A alegria pascal

A alegria pascal
maio 2019 A alegria é o modo de viver e se relacionar do discípulo que permanece em Deus.


Ao nascer, cada um apresenta ao mundo um novo modo de nele viver. Ora, isso é semelhante ao que o crente procura no nascimento das alturas. Essa semelhança pode ser reconhecida, sobretudo, pelo acolhimento de cada momento como um momento decisivo divino e pela comunhão com os santos que já ressuscitam e vivem em Cristo. Por isso, o nascimento pode-nos ajudar a ver a ressurreição. Para se aderir é preciso que o homem se converta Àquele que descobre depois de si, apesar de lhe ser anterior e superior. Para ver como a alegria que brota no crente é força relacional, é necessário apresentar primeiro a necessidade que o homem tem dessa alegria que nasce na sua vida com a conversão de vida.

A conversão, que a metamorfose em Cristo opera, leva o fardo humano a ser carregado com Cristo. O intuito do Senhor não é eliminar o próprio fardo ou torná-lo mais leve, mas carregá-lo com outro ânimo. O que altera com o cristianismo é a qualidade do peso e não o sofrimento em si. Devido à força do Espírito Santo, o sofrimento cristão é vivido em Jesus de um modo diferente. Nesta linha já afirmava Kierkegaard: «aquele que (...) bastante carregado, suporta um fardo leve: aí está o cristão».

A alegria, consequente de uma diferente qualidade do peso, é disposição do modo do que vive com Cristo. Ela torna-se deste modo a «modalidade afetiva do instante da passagem» para modo sobrenatural da ressurreição, em que o homem entra, a partir do seu modo ser natural. A noção de eternidade cristã liga-se à preocupação do «homem simplesmente» pelo cuidado que este tem e que o faz preocupar-se com o futuro e a morte. Esta transformação da finitude humana acontece com uma vivência de outro modo no mundo, pois não nascemos já na alegria, mas ganhamo-la com exercício.

Procuremos então o sentido mais profundo da alegria:

1 - A alegria cristã não é um êxtase que faz sair cada um de si mesmo, mas, ao invés disso, está presa ao próprio sujeito.

2 - A alegria cristã também não se refere somente a alguma visão futura beatífica uma vez que é dada já.

3 - Esta alegria também não é uma felicidade que deriva de um desejo da natureza do próprio sujeito, uma vez que nasce da integração em Deus, inclui essa integração e ainda supera a celebração da mesma.

4 - A alegria verdadeira não tem como finalidade divertir a pessoa, mas leva-a a voltar-se sobre si mesma [a este propósito note-se que o ‘voltar-se para dentro’ não compreende um autocentrar-se egoísta do homem, mas um voltar-se para o mais profundo de si mesmo para encontrar Deus, como nos explica S. Agostinho: «estavas dentro de mim e eu fora, e aí te procurava»]. Isto permite ao cristão ganhar o silêncio e saber estar sozinho [a este respeito é interessante ver como Pascal olha para o bem que vem do saber estar só e da pacificação da pessoa que daí deriva e que está sintetizada na seguinte afirmação: «toda a infelicidade dos homens vem de uma só coisa, que é não saberem ficar em repouso em casa»].

 

Assim, enquanto divina, a alegria não pode ser produzida, mas é sempre um dom a cada um no presente (cf. Jo 17:13). Esta alegria perfeita (porque Deus a põe em quem quer, de acordo com a divina providência) deve durar até ser total quando cada pessoa se desapegar totalmente do seu ego, ou seja, alcançar a totalidade da sua conversão.

Nascendo enquanto pessoas sem condição sobrenatural, vimos ao mundo com a ansiedade e angústia próprias e, por outro, o medo da morte e da perda já projetado em nós. Mas a vida com Deus altera esta situação e com a ressurreição a preocupação decresce e a angústia é transformada em alegria. Quando acontece verdadeiramente, esta transformação não manifesta um esquecimento ou um cancelamento, mas uma conversão (cf. Jo 16:20). A angústia só se transforma em alegria com a ressurreição e, inversamente é na alegria verdadeira de Deus que se consegue ver prefigurado o Ressuscitado.

Assim, a alegria é o modo de viver e se relacionar do discípulo que permanece em Deus. A despreocupação em que se sustenta a providência divina não versa sobre o que se recebe, mas sobre o modo como se recebe. Abandonado desde já a essa providência, a modalidade da ressurreição é uma urgência para o cristão por ser a modalidade do «agora», já que a ressurreição é o paradoxo do sofrimento transformado em alegria. Esse abandono cristão não deixa assentar qualquer tristeza ou provação, mas supera-as. F. Kafka ilustra esta ideia num sentido poético na carta que escreve à sua amada Miléna em 5 de julho de 1920 afirmando que “se um homem ocndenado a morrer conseguir manter-se vivo através da felcicidade, bem, então, eu continuarei vivo".

 

Pe. João Ramalho Ribeiro

adaptado de "Um novo modo de ser no mundo"