Homilia proferida na Ordenação Presbiteral

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Sem comentários em Homilia proferida na Ordenação Presbiteral

 

Ordenação Sacerdotal: Padre João Ramalho

Santarém, 07 de Outubro de 2018

(XXVII Domingo do Tempo Comum – Ano B)

 

Irmãos e irmãs

Caríssimo Ordinando

 

“A grande e sublime missão que, ao regressar ao Pai, Nosso Senhor Jesus Cristo confiou aos seus discípulos quando lhes disse: “ide por todo o mundo e anunciai o Evangelho a todas as criaturas”(Mc 16,15), não podia terminar com a morte dos Apóstolos mas devia continuar, através dos seus sucessores, até ao fim dos tempos, isto é, enquanto existirem na terra pessoas para salvar pelo ensino da verdade”.

Foi com estas palavras que, no ano 1919, a 30 de Novembro, o Papa Bento XV iniciou a importante Carta Apostólica Maximum Illud (Grande e sublime) que publicou para incentivar e dar importantes indicações sobre o anúncio do Evangelho, lembrando que a responsabilidade missionária é da Igreja, não dos países com ambição de expansão nacionalista. A Igreja é universal, é de todos os povos e o seu crescimento deve acontecer com a pregação do Evangelho e o testemunho da santidade de vida e das boas obras.

Em 1919, a dimensão missionária da Igreja era desenvolvida a pensar noutros continentes que não a Europa. As recomendações de há cem anos continuam válidas para quem parte em missão, mas a realidade do mundo e da Igreja mudou, sobretudo na Europa.

Há cem anos atrás, 75% dos católicos do mundo eram europeus e 25% dos outros continentes. Atualmente, na Europa estão 20% dos católicos do mundo e 80% nos outros continentes. Na Europa cresceu a indiferença à Fé cristã, noutros continentes cresceu o interesse pela vida cristã, à mistura com perseguições e martírios.

Consciente destes desafios para a Igreja, sua Missão e Nova Evangelização, o Papa Francisco quis aproveitar os cem anos da iniciativa missionária de Bento XV e sugeriu que o mês de Outubro de 2019 fosse um ‘mês missionário extraordinário’, convicto de que «a missão renova a Igreja, revigora a sua fé e identidade, dá-lhe novo entusiasmo e novas motivações. É dando a fé que ela se fortalece!» (Papa Francisco cita a Redemptoris Missio, 2, de João Paulo II).

Os Bispos portugueses acolheram a iniciativa do Papa Francisco, porém, quiseram alargar a sugestão para um Ano Missionário, com início neste Outubro de 2018. Feliz coincidência na nossa Diocese de Santarém, temos a graça de uma Ordenação sacerdotal no início deste ano pastoral, especialmente designado ‘Ano Missionário’.

Em contexto europeu, também entre nós, muitas pessoas sabem que existe a Igreja, mas desconhecem o dinamismo da Fé cristã. A ideia de que a sociedade seria mais livre sem a presença e influência de Deus, está posta em causa.

A realidade de pessoas fragilizadas e desencantadas com a vida deve ser, para nós, um desafio e não apenas uma lamentação. Tendo presente o princípio supremo do Amor, traduzido em dedicação e serviço, temos a missão de colaborar na edificação de ambientes humanos onde se respire justiça e paz. Tudo isto e muito mais se inscreve no desafio para este Ano Missionário: “A missão de ser Luz do Mundo e Sal da Terra”.

O Evangelho (Mt 5,13-16) que inspirou o lema para o nosso novo Ano pastoral e Missionário foi escolhido para ser proclamado neste dia. Deixemos que nos interpele.

O sal é discreto, é como a Fé, a Esperança e o Amor que residem dentro de nós e nos mobilizam a realizar as obras de Deus. Mas se o sal que recebemos ao longo do nosso percurso está todo no saleiro, não cumpre a sua missão de dar sabor, torna-se insípido e a certa altura deita-se fora. E é assim que muitos deitam fora o dom da Fé porque perdeu a força para dar sabor.

