Peregrinação Aniversária Internacional de Agosto

Peregrinação Aniversária Internacional de Agosto
Homilia dos dias 12 e 13 - D. José Traquina

12 de Agosto de 2020 - Santuário de Fátima
Homilia na Celebração da Palavra

Irmãos e irmãs migrantes: portugueses ou de outras nacionalidades, peregrinos que viestes individualmente, em família ou em grupo organizado, que esta vossa vinda ao Santuário de Fátima seja retemperadora da força e da luz interior da Fé.

A peregrinação, o encontro consolador com a Imagem de Nossa Senhora, a oração e as celebrações em que participamos, ajudam-nos a valorizar a vida e o seu sentido. O tempo que gastamos em peregrinação é uma oportunidade que damos a Deus para nos agraciar, inspirar e dar sentido de bênção a todo aquele tempo que ocupamos com trabalhos e dedicações diversas. Isto é, a peregrinação é uma oportunidade de transfiguração.

A vida humana; o dom e o maior bem valorizado em tempos difíceis.

Nos últimos meses, marcados pela pandemia, foi ressaltado o valor da vida humana: nos doentes, idosos, pessoas com deficiência ou necessidades especiais. Tem sido edificante o testemunho de tantos profissionais e voluntários cuidadores nas mais diversas circunstâncias e necessidades das pessoas.

Para os migrantes houve dificuldades acrescidas; os portugueses que não puderam regressar ou sair de Portugal, os que foram atingidos pelo vírus, os que ficaram desempregados e os que experimentam a fragilidade e a acentuada insegurança por viverem num país estrangeiro.

Entretanto, de Cabo Delgado, em Moçambique, a Organização Internacional das Migrações dá-nos conta de que existem mais de 250 mil pessoas deslocadas. Não admira, portanto, que seja naquela região de Moçambique que se encontra a maior densidade de pessoas atingidas pelo coronavírus naquele país. De Portugal já foram promovidas diversas iniciativas de apoio, mas a necessidade é grande. Porém, é urgente que seja encontrada uma solução para travar os combates armados que atingem pessoas inocentes.

Em África ou em qualquer parte do mundo, é necessário considerar a pessoa humana como o centro, o valor e o bem maior a acolher, defender e promover, para que haja humanização e desenvolvimento social.

A fonte da vida espiritual dos cristãos

Como nos ensina a Sagrada Escritura, a pessoa humana é criada à imagem e semelhança de Deus (cf. Gen 1,26). A confirmar esta consideração por cada pessoa, está a Leitura que ouvimos do livro do Deuteronómio na defesa das pessoas pobres: Deixa para o estrangeiro, o órfão e a viúva o que ficou para trás: o feixe das espigas e o que ficou nas oliveiras quando as varejares ou o que ficou nas videiras quando vindimares (Deut 24, 17-22).

Este ensinamento da Palavra de Deus lembra-nos que há uma parte dos nossos bens que devem ser disponibilizados para quem deles carece. Mais do que o apelo a uma generosidade pontual ou continuada, trata-se de reconhecer a nível mundial o direito dos pobres. Deus quer que seja reconhecido o direito dos pobres no mundo inteiro.

Para gerarmos maior disponibilidade e generosidade, a melhor atitude é considerarmo-nos pobres. Pobres, necessitados da graça e do auxílio de Deus, como cantávamos no salmo responsorial, vivendo em confiança e generosidade.

Jesus é a nossa referência: nasceu e viveu pobre; na sinagoga de Nazaré, lendo o Profeta Isaías (Lc 4,16-24), definiu a sua missão assumindo que o Espírito estava com Ele para anunciar a Boa Nova aos pobres. Porém, a pobreza em Jesus não foi uma condição social, foi virtude, uma opção. Jesus tinha capacidade para ser um grande líder, mas preferiu ser um Bom Pastor. E é por isso que exprime confiança, liberdade interior e dimensão profética. Jesus atrai os pobres; o seu coração tem o tamanho de um grande santuário onde todos cabem. Chamou os discípulos a segui-Lo no mesmo estilo e enviou-os em missão, desprovidos de bens materiais.

No Evangelho proclamado, do capítulo 25 de São Mateus (25,31-46), Jesus revelando o critério do juízo final, define qual deve ser a atuação de todos os cristãos, para que haja uma nova humanidade. “Vinde benditos de meu Pai: recebei como herança o reino. (...). Quantas vezes fizestes o bem a um dos meus irmãos mais pequeninos foi a Mim que o fizestes”. Jesus identifica-se com os mais pequeninos;  os pobres, os carenciados, os migrantes desprotegidos, todos os que vivem privados do essencial. E identifica-se, também, com aqueles que têm abundância de bens materiais, mas têm coração de pobre e, por isso, promovem a partilha com os que carecem de apoio.

