Homilia na Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus

D. José Traquina (1 Jan 2019) (...) a Virgem Mãe viveu a vida, condicionada pelo realismo das circunstâncias históricas e geográficas do seu povo e do seu tempo. Não deixou, todavia, de ser quem era; uma mulher de Paz, a viver ao ritmo da fé e da esperança.

Irmãos e irmãs

Já há mais de 1500 anos (Concílio de Éfeso no ano 431) que a Igreja, Povo de Deus, evoca a Virgem Santa Maria, como “Mãe de Deus” (a “Teotókos” como se diz na língua grega). “Mãe de Deus”, é a maior evocação de Nossa Senhora, por isso nos aparece em todas as celebrações da Eucaristia. Com ela, no primeiro dia do Ano, a Igreja assinala o Dia Mundial da Paz.
A Palavra de Deus que ouvimos na 1ª Leitura (Nm 6,22-27), revela o Amor generoso de Deus que o sacerdote Aarão havia de considerar para abençoar o Povo de Israel. “O Senhor te abençoe e te proteja”. A Bênção sugere confiança e proteção, mas também indica a condição de deixar-se olhar por Deus: “O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face”.

O olhar de Deus é de compaixão e misericórdia, como cantámos no Salmo responsorial.

No Evangelho (Lc 2, 16-21), a Virgem Maria, a Mãe, aparece no centro da ação. Foi ela a primeira a receber Jesus, a Bênção por excelência, e foi ela a mostrá-lo aos pastores de Belém e a todos os que lhe seguiram. Jesus é a plenitude da Bênção para todos os que procuram a Deus. Os  pastores de Belém, são representantes de todos os pobres e de todos os povos do mundo que se sentem abençoados por Jesus.


Na “plenitude dos tempos”, o tempo da vinda de Cristo, conforme ouvimos na 2ª Leitura (Gal 4,4-7), a Bênção de Deus é assegurada pelo Espírito Santo através da ação apostólica da Igreja. Por Cristo, através da Igreja, fomos abençoados recebendo o mesmo Espírito de adoção, fomos consagrados Filhos de Deus e isso é uma Bênção. E é neste mesmo Espírito Santo, ensina São Paulo, que somos capazes de clamar “Abbá, ó Pai”. Isto é, a Bênção continua, mas requer o relacionamento da oração.

Importa salientar neste dia da Solenidade de ‘Santa Maria Mãe de Deus’ como São Paulo ensina aos Gálatas a vinda de Deus ao mundo: “Quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher (...) para nos tornar filhos adotivos”.
Como defende o Apóstolo, Maria é o ponto de encontro entre o céu e a terra. Assim o reconhece a prima Isabel quando recebe em sua casa a visita de Maria, dizendo: "Bendita (abençoada) és tu entre as mulheres e bendito (abençoado) é o fruto do teu ventre”.

A Mãe de Deus foi abençoada, mas foi grande o desafio da missão que lhe foi confiado. Não foi uma Bênção para fugir da realidade da vida, mas para a enfrentar. Fazer uma longa viagem em avançado tempo de gravidez, dar à luz num estábulo de animais, fugir à ‘perseguição’ de Herodes e mais tarde participar da ‘entrega’ de seu Filho na cruz, tudo  isto demonstra que a Virgem Mãe viveu a vida, condicionada pelo realismo das circunstâncias históricas e geográficas do seu povo e do seu tempo. Não deixou, todavia, de ser quem era; uma mulher de Paz, a viver ao ritmo da fé e da esperança. 

Também o nosso tempo é marcado por preocupações e por esperanças. São necessários construtores de Paz. Na sua mensagem para este Dia Mundial da Paz, o Papa Francisco apresenta os votos de paz para esta ‘casa comum’, que é o planeta Terra, referenciando situações de grande preocupação, como “o terror exercido sobre as pessoas mais vulneráveis que contribui para o exílio de populações inteiras à procura duma terra de paz”. “Não são sustentáveis os discursos políticos, diz o Papa, que tendem a acusar os migrantes de todos os males e a privar os pobres da esperança. Ao contrário, deve-se reafirmar que a paz se baseia no respeito por toda a pessoa, independentemente da sua história, no respeito pelo direito e o bem comum, pela criação que nos foi confiada e pela riqueza moral transmitida pelas gerações passadas”.

Centrando o seu pensamento “nas crianças que vivem nas zonas atuais de conflito e em todos aqueles que se esforçam por que a sua vida e os seus direitos sejam protegidos”, o Papa refere que, no mundo, “uma em cada seis crianças sofre com a violência da guerra ou pelas suas consequências” salientando que, “o testemunho daqueles que trabalham para defender a dignidade e o respeito das crianças é extremamente precioso para o futuro da humanidade”. 

Depois, o Papa reflete a função dos políticos ao serviço da paz, começando por considerar que “A paz é uma conversão do coração e da alma” e apontando a política como “um meio fundamental para construir a cidadania e as obras do homem”. Porém, refere, “quando aqueles que a exercem não a vivem como serviço à coletividade humana, pode tornar-se instrumento de opressão, marginalização e até destruição”.

Irmãos e irmãs, o Papa Francisco, sem deixar de denunciar o enriquecimento ilegal e a corrupção, salienta a importância dos políticos, valorizando-os na construção da Paz. Perante a crescente desconfiança da sociedade relativamente aos políticos, importa reconhecer que, o correto desempenho do cargo político pode ser uma Bênção para a população, ou então uma desgraça se houver falta de virtude e de sentido de justiça para governar e promover a paz. Roguemos pela paz no mundo e pelos governantes dos povos para que considerem, nas suas decisões políticas, a justiça e o bem comum da sociedade.

Diz-nos o Evangelho que a Virgem Maria guardava todas as palavras meditando-as em seu coração. É esse santuário interior criado por Deus que cada pessoa é chamada a descobrir como espaço de oração, de acolhimento e de Paz. Uma Paz operativa na “missão de ser Luz do mundo e Sal da terra”.

Celebrando a maternidade da Virgem Maria e contando com a sua intercessão, roguemos como São Francisco de Assis: Senhor fazei de mim um instrumento da vossa Paz. 


+ José Traquina