Homilia do Sr. Bispo na Peregrinação das Santas Casas da Misericórdia a Fátima

Homilia do Sr. Bispo na Peregrinação das Santas Casas da Misericórdia a Fátima

Homilia do Sr. Bispo na Peregrinação das Santas Casas da Misericórdia a Fátima

Sem comentários em Homilia do Sr. Bispo na Peregrinação das Santas Casas da Misericórdia a Fátima

 

Peregrinação da União das Misericórdias ao Santuário de Nossa Senhora de Fátima

XXIV  Domingo do Tempo Comum (Ano B)

15-09-2018

Irmãos e irmãs em Cristo

São Marcos tem, no seu Evangelho, a preocupação de revelar quem é Jesus? Salienta a pergunta de Jesus aos discípulos: “Quem dizem os homens que Eu sou?”. Esta pergunta é registada no Evangelho para chegar aos discípulos de todos os tempos e, portanto, também a cada um de nós.

Em resposta a Jesus, o Apóstolo Pedro assumiu-se como o primeiro entre os seguidores e declarou convictamente: “Tu és o Messias”.

 

A dificuldade vem a seguir: “começou a ensinar-lhes que o Filho do Homem tinha de sofrer muito, de ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e pelos escribas; de ser morto e ressuscitar três dias depois” (Mc 8,34).

Como seguir um líder com um projeto com este futuro? Assumindo-se como bom colaborador e fiel assessor, Pedro chama Jesus de parte para o contestar e, certamente, para lhe recomendar que não repetisse aquele discurso tão desanimador. Jesus considera que a recomendação de Pedro não é inspirada, é demoníaca, pois não tem a perceção da vontade de Deus.

Como é natural, o estímulo de vida e a ânsia de realização que cresce connosco leva-nos ao desejo de êxito nas opções que tomamos na caminhada da vida. Também os apóstolos de Jesus viveram este estímulo humano. Não admira, portanto, que estando convencidos da capacidade de Jesus em liderar um projeto social, religioso e político, de libertação para o povo de Israel, ficassem entristecidos e perplexos quando Jesus os informava acerca do seu futuro.

 

Jesus, porém, não quer um grupo de escravos atrás de si. Não quer ser seguido por uma multidão iludida, e expressa-se com uma liberdade impressionante de quem não teme ficar sozinho: “Se alguém quiser seguir-me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me (…); quem perder a vida, por causa de Mim e do Evangelho, salvar-se-á”.

 

Quinhentos anos antes de Jesus, o Profeta Isaías, ouvimo-lo na primeira Leitura (Is 50,5-9ª), anunciou que o Messias, inaugurador dos novos tempos, havia de sujeitar-se a maus tratos, mas encontraria refúgio em Deus. Os apóstolos, porém, não tinham em conta as palavras difíceis do profeta Isaías e sonhavam com grandezas deste mundo. Haviam de viver o drama da morte de Jesus na cruz e reconhecer como o projeto de Deus é surpreendente. Jesus não desistiu deles, conquistou-lhes o coração e a alma e, depois da Ressurreição, tornou-os participantes do mesmo Espírito Santo para o seguirem, como enviados, com uma vida disponível e entregue à concretização do Reino de Deus, prometendo que não os abandonaria: “Eu estarei convosco até ao fim dos tempos”.

 

Irmãos e irmãs, o Senhor Jesus desafia-nos a segui-lo em liberdade, como seus discípulos, esclarecidos, coerentes e espiritualmente bem assistidos e alimentados. Nenhum discípulo é herói sozinho.

São Tiago, ouvimos na segunda Leitura (Tg 2,14-18), assume a exigência da coerência da Fé  como a verdade da experiência cristã. Não se pode dizer que se ama e adora a Deus se não se olha para o nosso próximo que carece de cuidados. A Fé que se professa tem de ser demonstrada em obras.

 

Assim, eis o desafio da Palavra de Deus: pegar, livremente, na nossa cruz e seguir Jesus concretizando, em obras, a Fé que professamos. Neste sentido, vêm a propósito, lembrar as “14 Obras de Misericórdia”, sete corporais e sete espirituais, que são referência comum nos Estatutos das Santas Casas. Recordemo-las:

Obras de Misericórdia corporais:

1-Dar de comer a quem tem fome; 2-Dar de beber a quem tem sede; 3-Vestir os nus; 4-Dar pousada aos peregrinos; 5-Assistir aos enfermos; 6-Vestir os presos; 7-Enterrar os mortos.

