Discurso na SCM de Torres Novas

D. José Traquina (5 Janeiro 2019) Progressivamente as famílias têm menos capacidade de comparticipação. Algo não está certo: a considerada recuperação económica não está a acontecer nestas instituições e a causa não é apenas má gestão, uma vez que a dificuldade é transversal.

Discurso do Bispo de Santarém na tomada de posse dos novos Corpos Sociais da Santa Casa da Misericórdia de Torres Novas

Torres Novas, 05 de janeiro de 2019


Saúdo às entidades presentes:
    
Neste momento solene, apresento as minhas felicitações aos membros empossados nos Órgãos sociais da SCMTN: Assembleia Geral, Mesa Administrativa, e Conselho Fiscal (Definitório). Felicitar pela sua eleição e pela responsabilidade que assumem, perante todos, ao tomarem posse da governação de uma tão grande e considerada Instituição. Tenho presente que a designada “tomada de posse” pode trair facilmente um generoso. Na verdade, quando “tomamos posse” de uma instituição em breve tempo damos conta que foi a Instituição que tomou posse de nós. Os desafios e os problemas da Instituição absorvem de tal modo que facilmente a Família é prejudicada na atenção que merece. Porém, quando a dedicação é nobre e elevada, também a Família se sente envolvida no bem que é promovido. 

Quero também agradecer a todos aqueles que no passado, recente e longínquo, se dedicaram a esta SCMTN. Toda a Irmandade e toda a Comunidade é herdeira de um património material e artístico, mas também de um espírito de cuidado e interesse pelo bem comum das pessoas. De certo a SCMTN muito contribuiu ao longo do tempo para bem das pessoas desta cidade e deste Concelho. A História de Torres Novas não se conta sem a sua Santa Casa da Misericórdia. O meu agradecimento é extensivo a todos os cristãos e não cristãos que de forma generosa e voluntária contribuem para o bem comum da sociedade e para a edificação da paz.

Uma palavra de incentivo aos irmãos que hoje assumem o novo mandato à frente da Santa Casa da Misericórdia de Torres Novas, especialmente os que assumem responsabilidades na Mesa Administrativa. Desejo incentivar, valorizando a continuidade do trabalho e do desenvolvimento por uma grande causa, apesar de saber das crescentes dificuldades económicas: aumentam os custos em sentido inverso dos rendimentos. Progressivamente as famílias têm menos capacidade de comparticipação. Algo não está certo: a considerada recuperação económica não está a acontecer nestas instituições e a causa não é apenas má gestão, uma vez que a dificuldade é transversal. 

Não pretendo fixar-me na lamentação. As Santas Casas têm subsistido em tempos difíceis. Não esqueço que nos anos acentuados da ‘crise’, a partir de 2007/8, as Santas Casas da Misericórdia e outras Instituições Sociais muito contribuíram para assegurar a estabilidade social em Portugal. Foi este setor social que teve menos desemprego e assegurou serviços e alimentação a muita gente desempregada e sem condições económicas para comparticipar. 


Hoje é dia de afirmarmos a esperança. Tendo presente as 14 Obras de Misericórdia, como regra de ouro, e os grandes princípios: a Pessoa humana, o Bem comum, a Solidariedade, e o direito de Organização e Participação, a SCMTN continuará a promover o bem-estar e o desenvolvimento das pessoas que necessitam dos seus serviços e do seu apoio. 

As 14 ‘Obras de Misericórdia’, regra de ouro inspiradas no Evangelho, expressam a grandeza de alma e o dinamismo mais puro, contido no significado da palavra ‘Misericórdia’; o amor de compaixão, o amor amadurecido, o amor em verdade, traduzido em doação e serviço.

Amor e Verdade, são dois valores fundamentais para que alguém se sinta feliz numa casa de família. Também devem estar presentes nos ambientes humanos de residência e de trabalho, promovidos pela Santa Casa da Misericórdia.

Não posso deixar de valorizar os funcionários da SCMTN, os colaboradores. São eles o rosto diário da instituição junto dos utentes e suas famílias. Supõe-se em todos uma vocação própria, em habilitação e em espírito. Em todos os intervenientes no processo, não basta ter conhecimento, é necessário firmeza, boa disposição e muita reserva de paciência.

Ao Senhor Provedor, António Gouveia, e a toda a sua equipa, os votos dos melhores êxitos e alegrias no desempenho do cargo que hoje assumem. Muitos parabéns, muito obrigado pelo vosso testemunho e felicidades na missão.


+ José Traquina, Bispo de Santarém