Necessitamos, portanto, da fidelidade à oração, do contacto permanente com Deus.  Necessitamos da Luz de Cristo, para com ela ver, considerar e amar os pecadores, os mais afastados e os pobres  de quem Deus não desistiu. Anunciar Cristo corresponde a testemunhar a força humanizadora e libertadora que recebemos do seu Evangelho e dos seus sacramentos através da experiência da Comunidade.

Quantas vezes o Senhor nos perdoou, curou, corrigiu e exortou a proceder como seus discípulos? O sabor e a luz de Cristo são sinónimos do zelo de Fé e de Amor que purifica, cura e salva, porque vem de Deus, e nos leva a testemunhar a vida cristã como experiência de felicidade. Muitas pessoas, também na nossa região, não conhecem a alegria deste saudável dinamismo espiritual que nos vem de Cristo.

Assumamos a nossa responsabilidade missionária tendo em conta uma recomendação do Concílio Vaticano II: “A igreja diocesana, pela obrigação que tem de representar o mais perfeitamente possível a Igreja universal, deve ter consciência que foi também enviada aos habitantes do mesmo território que não crêem em Cristo, a fim de ser, pelo testemunho da vida de cada um dos fiéis e de toda a comunidade, um sinal a mostrar-lhes Cristo” (Decreto Ad gentes, 20).

Caríssimo João Ramalho, como ouvimos na segunda leitura (Rom 12,4-8), somos a Igreja, “formamos em Cristo um só corpo e somos membros uns dos outros”, cada um com os dons que Deus lhes deu. Deus encontrou-te e tu deixaste que Ele te encontrasse e deste-lhe tempo para que Ele fosse dizendo o que queria de ti. Chamou-te a seres Padre. Tem sempre presente  que o exercício do ministério sacerdotal e pastoral de Cristo, é um dom do Senhor confiado à sua Igreja. É um serviço a exercer sempre em comunhão, em sintonia, como o expressa o rito da Ordenação: “Não existe ministério sacerdotal senão na comunhão com o Santo Padre e com o Colégio Episcopal e de modo particular com o próprio Bispo Diocesano” (PDV 28). A Diocese rejubila com a tua Ordenação presbiteral, e quer continuar a rejubilar com o teu testemunho de bom sacerdote junto do Povo de Deus. A Diocese de Santarém, e toda a Igreja, necessita de mais padres mas não de uns padres quaisquer. São necessários Padres que, na sua fragilidade, se assumam como um dom de Deus para a Igreja e para o mundo, que estejam dispostos a retomar cada dia, com humildade e coragem, o zelo pela missão e a atenção aos muitos sinais e desafios que Deus coloca na sua frente.

Caríssimo João, conforme sugere o Pontifical para a Ordenação, “Ao fazer entrar os homens no povo de Deus pelo Baptismo, ao perdoar os pecados em nome de Cristo e da Igreja no sacramento da Penitência, ao aliviar os enfermos com o óleo santo, ao celebrar os ritos sagrados, ao oferecer, nas horas do dia, o louvor com acções de graças e súplicas, não só pelo povo de Deus mas também por todo o mundo, lembra-te de que foste assumido de entre os homens e posto ao serviço dos homens nas coisas que são de Deus. Realiza, pois, com verdadeira caridade e alegria constante, o ministério de Cristo Sacerdote, não procurando os teus interesses, mas sim os de Jesus Cristo” (Pontifical da Ordenação, p. 100).

Deus quer estar presente no mundo, em todas as suas criaturas, quer o bem e a salvação de todos os que andam abatidos, e conta com os Sacerdotes da sua Igreja como bons pastores ao serviço dessa presença e dessa graça. Será possível quando se assume a Missão com o mesmo Espírito com que Jesus assumiu quando na sinagoga de Nazaré leu o Profeta Isaías, como ouvimos na primeira Leitura (Is 61,1-3a).

A verdadeira riqueza de um Padre reside na sua identificação com o Senhor Jesus, com a vida e missão animada pelo mesmo Espírito Santo. Assim, embora com dificuldades à mistura, o Padre será muito amado e será motivo de alegria e felicidade para muitas pessoas. Que a Virgem Maria, que Jesus consagrou como Mãe dos seus discípulos, te acompanhe sempre e seja tua confidente e motivo de consolação e esperança.

 

+ José Traquina

Bispo de Santarém

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