Homilia da Missa

Homilia da Missa
Ordenação Diaconal - D. José Traquina

Caríssimos Padres e Diáconos,

Irmãs religiosas,

Irmãos e irmãs em Cristo

Caro Bruno Filipe, candidato à Ordenação de Diácono

Aqui nos reunimos para correspondermos a um grande momento da graça de Deus, que é a Ordenação de um Diácono para a nossa Diocese. Acontece neste dia e nesta hora, devido às novas restrições por força da pandemia.

A concluir o Tempo litúrgico do Natal, passamos de imediato para a apresentação de Jesus no início da sua vida pública. Mas podemos imaginar como era a sociedade do tempo em que Jesus cresceu e Se fez homem! Não era nenhum paraíso. Jesus não nasceu nem conheceu uma sociedade de gente perfeita. Foi exatamente por isso que Ele nasceu e se apresentou ao mundo.

E como é a sociedade atual, neste tempo em que o Bruno Filipe é Ordenado Diácono?

Este tempo de pandemia, confinamentos e inseguranças quanto ao futuro, está a obrigar a uma reflexão acerca do sentido da vida. Nos últimos anos em Portugal, na diversidade dos comportamentos sociais que matizam a nossa sociedade, houve estilos que aumentaram de adeptos: um estilo é a fruição  do dia a dia, promoção da beleza do corpo humano, busca do maior prazer em tudo, competição por lugares de melhor rendimentos, para mais poder gastar, enfim um certo sonho de vida paradisíaca. Existem meios de comunicação social que tornam pública a exposição deste estilo de vida.

O outro estilo, é a afirmação de poder pessoal, o poder das ideias, a exploração de pessoas, uso de armas, violência, ações criminosas, enfim, um estilo que tem também meios de comunicação social que o tornam público e promovem, a tal ponto que a sociedade se assemelha a um filme de terror.

Um outro estilo de comportamento é a afirmação pela não participação, pela aparente indiferença não se preocupando de fazer parte do elevado número de abstencionistas nas eleições para os cargos políticos.

A Igreja, povo de Deus, é chamada a testemunhar e a propor um estilo de comportamento diferente, tendo Jesus como referência de caminho, de verdade e de vida, a Palavra de Deus como iluminação, a garantia do dinamismo do Espírito Santo e os princípios da doutrina social da Igreja,  que defendem o valor de todas e cada uma das pessoas humanas, a importância do bem comum, da solidariedade e da participação na sociedade.

Demos agora lugar à Palavra de Deus.

A primeira Leitura do profeta Isaías (42,1-4.6-7) que escutámos, ajuda-nos a crer em Jesus como o ‘servo de Deus’. É em Jesus que se realiza esta profecia de Isaías, é Ele ‘o servo de Deus’ em quem repousa o espírito para levar a justiça às nações.

O povo de Israel acreditava e desejava a vinda do ‘servo de Deus’, para tornar presente no mundo a Luz e dar início aos tempos messiânicos de libertação pela nova Aliança. O ‘servo’ é aquele que não recusa nada a Deus, é fiel à sua vontade, por isso, pela sintonia perfeita com a vontade do Pai, é em Jesus que vemos realizada esta palavra de Isaías.

Mas a Palavra dá lugar aos sinais. Jesus conhecia e assumiu por inteiro a vontade do Pai, conforme o profeta Isaías. Porém, como ouvimos no Evangelho de São Marcos (1,7-11), antes de iniciar a sua vida pública, antes de se manifestar como o ‘servo’, vai ao rio Jordão para ser batizado por João Batista. Jesus assume a sua humanidade, necessitava de ouvir a voz do Pai a confirmar que aquela era a Hora da missão. E a voz do Pai surge como uma declaração que Jesus nunca esquecerá: “Tu és o meu Filho muito amado, em ti está toda a minha vontade”.

Caro Bruno Filipe, um discípulo, um ministro, um servo, um servidor, alguém como Jesus é chamado a ser fiel, a não recusar nada a Deus para ser enviado com toda a disponibilidade de coração e de vida. Uma coisa é certa, Jesus quer que atualizemos para nós a palavra do Evangelho que escutámos e, portanto, não duvidemos daquela palavra, aquela declaração de amor, que permite aguentar toda a adversidade que possa surgir: “Tu és o meu Filho muito amado”.

Esta verdade mística é o segredo de Jesus que alimenta a sua missão libertadora. É a essência do seu reino. Foi o que testemunhou o Apóstolo Pedro, como escutámos na segunda Leitura dos Atos dos apóstolos (10,34-38):  “Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus de Nazaré, que passou fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo demónio, porque Deus estava com Ele”.

O ministério do Diácono surgiu na origem da Igreja associado à missão apostólica, foi para exercerem um trabalho que os Apóstolos não dispunham de tempo para realizar no serviço das mesas, no cuidado social da comunidade cristã. Mas porque eram “homens de boa reputação, cheios do Espírito e de sabedoria” e sobre eles os apóstolos rezaram e impuseram as mãos, então o ministério dos diáconos alargou-se como uma graça do Espírito na Igreja.

Assim, conforme definiu o Concílio Vaticano II: “É próprio do diácono, segundo for cometido pela competente autoridade, administrar solenemente o Batismo, guardar e distribuir a Eucaristia, assistir e abençoar o Matrimónio em nome da Igreja, levar o viático aos moribundos, ler aos fiéis a Sagrada Escritura, instruir e exortar o povo, presidir ao culto e à oração dos fiéis, administrar os sacramentais, dirigir os ritos do funeral e da sepultura. Consagrados aos ofícios da caridade e da administração, lembrem-se os diáconos da recomendação de S. Policarpo: «misericordiosos, diligentes, caminhando na verdade do Senhor, que se fez servo de todos” (LG 29). Porém, também adianta o Concílio: “Os diáconos, servindo nos mistérios de Cristo e da Igreja, devem conservar-se puros de todo o vício, agradar a Deus, atender a toda a espécie de boas obras diante dos homens” (LG 41).

“Acolher, escutar, cuidar, anunciar, perdoar, celebrar”, são verbos que exprimem a nossa missão como Igreja Diocesana no projeto pastoral até 2025. Conscientes da nossa fragilidade, é necessário a firmeza da nossa identidade como seguidores de Cristo, e propormos a alegria do encontro com  Ele e a redescoberta do valor da comunidade, como espaço e experiência de fraternidade, no interesse e cuidado de uns pelos outros, ainda mais neste tempo especial de pandemia.

Bruno Filipe, desejamos que te sintas bem e feliz como Diácono na vivência do amor de Cristo, o Servo de Deus esperado, que veio não para ser servido mas para servir. Assim, a Ordenação não é um prémio, é o dom que te habilita para que sejas reconhecido e identificado com Cristo e com a sua Igreja no exercício do ministério.  Porém, a identificação não é garantida pelo uso de uma veste própria na Liturgia. Pede mais: tem de acontecer por dentro, no encontro na escuta da Palavra e na oração; identificação no zelo apostólico, com compaixão pela humanidade (quanto mais perto de Deus maior será o amor para com os nossos semelhantes, especialmente aqueles a quem somos enviados); a identificação com Cristo no exercício do ministério, com generosidade e dedicação Pastoral.

Bruno Filipe, conta sempre com a intercessão de Nossa Senhora, a Bem-aventurada Virgem Maria, “serva do Senhor” (Lc 1, 28), ao serviço da salvação do mundo.

+ José Traquina