Obras de Misericórdia Espirituais:

1-Dar bom conselho; 2-Ensinar os ignorantes; 3-Corrigir os que erram; 4-Consolar os tristes; 5-Perdoar as injúrias; 6-Sofrer com paciência as fraquezas do nosso próximo; 7-Rogar a Deus por todos os necessitados, vivos e falecidos.

 

Num tempo de tanta indiferença, as Obras de Misericórdia recentram-nos na Misericórdia como o zelo de Amor e compaixão por toda a realidade humana e social; levam-nos a sair de nós próprios e a interessarmo-nos uns pelos outros, especialmente pelos mais necessitados de apoio.

As Santas Casas da Misericórdia, como outras instituições sociais, passam por tempos difíceis: com as mesmas receitas, têm  novas exigências e mais custos para manter as diversas valências e serviços. Porém, as Santas Casas da Misericórdias têm sabido ao longo do tempo enfrentar os desafios. Também agora muitas estão a desenvolver formas de gerar rendimentos próprios, por ser insuficiente a comparticipação da Segurança Social. Será bom que se desenvolvam formas de sustentabilidade, desde que não se abandone o espírito de misericórdia, como causa e como critério das opções.

Todos reconhecemos que o dinheiro é necessário para o funcionamento de qualquer instituição. Mas também nos enganaremos se considerarmos que resolvemos tudo com o dinheiro, dispensando os grandes ideais do espírito para a vida em sociedade. Faz bem a União das Misericórdias Portuguesas em promover esta Peregrinação. Fraterniza-nos, ajuda-nos a retomar o carisma da origem das Santas Casas, que as identifica com o mesmo Evangelho e missão da Igreja, e predispõe-nos a recolher a purificação e a Bênção que, por intercessão de Nossa Senhora,  Deus tanto tem proporcionado neste Santuário.

 

As Santas Casas da Misericórdia são um grande bem na sociedade, pela força agregadora de vontade e generosidade que desenvolvem. Pelo serviço que prestam em muitas comunidades, pelo bem acrescido que são nas terras do interior do país, pela segurança que permitem às famílias, pelo emprego que proporcionam. Por tudo, são promotoras do bem comum. Pede-se que continuem a servir com êxito, cultivando em todos, Corpos Sociais, membros das Irmandades e Comunidade em geral,  o espírito de misericórdia que determina a fidelidade a um projeto e permite edificar bons ambientes de trabalho e de vida onde dá gosto viver.

 

“Misericórdia” significa um zelo de compaixão que surge nas pessoas que têm um coração sensível às necessidades dos seus semelhantes. Como o Bom Samaritano (cf. Lc 10,29-37), não se trata de um sentimento piegas. Trata-se da compaixão de um coração misericordioso e atento, especialmente às situações com necessidade de apoio.

 

Cultivar este Espírito de Misericórdia tem de passar necessariamente pelos colaboradores. São eles o rosto da Instituição junto dos utentes e das famílias. Sem esquecer o valor de todos os colaboradores, desde a administração à cozinha e serviços de higiene, são os funcionários/as que diariamente se inclinam a cuidar das crianças, das pessoas idosas, doentes e com deficiência, que melhor expressam o que é a Misericórdia. Essa inclinação de atenção, apoio e serviço é a uma bela imagem do significado da Misericórdia. Por ser assim, não há ordenado que pague o valor de um/a colaborador/a que desempenha a sua missão com este espírito e sensibilidade; essa pessoa é um grande dom para todos.

Uma pessoa misericordiosa é a que tem a capacidade de sintonizar (os seus sentimentos) com os sentimentos de outra pessoa, tem capacidade de ser solidária para com pessoas abatidas por qualquer situação, tem sensibilidade de olhar como Deus olha.

 

Com a vinda de Cristo ao mundo, Deus inclinou-se sobre a humanidade. Jesus inclinou-se para curar e libertar pessoas doentes. Em Fátima, Nossa Senhora inclinou-se para chegar ao coração de três Pastorinhos. E nós também lhe pedimos: Esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei”. E ela, Nossa Senhora de Fátima ou Nossa Senhora da Misericórdia, a Mãe que Jesus consagrou como Mãe dos seus discípulos, com o seu coração imaculado e olhar de ternura, consola-nos, dignifica-nos e reforça-nos de coragem para pegarmos na nossa cruz, com as obras da Fé, com misericórdia e esperança, e continuarmos a missão com todos os desafios a enfrentar.

 

 

+ José Traquina

Bispo de Santarém e

Presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana

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