A responsabilidade de testemunhar

Irmãos e irmãs

Com a coordenação da Obra Católica Portuguesa de Migrações, de 09 a 16 de agosto, está a decorrer 48ª Semana Nacional das Migrações que tem o seu auge nesta Peregrinação ao Santuário de Fátima, e tem como tema aquele que o Papa Francisco anunciou no passado dia 13 de maio para o Dia Mundial do Migrante e Refugiado: “Forçados, como Jesus Cristo, a fugir. Acolher, proteger, promover e integrar os deslocados internos”.

A Obra Católica Portuguesa de Migrações espera mais envolvimento dos Serviços Diocesanos com os migrantes. É desejável que os Secretariados Diocesanos para as Migrações desenvolvam iniciativas que tenham a ver com os migrantes portugueses no estrangeiro e também com os migrantes estrangeiros residentes em Portugal que, segundo um recente Relatório do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, ultrapassa as 590 mil pessoas. Esta é uma realidade para a qual a Pastoral da Igreja tem de estar atenta para acompanhamento e apoio.

Como cristãos, manifestemos capacidade de acolhimento e não cultivemos sentimentos que não correspondem à nossa matriz cristã de fraternidade universal. Os estrangeiros são uma necessidade e um bem para Portugal, não para serem explorados ou mal tratados, mas acolhidos e protegidos com a mesma respeitabilidade que desejamos para os portugueses que vivem em qualquer outro país. Devem ser informados acerca das nossas regras e hábitos de convivência e ter as condições para expressarem a sua cultura.

“Dar Graças por viver em Deus”

Caros peregrinos, o Santuário de Fátima definiu, para este ano, o tema: “Dar Graças por viver em Deus”. “Viver em Deus” deve corresponder a viver com entusiasmo e alegria. Foi a grande experiência de Nossa Senhora: exultou de alegria porque “o Senhor olhou para a sua humilde Serva”. Aqui, na Cova da Iria, Nossa Senhora, em tempo de guerra, apareceu aos três pastorinhos, três crianças pobres, e deu-lhes uma missão que eles assumiram com alegria: fidelidade na oração e esforço pessoal pela conversão dos homens e pela paz no mundo.

A missão dos Pastorinhos mostra que viver em Deus implica interesse e zelo pela humanidade. Concretizando o Evangelho, esta é a missão que nos é confiada, sabendo que o futuro do mundo depende da conversão dos homens, na resposta ao problema dos pobres e à defesa do planeta Terra.  

13 de Agosto de 2020

Homilia na Celebração da Eucaristia

Missa da Virgem Maria, Auxílio dos Cristãos

Caros Peregrinos

A festa é a convergência e a celebração comunitária em alegria que dá sentido à vida humana. Sem convívio, sem festa, a vida humana torna-se difícil. Para muitas pessoas, a Igreja é reconhecida pela dimensão da festa: festas nas etapas da vida cristã ou ao ritmo do calendário litúrgico.

Nos últimos meses, por razões de segurança, temos estado sujeitos a limitações no que se refere a convívios e festas. No entanto, acentuou-se mais viva consciência de que grande parte das festas populares têm origem na Igreja e, por isso, nalgumas comunidades resolveram ir às origens e celebrar a festa promovendo os sinais essenciais: uma eucaristia bem preparada, a imagem do padroeiro evidenciada, uma mensagem e uma lembrança partilhada para registar a festa celebrada em tempos de pandemia. E com isto, ressaltou o essencial: a alegria da Fé e da vida.

Deus convida-nos para a Festa do seu Reino. O grande sinal deste convite está na vinda de Jesus ao mundo no seio da Virgem Maria, a sua vida, a sua entrega e a sua ressurreição. A Igreja nasce como o grande sinal deste convite e da própria Festa do Reino de Cristo.

O Evangelho que escutámos (cf. Jo 2,1-11) diz-nos que Jesus e os seus discípulos foram convidados para uma festa de casamento em Caná da Galileia. E estava lá a Mãe de Jesus. O evangelista São João é o único que regista este episódio, onde revela uma consciência da missão da Mãe de Jesus, junto dos discípulos e do povo de Deus. Também é o único a registar o lugar da Virgem Mãe junto à Cruz, quando Jesus lhe atribui a missão de ser Mãe do discípulo amado, isto é, de todos os discípulos.

