Homilia do Sr. Bispo na Festa do senhor Jesus das Necessidades em S. Cita (Tomar)

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Festa de Nosso Senhor das Necessidades

Santa Cita (Tomar)

11 de Setembro de 2018

Irmãos e irmãs

Ao refletir sobre esta Festa, verifiquei que o assunto que lhe dá origem corresponde ao mistério central do cristianismo e da Igreja. Ou seja, a pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo; a sua vida, paixão, morte e ressurreição. O povo cristão celebra a entrega de Jesus em Sexta Feira Santa, mas teve necessidade de outro dia em que a entrega fosse celebrada com mais alegria. É esse o sentido desta Festa do Senhor Jesus das Necessidades, como o é a Exaltação da Santa Cruz a 14 de setembro.

No início da Igreja, há dois mil anos, os cristão tinham um certo pudor em usar a cruz como um símbolo cristão. Segundo a cultura daquele tempo, ser seguidor de um crucificado, só poderia ser considerado uma loucura ou uma vergonha; era uma escolha considerada contrária ao bom senso.

Foi a partir do Séc. IV que os cristãos começaram a decorar a cruz com flores e pedras preciosas, e assim surgiu o crucifixo como o símbolo preferido dos cristãos para significar o Amor de Deus revelado na Paixão e Morte de Cristo.

A cruz chegou a ser decorada como se fosse uma árvore, para contrapor à árvore do paraíso onde a serpente enganou Adão e Eva. Essa é a árvore da infidelidade e do engano, a cruz é a nova árvore onde se contempla Cristo na doação total da vida, por amor e fidelidade.

 

Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito. (…) Deus não enviou o seu Filho para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele” (Jo 3,16-17). Tendo em conta estas palavras do Evangelho (Jo 3,13-17), a Cruz, com Cristo crucificado, é para os cristãos o símbolo da Paixão de Deus pela humanidade. Em vez de sinal de morte, a cruz passou a designar um chamamento e um critério de vida: somos chamados a fazer da vida uma entrega em amor e fidelidade.

 

  1. O Amor que cura os venenos

Diz-nos a primeira Leitura (Num 21,4b-9) que, no deserto, todos os que tinham sido mordidos por serpentes, para ficarem curados, deviam olhar para uma serpente de bronze que Moisés colocou num poste.

Seguindo o paralelismo com a primeira leitura, Cristo na Cruz, cura-nos do veneno das mordeduras das serpentes. De que veneno nos cura o Senhor? O veneno da crítica, em que se diz mal de tudo e de todos e não se colabora em nada para o bem comum. O veneno do pessimismo sem ponta de esperança. O veneno da indiferença, em que facilmente se cai sem interesse pelos seus semelhantes. O veneno do desprezo pela memória do passado, como se o mundo começasse agora e nada tivesse valor do que os antepassados fizeram. O veneno do mau uso da liberdade sem responsabilidade. O veneno da falta de consideração pelas pessoas idosas, doentes e pessoas com deficiência. O veneno da falta de respeito para com as crianças; um veneno que tanto tem preocupado o Papa Francisco por ser um crime e pecado grave que fere a dignidade e a vida das crianças e, quando praticado por eclesiásticos, fere a credibilidade da Igreja na sua missão. E também, em sentido literal, os venenos que são usados na produção dos bens da terra, sem respeito pela saúde dos consumidores.

Destes venenos e muitos outros o Senhor Jesus tem necessidade de nos curar.

 

  1. A grande necessidade de Jesus

Irmãos e irmãs, Jesus deu a vida na cruz para que tenhamos cura. Na cruz, Jesus disse: “Tenho sede” (Jo 19,28). Esta é a grande necessidade de Jesus e das mais comentadas. Que sede teria Jesus? Seria de água? Certamente tinha sede de água, pois estaria desidratado. Mas os cometários vão mais longe. A sede de Jesus era a de dar vida pela salvação de todos, a sua necessidade era dar sentido à morte, uma morte para suscitar vida nova, para que os que n’Ele creem recebam a purificação do coração e renasçam.

