Homilia no II Domingo da Quaresma

D. José (17 de março 2019) Cristo é a nossa Páscoa. Caminhando com Ele e para Ele, somos exortados a um itinerário interior que nos torne mais livres e disponíveis para a vida renovada pela luz Pascal do Senhor.

II Domingo da Quaresma

Igreja Catedral de Santarém, 17 de março de 2019

(Início da Semana Cáritas)

Irmãos e irmãs

         Celebramos a Eucaristia deste II Domingo do tempo da Quaresma, no início da semana a que designamos por ‘Semana Cáritas’.

Cristo é a nossa Páscoa. Caminhando com Ele e para Ele, somos exortados a um itinerário interior que nos torne mais livres e disponíveis para a vida renovada pela luz Pascal do Senhor.

         Na sua mensagem para esta Quaresma, o Papa Francisco alerta-nos: “quando não vivemos como filhos de Deus, muitas vezes adotamos comportamentos destruidores do próximo e das outras criaturas – mas também de nós próprios –, considerando, de forma mais ou menos consciente, que podemos usá-los como bem nos apraz,(...). Se não estivermos voltados continuamente para a Páscoa, para o horizonte da Ressurreição, é claro que acaba por se impor a lógica do tudo e imediatamente, do possuir cada vez mais”.

(...) Quando se abandona a lei de Deus, a lei do amor, acaba por se afirmar a lei do mais forte sobre o mais fraco.

         Caros irmãos, infelizmente não têm faltado em Portugal notícias de comportamentos negativos e criminosos. Aos católicos em caminho quaresmal para a Páscoa, pede-se que escutem a Palavra de Deus, se unam a Cristo em oração e se deixem renovar pela graça da compaixão de Deus.

         A 1ª Leitura, do Livro do Génesis (15, 5-12.17-18), oferece-nos à reflexão a figura de Abraão. Homem de Fé, saiu de Ur da Caldeia por ter acreditado na palavra do Senhor, mas vive a tristeza de não ver realizados os sonhos pessoais: não tem filhos nem terras. Então, Deus convida-o a contemplar as estrelas do céu, e assim, com horizontes largos, a sonhar com uma grande descendência.

         Abraão, é a grande referência do que é viver a vida da Fé, a vida confiada em Deus. Não é um deus da sua imaginação, é um Deus que lhe fala e lhe revela uma vontade própria. Deus estabelece com Abraão uma aliança, o compromisso de não o abandonar. Deus é Aquele com quem se pode pactuar; é o Deus da Promessa em favor da vida humana. Abraão “esperou contra toda a esperança”, era grande a sua Fé, tinha confiado a Deus toda a aventura da sua vida.

         Aquele fogo, que Deus fez descer para estabelecer aliança com Abraão, é profecia de Cristo. É Ele a luz da Fé, a Luz do mundo. “O Senhor é a minha luz e Salvação”, como cantámos no Salmo responsorial. É a Luz que os Apóstolos, Pedro, Tiago e João, contemplam na “transfiguração” no monte Tabor.

         Como escutámos no Evangelho, Jesus convidara os três apóstolos à oração, fazendo-os subir o monte, e é ali, em ambiente de oração, que Jesus surge transfigurado numa luminosidade gloriosa. Uma primeira conclusão: promover a oração com Jesus, é possibilitar que haja transfiguração. Para a oração a referência que Jesus revela é  o “Pai”. Envolvidos na mesma nuvem que simboliza o Espírito Santo, o discípulos ouvem a declaração do Pai: “Este é o meu Filho, o meu Eleito, escutai-O”.

         Escutar Jesus é, portanto, neste Domingo a grande mensagem para a salvação de todos. Desta escuta pode depender a vida e a felicidade de muitas pessoas. Mas escutar Jesus, supõe jejum. Jejum de escutarmos só os nossos desejos e sentimentos egoístas, ou as nossas fixações no pessimismo, ou lamentações sem esperança. É necessário fazer jejum de tempo gasto em inutilidades, e possibilitar, assim, escutar Cristo na sua Palavra e escutar Cristo nos pobres e em todos aqueles com quem Ele se identifica.