O evangelista não informa quem eram os noivos. Assim, podemos imaginar todos e cada um dos que celebraram o seu matrimónio, onde a Virgem Mãe repara e se preocupa quando está a faltar a alegria. Mas, recordamos que a imagem do casamento é bíblica para expressar o amor de Deus pelo seu povo, imagem que Jesus um dia assumiu identificando-se como o noivo messiânico, junto do qual tem de haver festa e alegria. A noiva é a Igreja, Povo de Deus, de que fazemos parte, onde também se encontra Nossa Senhora em proximidade dos discípulos.

Como em 13 de outubro de 1996, neste Santuário, o então Cardeal Ratzinger, depois Papa Bento XVI, comentou: “podemos compreender a missão de Maria, que se torna bem visível no relato das Bodas de Caná. Maria não pede ao Senhor um milagre. De facto, ainda não era claro se o fazer milagres pertencia à Sua missão. Ela simplesmente apresenta ao Senhor a dificuldade, na qual os amigos se encontravam. Maria coloca tudo nas mãos de Jesus e abandona-se a Ele e ao Seu operar. Nem sequer a aparente recusa a desanima. A sua confiança em Jesus e a unidade com a vontade do seu Filho permanecem ilesas”.

Caros peregrinos, a nossa vida está marcada pela necessidade da Festa, tendo o vinho novo em qualidade e abundância, o significado da alegria da fé que Jesus quer na vida humana. São João conclui: “Jesus deu início aos seus milagres. Manifestou a sua glória e os discípulos acreditaram n’Ele” (Jo 2,11).  Esta conclusão do Evangelho indica não um fim, mas o começo de uma vida na alegria da Fé.

Mantendo a mensagem da festa nupcial, aquele que é o Noivo morreu na cruz, por fidelidade à vontade do Pai e por paixão pela sua noiva. Sejamos extensivos, a sua noiva que é a multidão de homens e mulheres que eram como ovelhas sem pastor, são hoje os atuais milhões de pobres em todo o mundo, os milhões de refugiados que têm de fugir como Jesus para terem vida, os migrantes que, por desconhecimento das formas legais de emigrar, são explorados por contrabandistas e traficantes, os milhões de pessoas deslocadas forçadamente dentro do seu próprio país, por falta de segurança. Todos estes têm direito à festa nupcial.

Também hoje existe quem assuma o lugar de Nossa Senhora nas Bodas de Caná, verificando que, por faltarem bens essenciais, não há alegria na vida de muitas pessoas. “Fazei o que Ele vos disser” (Jo 2,5), é a Palavra de orientação. E o que disse Jesus aos discípulos, noutro dia, perante uma multidão de pessoas com fome? “Dai-lhes vós mesmos de comer” (Mt 14,16). Porém, Jesus não se afasta do problema: leva os discípulos a assumirem, como seu, o problema da multidão e ensina-lhes que a solução dos pobres com fome se resolve pela partilha.

Caros peregrinos, como ouvimos de São Paulo, “Cristo Jesus morreu e, mais ainda, ressuscitou, está à direita de Deus e intercede por nós” (Rm 8,34). Nada, nem ninguém, “poderá separar-nos do amor de Deus, que se manifestou em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8,39). É este amor indestrutível que celebramos na Eucaristia, o grande sacramento da Igreja que suscita e alimenta o zelo apostólico e a prática da caridade.

“Apareceu no céu um sinal grandioso: uma mulher revestida de sol, com a lua debaixo dos pés e uma coroa de doze estrelas na cabeça”. A mulher revestida de sol, que nos refere o Livro do Apocalipse, é interpretada como a figura de Nossa Senhora ou a figura da Igreja. Numa ou noutra interpretação, importa sublinhar que a mulher “está revestida de sol” e, para nós, o sol é Cristo Ressuscitado. Será este o sol, a luz que brilhava em Nossa Senhora quando aqui apareceu aos Pastorinhos, luz que ardia no peito dos pastorinhos como no coração dos discípulos de Emaús. É esta Luz que vence as trevas e que, unidos a Nossa Senhora, somos convidados a seguir e a servir.

Nossa Senhora, “Conforto dos migrantes” (“Solacium migrantium”), como recentemente a designou o Papa Francisco, nos acompanhe e interceda por todos os que buscam um futuro de vida com maior Luz.

+ José Traquina