A grande necessidade de Jesus era e é: salvar-nos. Ele nos chama a uma vida nova, morrendo para a vida antiga. Há, portanto, um exercício de conversão ao Senhor Jesus que podemos colocar enunciar deste modo:

-Queres ser um homem adepto da verdade? Morre para a mentira.

-Queres ser um homem justo, morre para as injustiças.

-Queres ser um homem coerente, morre para a hipocrisia.

-Queres ser um homem com um coração largo, onde os outros sejam considerados e estimados?  Morre para a indiferença e para a soberba. E por aí adiante!

De tal modo é possível esta cura, que muitos cristãos afirmam com experiência: Cristo é solução porque me curou dos caminhos errados e me recuperou para uma vida edificante e agora sou mais feliz e torno felizes os que vivem comigo.

Como diz São Paulo (Segunda Leitura: cf. Filip 2,6-11), Jesus era de condição divina mas desceu, humilhou-se, morreu, mas o resultado foi a sua exaltação.

Somos convidados a morrer para o mal que existe no íntimo do coração humano, para darmos lugar a uma vida ressuscitada em Cristo, uma vida com outra graça. Afinal, o que andamos a fazer neste mundo? Procuramos a felicidade dos que vivem connosco e o bem comum de todos, ou fazemos da vida um inferno?

 

 

  1. Outras necessidades da atualidade

Consideremos até onde vai a preocupação e a necessidade do Senhor Jesus. Quando afirmamos que Jesus é o Salvador do mundo, o que estamos a dizer? A pregação não pode deixar de lembrar as preocupações com o planeta Terra, a ‘casa comum’ em que habitamos.

Por exemplo, em tempos passados os rios de água foram usados como lixeiras das cidades. Houve evolução positiva, hoje embora haja problemas, existe uma consideração mais universal: os rios de água são fonte de vida. A água potável e limpa é indispensável para a vida humana, porém, no sosso tempo, todos os dias morrem pessoas no mundo por falta de água potável para beber.

É preocupante como a exploração do nosso planeta aumentou em paralelo com o aumento do número de pessoas pobres. Se o planeta Terra permitiu mais riqueza aos homens, como se justifica que haja mais pobres? A riqueza acumulada em poucos a par de uma pobreza cada vez maior, é igualmente um problema do equilíbrio do planeta Terra.

O Papa Francisco escreveu uma Carta Encíclica (Laudato si’) a todos os habitantes do mundo, sobre a necessidade de atenção e cuidados com o planeta terra e com os pobres, e chamou-lhe ‘ecologia integral’. A avidez levou a muitas explorações insustentáveis do planeta; é necessário olhar com outra responsabilidade e considerar que para se ser feliz não é necessário ser dono do mundo, explorando-o e estragando-o e esquecendo os que nada têm.

Um dia, Jesus passando por uma terra chamada Jericó, viu um homem chamado Zaqueu em cima de uma árvore e disse-lhe: “Zaqueu, desce depressa pois hoje preciso de ficar em tua casa” (Lc 19,5). Zaqueu recebeu Jesus em sua casa e a sua vida passou a ter outros valores em consideração que antes não existiam. Renunciou a algumas coisas, para ganhar outras de mais valor.

Também hoje, Jesus tem necessidade de ficar em nossa casa, e a nossa casa é o nosso coração (morada interior), é a casa onde habitamos e é o planeta Terra que é a ‘casa comum’ de todos. Jesus tem necessidade da nossa atenção, da nossa vigilância; não quer que nos estraguemos, nem estraguemos o mundo à nossa volta, mas saibamos olhar os outros e a natureza como um dom de Deus Criador.

No altar da Eucaristia, unidos a Jesus na sua entrega ao Pai, agradeçamos a sua fidelidade e o seu Amor, que nos reabilita e alimenta para procedermos como seus discípulos, como homens e mulheres comprometidos na edificação do bem comum e no respeito por todos.

 

+ José Traquina

Bispo de Santarém

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