         Neste Domingo, damos início à “Semana Cáritas” com o lema “Juntos numa só Família Humana”. Na mensagem para esta semana fizemos eco da Carta Encíclica Laudato si’, onde o Papa Francisco lembra: “cuida-se do mundo e da qualidade de vida dos mais pobres, com um sentido de solidariedade que é, ao mesmo tempo, consciência de habitar numa casa comum que Deus nos confiou. Estas ações comunitárias, quando exprimem um amor que se doa, podem transformar-se em experiências espirituais intensas” (n.232).

         A “Semana Cáritas” serve para valorizar a vocação social de todas as pessoas. Somos uma só família humana e, neste sentido, devemos assumir responsabilidades do cuidado de uns pelos outros. A Cáritas é expressão na Igreja e na sociedade, do Amor de Cristo sem fronteiras. Promover a sensibilidade das comunidades e a formação humana segundo os princípios da solidariedade, do bem comum e do cuidado pelos mais necessitados, é tarefa desta semana, também com o peditório público autorizado nos dias 21 a 24.

         Um donativo consciente deve expressar verdade que faz crescer. Na sua mensagem para a Quaresma o Papa Francisco exorta a “Dar esmola, para sair da insensatez de viver e acumular tudo para nós mesmos, com a ilusão de assegurarmos um futuro que não nos pertence. E, assim, reencontrar a alegria do projeto que Deus colocou na criação e no nosso coração: o projeto de amá-Lo a Ele, aos nossos irmãos e ao mundo inteiro, encontrando neste amor a verdadeira felicidade”.

         Um breve esclarecimento: no ano civil de 2018, cerca de 3.000 pessoas beneficiaram, direta e indiretamente, da ação da Cáritas Diocesana de Santarém, ação que inclui as Cáritas Paroquias.

         Em plano nacional, nas Cáritas Diocesanas de todo o país foram atendidas mais de 120.000 pessoas, das quais 101.000 receberam apoio. De especial preocupação, registam-se as situações complicadas de saúde, dificuldade na compra de medicamentos, falta de emprego, insuficiência de rendimentos e muitas situações de famílias endividadas.

         Ainda no ano civil 2018, foram concluídas a maioria das ações previstas na campanha “Cáritas, com Portugal, abraça as vítimas dos incêndios”. A implementação foi feita pelas Cáritas diocesanas de Coimbra, da Guarda, de Portalegre-Castelo Branco e de Viseu. No total, foram apoiadas 265 famílias através da construção/reparação de 50 habitações, da recuperação de 6 empresas, da reparação de 134 infraestruturas agrícolas, da aquisição de material de lavoura e da disponibilização de animais. Para esta ação de emergência foram disponibilizados os 2 332 912,81 €, angariados através do ofertório nas igrejas e do contributo de muitos portugueses através da Cáritas.

Através da Cáritas Internacional, a Cáritas Portuguesa colaborou no apoio 346 famílias vítimas das cheias em Moçambique e apoio alimentar a 100 famílias do Sudão do Sul. Que a informação sirva para estimular a solidariedade.

         De momento, entre muito programas de apoio, a emergência situa-se na Venezuela. Longe ou perto, o mundo é a nossa casa e cuidar dele é, em primeiro lugar, cuidar das pessoas, sobretudo das mais desprotegidas.

         Saliento e agradeço o testemunho das pessoas que colaboram nas diversas Cáritas, Portuguesa, Diocesanas e Paroquiais: mais de 1.500 colaboradores profissionais, 170 dirigentes, e mais de cinco mil voluntários  (regulares e ocasionais).

         A Cáritas, como Serviço organizado da Igreja a favor de quem mais necessita de apoio, tem a sua origem no Mandamento Novo: “Amai-vos uns aos outros como eu os amei” (Jo 13, 34). Existe a Cáritas porque existe uma comunidade cristã, e esta existe tanto mais animada quanto o dinamismo e o zelo que vem do mandamento novo do Amor. É este Amor generoso, que celebramos na Eucaristia.

         Bendigamos ao Senhor!

         + José Traquina