Homilia na Ordenação diaconal

D. José Traquina (6 janeiro 2019) Uma epifania do Senhor supõe um milagre, uma descoberta, a revelação de um sinal, uma nova luz, uma nova interpretação da vida, um novo caminho.

Ordenação do Diácono João Moita 
Santarém, 6 de janeiro de 2019
(Solenidade da Epifania do Senhor)

 

Senhores Bispos, D. Manuel Pelino, D. João Marcos,

Caros Padres e Diáconos, Irmãs Religiosas, Seminaristas. 

Caríssimo ordinando João Moita, seus familiares e amigos.

Irmãos e irmãs em Cristo

Nesta Solenidade da Epifania, celebramos a manifestação do Senhor a todos os povos representados pelos Magos. Celebração enriquecida com mais um sinal vivo de Deus a esta nossa Igreja Diocesana de Santarém: a Ordenação de um Diácono.

O Evangelho de São Mateus, que acabámos de escutar, refere os Magos que, vindos do Oriente, chegam a Jerusalém guiados por uma estrela. Os magos representam os povos distantes que se aproximam da cidade santa, como ouvimos do Profeta Isaías na primeira leitura.

Entretanto, concluído o perturbador encontro com Herodes, os Magos seguem para Belém. O Menino, que foi manifestação de Deus e motivo de grande alegria para os pobres Pastores, agora é-o, também, para os povos distantes e até, aparentemente, mais abastados. Jesus nasceu para todos e a presença dos Magos indica que ninguém fica de fora na universalidade da salvação. Deus quer a salvação de todos.

As epifanias (manifestações) do Senhor são tantas quantos os que com Ele se encontraram ou encontram de ‘coração aberto’. Uma epifania do Senhor supõe um milagre, uma descoberta, a revelação de um sinal, uma nova luz, uma nova interpretação da vida, um novo caminho. Foi assim na vida pública de Jesus, a começar no Batismo no Jordão, como o foi nas Bodas de Caná e, depois da Ressurreição, no encontro com os discípulos de Emaús.

O Natal que celebramos, com especial comunhão neste dia com os nossos irmãos do Oriente, atualiza a Vinda de Cristo como manifestação de Deus que acontece de muitos modos e em continuidade com a existência da Igreja.

São Paulo (aos Efésios) indica a novidade da Igreja: pelo Espírito Santo “os gentios recebem a mesma herança que os judeus (...) participam da mesma promessa, em Cristo Jesus, por meio do Evangelho”. Aqui temos o nosso tesouro e a nossa alegria: a Igreja tem consigo o dom do Espírito Santo para a missão de viver e promover a alegria do encontro com Cristo, verdadeira manifestação de Deus. 

Caríssimo João Moita, com a Ordenação de Diácono és constituído participante do ministério de Cristo para o serviço à comunidade e ao bem de todos os homens, assumindo, assim, maior responsabilidade na missão da Igreja. Missão da Igreja que é dada por Cristo e supõe consciência bem formada e liberdade interior, para assumir uma identidade de pertença, como discípulo. Não é possível servir o Senhor, se não buscamos permanentemente uma melhor identificação com Ele, se não cultivamos o Amor que Ele nos tem. 

Não há muito tempo, escreveste-me uma mensagem onde revelas o bom proveito da leitura espiritual do livro “O Caminho da Imperfeição”, da autoria do sacerdote canadiano, Padre André Daigneault. Cito, desse livro, a seguinte passagem: “Os dois reis, Herodes e Jesus, cruzam-se, mas estão em total oposição. O rei Herodes representa a busca do poder por qualquer preço: sobe, subjuga, serve-se e é poderoso. Quanto a Jesus (...) desce, humilha-se, ajoelha-se junto dos pobres, deixa-se despojar e morre abandonado e pregado numa cruz, em vez de aceitar um poder que poderia ter feito dele um rei (deste mundo). Herodes é um tirano; Jesus é um servo. Um manipula os fracos e os pobres; o outro serve, cura, compadece-se e ama até ao esquecimento total de si mesmo. Os dois reis combatem-se sempre em nós, é preciso nunca esquecermos. É o combate entre o orgulho e a humildade” (Pág. 51).

(...) Não há um pouco de Herodes que vagueia algures dentro de nós? Como ele, somos habitados por esse orgulho do poder que quer mandar mais do que submeter-se, ser honrado mais do que humilhar-se e honrar os outros. É preciso escolher entre subir ou descer, é preciso decidir quem será o rei dos nossos corações: Jesus ou Herodes (Págs. 52-53).

A página do Evangelho de São Mateus que esta Festa nos oferece tem força mobilizadora, sugere que façamos como os Magos: adoração, entrega do que têm para oferecer e seguir por outro caminho. É isto que se pede a um discípulo fiel: reconhecer e adorar a Cristo, oferecer-lhe confiadamente tudo o que tem de ouro, incenso e mirra, deixar-se iluminar e seguir o novo caminho.

Os Magos, sempre representados de forma faustosa, renderam-se como pobres ajoelhando diante de um Menino. Esta adoração também é Evangelho. Adorar é encontro com a verdade; é reconhecer em Cristo a centralidade e a beleza do Amor de Deus; é cultivar a capacidade de ver Deus nos nossos semelhantes e em toda a criação; é participação na Ressurreição e no zelo da missão apostólica.

Em Ano Missionário, os Magos inspiram-nos aquela atitude missionária própria da Igreja que somos: atenção e disponibilidade para ver os sinais; decidir; responder com determinação; pôr-se a caminho sem calcular distâncias na esperança de encontrar; vencer os obstáculos e, atingido o objetivo, ter a ousadia de regressar por caminhos novos.

Irmãos e irmãs, é na missão apostólica da Igreja que se acolhe a Ordenação de Diácono. Como nos lembra o ritual da Ordenação: “Os diáconos, fortalecidos com os dons do Espírito Santo, têm por missão ajudar o Bispo e o seu presbitério no serviço da palavra, do altar e da caridade, mostrando-se como servos de todos. (...). Com a ajuda de Deus, devem em tudo comportar-se de tal modo que sempre neles se reconheçam verdadeiros discípulos de Cristo, que não veio para ser servido mas para servir” (Ritual, pág. 119). Constituídos como um dom de Deus, “os Diáconos fazem crescer a Igreja como realidade de comunhão, de serviço e de missão” (Enzo Petrolino, Diaconado, serviço e missão, pág. 168).

Caro João Moita, com a Ordenação de Diácono, tornas-te configurado com Cristo na sua função de Serviço. Desempenha o ministério com dignidade e respeito, por Deus e por aqueles a quem servirás. O Povo de Deus, a Igreja inteira, muito deseja e necessita da santidade dos seus sacerdotes e diáconos, pois tem sofrido em comunhão com o Papa, por muitas faltas desse testemunho.

Sabemos que a tua livre resposta se situa no caminho para o Sacerdócio ministerial, mas não menosprezes a importância do Ministério dos Diáconos. Faz parte do tesouro espiritual e da dimensão sacramental da Igreja. Uma Igreja Serva do projeto de Deus e exultante de alegria, como a Virgem Maria, a humilde Serva do Senhor. 

+ José Traquina