Homilia no I Domingo da Quaresma

D. José Traquina (13 de março 2019)  Na medida em que nos aproximamos da luz, vemos melhor os defeitos. Na medida em que nos aproximamos de Deus, identificamos melhor o que em nós é pecado.

Homilia do I Domingo da Quaresma

Santarém, 10 de março de 2019

Irmãos e irmãs, caríssimo catecúmenos.

         Estamos no I Domingo da Quaresma, o tempo favorável para fazer uma ‘peregrinação’ interior, escutando a Palavra de Deus e, fazendo tudo o que é comum e normal dos nossos deveres, aproveitarmos para nos purificarmos, dando lugar à oração e deixando-nos olhar por Aquele que nos ama e nos chama a celebrar a sua Páscoa. Cristo é a nossa Páscoa, é n’Ele e com Ele que se opera a renovação dos nossos propósitos como discípulos enviados em missão.

          Na medida em que nos aproximamos da luz, vemos melhor os defeitos. Na medida em que nos aproximamos de Deus, identificamos melhor o que em nós é pecado.

          A Quaresma é um tempo privilegiado para considerarmos sobre o lugar de Deus nas nossas vidas. Sabemos como tão facilmente, Deus é mal interpretado e expulso da vida em sociedade.

         O que está subjacente à 1ª Leitura (Dt 26,4-10) da missa deste I Domingo, é a história de um povo que toma consciência da sua rebeldia. O povo hebreu foi constituído por Deus e não se entende sem Deus. Todavia, conheceu outros deuses, deixou-se influenciar por outras luzes, foi rebelde; se alguma vez se aproximava de Deus, logo se afastava. Mais tarde, a forma do povo confessar a Fé, consistia em reconhecer a rebeldia dos antepassados e ao mesmo tempo a fidelidade de Deus: “O meu pai era um arameu errante” é assim que começa o credo israelita. E conclui, “mas o Senhor viu a nossa miséria, o nosso sofrimento e a opressão que nos dominava”.

         Na Quaresma caminhamos ao ritmo da História da Salvação; uma história de vida marcada pela errância humana e pela compaixão de Deus. Na Quaresma somos exortados a considerar a nossa própria vida pessoal, familiar e comunitária, e fazer um tempo de leitura orante do nosso passado recente ou distante, para podermos admitir e sonhar um tempo novo, de futuro, marcado pela alegria da fidelidade.

         Os israelitas deviam rezar o seu credo, oferecer os primeiros frutos da colheita e prostrarem-se em adoração. Esta informação é para nós hoje a ‘Palavra de Deus’. Reconhecer a fragilidade da nossa história da relação com Deus, apresentar-lhe a nossa gratidão (oferta-ação de graças) e fazer adoração, reconhecendo que só Deus é Deus, é uma exortação válida, também hoje, para preparar um futuro mais justo e melhor, Colocando nas mãos de Deus a nossa história, a nossa vida e tudo que se segue.

Mas como ser fiel no meio de tantas dificuldades, injustiças, tentações e carências pessoais? Ressoa como oração consoladora o refrão do salmo responsorial: “Estai comigo, Senhor, no meio da adversidade”. Esta foi também a atitude do nosso Salvador, Nosso Senhor Jesus Cristo, como ouvimos no Evangelho (Lc 4,1-13) que refere as suas tentações no deserto. Estando a meditar como deveria a presentar-se como o Messias enviado pelo Pai, soube rejeitar a tentação da abundância material, do poder e do prestígio, para afirmar que a Palavra de Deus é o alimento fundamental para o homem viver  a vida em fidelidade e só Deus merece a nossa adoração e a nossa confiança absoluta. “Ao Senhor teu Deus adorarás, só a Ele prestarás culto”. O Messias havia de ter na comunhão com a vontade do Pai, em pobreza e sobriedade, a força da sua credibilidade.

Caríssimos catecúmenos, o Rito da Inscrição do vosso nome, feito na igreja da Sé onde o Bispo preside à Eucaristia, indica uma etapa importante na caminhada para a receção dos Sacramentos da Iniciação Cristã, portanto, da vossa consagração como filhos de Deus. A partir de hoje sois considerados e chamados eleitos, e passais a ter nas comunidades os ritos próprios da preparação próxima para acolheres bem os dons de Deus do Batismo, Confirmação e Eucaristia. É feita esta etapa na presença do Bispo para valorizar o sentido da Igreja, como comunidade diocesana. Na verdade, os sacramentos não são ritos que se adquirem a troco de alguma coisa, são sinais sagrados da Igreja do Senhor. A Igreja é constituída por pecadores mas ela é Santa, como confessamos no credo, porque nela atua a graça de Deus por meio do Espírito Santo. É esse o nosso tesouro.

         A Quaresma tem as duas dimensões: é o tempo dos catecúmenos/eleitos se prepararem para o Batismo, Crisma e Eucaristia e o tempo privilegiado para todos os cristãos fazerem revisão de vida, retiro espiritual, e se prepararem para celebrar a Páscoa do Senhor, renovando as promessas batismais.

         Na nossa sociedade, neste tempo, e também em membros da Igreja, é poderoso o poder do mal. A violência doméstica e familiar, o abuso sobre menores, a escravidão e exploração humana, as injustiças e a falha de cooperação entre governantes das nações, são sintomas de que o poder do mal não desiste em desfazer o caminho da justiça e da paz. Não faltam tentações de êxito fácil e de propostas enganosas de uma vida descontraída sem problemas de consciência.  Na 2ª Leitura (Rom 10,8-13), da Carta de São Paulo aos Romanos, o Apóstolo indica-nos a intimidade com a Palavra como alimento da esperança: “A Palavra está perto de ti, na tua boca e no teu coração (...). Se confessares com a tua boca que Jesus é o Senhor e se acreditares no teu coração que Deus o ressuscitou dos mortos, serás salvo”. Ou seja, acreditar com Fé, com um sim confiante, com o afeto do coração de quem se sente amado e afirmar que Cristo ressuscitou e é o Senhor que ilumina as nossas vidas; eis a proposta do caminho e da renovação cristã, para ser vitorioso nas tentações do mal e ser agente de renovação na comunidade e na sociedade em que habita no sentido do bem. O mundo necessita do bom testemunho dos cristãos.

Façamos o caminho quaresmal como um exercício espiritual com Cristo, demos lugar à escuta da Palavra, à oração e ao amor generoso para com os irmãos mais necessitados.

+ José Traquina