, EE 5) e envolve-nos na mesma dinâmica do amor oblativo. E entregando-se ao Pai, entrega-se também a nós como alimento, Pão da Vida que nos fortalece nos propósitos de fidelidade para assumirmos, como seus discípulos, “a missão de ser Luz do mundo e Sal da terra” (Programa Diocesano). Esta missão também passa por ser alimento para os outros, alimentamos a vida de outras pessoas com uma palavra, uma orientação, um parecer, uma boa conversa, uma oração, um afeto, uma exortação, um palavra de escuta e de perdão. Enfim em muitas situações podemos ser luz e sabor para a vida de outros. Somos alimentados e também podemos alimentar.

            A Eucaristia é o grande sinal, o grande sacramento onde se celebra e expressa a comunhão espiritual da Igreja, Povo de Deus. A referência na Oração Eucarística ao Papa, ao Bispo Diocesano e a outros ministros e fiéis, aos Santos e aos irmãos falecidos, dão a abrangência da comunhão da Igreja, no Amor e na paz. Mas esta graça, supõe a vocação sacerdotal. Também hoje recordamos a necessidade de rezarmos pelos sacerdotes que temos e pela Pastoral das Vocações, para que os jovens tenham nos Padres e em todos os Fiéis, o exemplo de consideração pelo valor da Eucaristia, de tal modo que, também eles, se deixem atrair pela alegria de corresponder ao chamamento de Deus.

            A celebração da Eucaristia supõe a formação da consciência e o cuidado espiritual. Há um que preside mas todos, a seu modo, participam. Todos os participantes são recetores e comunicadores da presença de Deus, por isso, não deixemos resvalar a celebração da Eucaristia para o nível da animação rítmica sem o cuidado do ambiente de louvor orante.      

            A celebração da Eucaristia supõe também dos Acólitos, Leitores e Ministros extraordinários da Sagrada Comunhão um cuidado especial na forma como se apresentam e como atuam. Estamos todos ao serviço de Cristo, dispondo-nos a colaborar para que a Liturgia expresse com beleza, arte e verdade o encontro com Deus.

Os ministros extraordinários da Sagrada Comunhão têm ainda a missão extensiva de fazer chegar este encontro com Deus aos irmãos que estão doentes em suas residências.

            Reconheçamos, a beleza, a elevação espiritual e a grandeza de significado do Sacramento da Eucaristia, como o reconheceu o Evangelista São João: “Deus amou tanto o mundo, que lhe entregou o seu Filho Unigénito, a fim de que todo o que nele crê não se perca, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16).

+ José Traquina