Mensagem do Bispo Diocesano para a Quaresma

D. José Traquina (27 de fevereiro 2019) Em comunhão de fé, é bom que em todos os diocesanos se desenvolva a intenção de oração pela santificação dos sacerdotes, especialmente pelos da Diocese.

Mensagem do Sr. Bispo para a Quaresma de 2019

Caros Diocesanos

1. A Quaresma é o tempo favorável para fazer uma ‘peregrinação’ interior, escutando a Palavra de Deus e a voz da consciência, dando lugar à oração e deixando-nos olhar por Aquele que nos ama com misericórdia e nos chama a celebrar a sua Páscoa. Cristo é a nossa Páscoa, é n’Ele e com Ele que se opera a renovação dos nossos propósitos como discípulos enviados em missão.
Num tempo em que tanta gente se sente abandonada e agredida, é necessário olhar e interpretar a realidade humana e social com os critérios do Evangelho. A Quaresma é um tempo e um caminho rumo à celebração pascal que pode e deve ser aproveitado pela fecundidade espiritual, sobretudo deixando crescer em nós os sentimentos de preocupação de Cristo pela humanidade. A Quaresma sugere, portanto, a dimensão da escuta: escutar o mundo e os seus problemas, que também são nossos, e escutar a Palavra de Deus para discernir e definir opções. Não podemos, pois, fazer este caminho quaresmal na indiferença ou isolamento do mundo em que vivemos.
2. Em Portugal, nos últimos meses, as notícias sobre a violência doméstica, a morte de mulheres, exploração humana e escravatura, são sintoma de que o ambiente familiar e social tem vindo a degradar-se. Foi espalhado o medo do acolhimento a estrangeiros, por razões de segurança, e agora, a insegurança, o medo e a violência instalou-se entre os portugueses e nas suas próprias casas. 
A preocupação cresce pelo número das mortes de mulheres por violência doméstica e por sabermos da cultura da violência entre os jovens. Admitir agressões violentas como gestos de fidelidade amorosa não é próprio de pessoas civilizadas, com educação e respeito pela vida humana. Encorajar denúncias, exigir polícia operacional e uma justiça eficiente é necessário, mas insuficiente. É urgente sensibilizar toda a população para o cuidado do outro, o nosso semelhante, e para a responsabilidade da edificação da sociedade em que vivemos. 
Apesar das muitas carências e das muitas razões de protesto que possam existir, que ninguém transforme a sua residência num inferno. Cada pessoa sinta-se chamada a assumir a responsabilidade do seu próprio meio social, a começar pela sua residência, como pessoa de bem e promotora do bem comum.

3. Uma sociedade não pode ser considerada desenvolvida, só porque tem uma economia a crescer e bens de consumo de fácil acesso. É necessário promover a formação da consciência, a partir da infância, e manter um acompanhamento de qualidade e interesse de uns pelos outros, alertando para o engano das ilusões da vida facilitada, de propostas de pessoas que querem tudo, menos o bem dos seus semelhantes. 
“Ide e ensinai” (Mt 28,19). É fundamental valorizar a dimensão educativa, a todos os níveis, na família, na escola e em todas instituições e também nas empresas, pois o ambiente humano onde se vive ou trabalha, influencia os comportamentos. É urgente promover a capacidade de controlo da informação e propaganda que chega através dos meios digitais. Para assegurarmos a nossa condição de pessoas livres, vale a pena considerar o testemunho de São Paulo “Tudo me é permitido, mas nem tudo me convém. Tudo me é permitido, mas eu não me tornarei escravo de nada” (1ª Cor 6,12). 
4. A caminho da celebração Pascal, não podemos deixar de ter presente o problema dos casos de abusos de menores em contexto eclesial que levou o Papa Francisco a tomar medidas e a reunir com Bispos de todo o mundo para o enfrentar. A purificação da Igreja pede a disposição de conversão de todos os cristãos. 
Os ministros do altar sabem que a sua vocação e missão exigem e supõem que haja vigilância, oração e cultivo da fidelidade a Cristo Bom Pastor, na fé, esperança e amor generoso. Por isso, para todos os ministros do altar, os sacerdotes que em Quinta feira Santa farão a renovação das promessas sacerdotais, também para eles a Quaresma é tempo favorável de conversão. Em comunhão de fé, é bom que em todos os diocesanos se desenvolva a intenção de oração pela santificação dos sacerdotes, especialmente pelos da Diocese.
5. Na nossa sociedade, acontece o inconcebível de pecados que são crime. Tenhamos presente que o pecado tem uma dimensão coletiva. Por isso, além dos nossos pecados pessoais, há também os pecados sociais que nem sempre denunciamos. Não fiquemos ‘recostados’ a considerar os pecados dos outros. Temos a obrigação de denunciar as injustiças, sob pena de sermos cúmplices, mas promover também a nossa conversão pessoal, pois quando uma pessoa se eleva no caminho do bem, eleva o mundo consigo. 
6. O Senhor Jesus crucificado não alimentou revolta interior, mas manifestou a confiança em Deus Pai e manteve a fidelidade, reconhecendo, com compaixão, a ignorância dos que o maltratavam: “Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem” (Lc 23, 34). Aos Santos Pastorinhos de Fátima, foi mostrado o inferno e o efeito neles foi a compaixão pelos pecadores e pelas vítimas da guerra, promovendo livremente a oração, as privações e a esmola. Sigamo-los. A nós, de outro modo ainda mais nítido, também nos é mostrado o ‘inferno’, mas o que o Evangelho nos exorta não é a fixação na revolta e lamentação, mas antes nos convida à oração pela paz, ao desejo profundo e sincero, e compromisso ativo, por um mundo melhor, mais justo e pacífico, na respeitabilidade por todos os nossos semelhantes. 
Como escreveu o Papa Francisco: “O caminho rumo à Páscoa chama-nos precisamente a restaurar a nossa fisionomia e o nosso coração de cristãos, através do arrependimento, a conversão e o perdão, para podermos viver toda a riqueza da graça do mistério pascal. (...) “Abandonemos o egoísmo, o olhar fixo em nós mesmos, e voltemo-nos para a Páscoa de Jesus; façamo-nos próximo dos irmãos e irmãs em dificuldade, partilhando com eles os nossos bens espirituais e materiais”.
7. Correspondendo a esta exortação de partilha de bens, informo que a Renúncia quaresmal do ano passado, a favor dos mais necessitados da nossa Diocese através da Fundo de Partilha da Cáritas Diocesana, foi de 16.887,26 €. Este ano, depois de ouvido o Conselho Presbiteral, a Renúncia Quaresmal será para apoio ao Povo da Venezuela, através da respetiva Cáritas venezuelana.

Interceda por nós a Virgem Maria, para que sejamos cuidadores uns dos outros e construtores da Paz, em alegria pascal.

Santarém, 27 de Fevereiro de 2019

 

+ José Traquina, Bispo de Santarém