Homilia na Missa do Corpo de Deus

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Santarém, 31 de Maio de 2018

Homilia do Bispo D. José na Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo

 

Irmãs e Irmãos

Esta celebração da Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, que designamos vulgarmente por Festa do Corpo de Deus, centra-nos de forma festiva na celebração do Mistério Pascal de Cristo. Antes da Sua entrega na Cruz, como acabámos de ouvir no Evangelho, Jesus partindo da sua tradição de celebrar a Ceia Pascal, dá início a uma nova celebração da Ceia que seria o Memorial da Nova e Eterna Aliança.

A Igreja guarda e celebra esta Ceia Memorial, chamando-lhe Eucaristia, uma grande Ação de Graças por todas as maravilhas realizadas por Cristo em nosso favor. Ao celebrar a Eucaristia, a Igreja como esposa de Cristo está a revelar o tesouro do seu coração; a Eucaristia revela o mais profundo do mistério de amor de Deus pelos homens, realizado por Cristo e atualizado por estes sinais, através da Igreja.

Três palavras que sublinho como mensagem desta celebração: Aliança, decisão e renovação.

O que é a Aliança?

Na 1ª Leitura que ouvimos, do Livro do Êxodo, aprendemos o sentido da Aliança. Depois do acontecimento do Sinai, o monte a que o povo hebreu chega e ao qual Deus se revela, a partir dali estabelece-se um compromisso. Junto ao Sinai, através de Moisés, o Povo recebe a Palavra e a Lei de Deus, reconhece que a sua vida depende da fidelidade à vontade divina e responde “Faremos tudo o que o Senhor ordenou”. Com o sangue dos novilhos oferecidos em sacrifício é aspergido o altar e o povo ali reunido. É, assim, celebrado um pacto, um compromisso, entre Deus e o Povo, é isso a Aliança.

É necessário ter em conta este pacto antigo, antiga aliança, para acolhermos a Nova e eterna Aliança, a celebração iniciada por Cristo, reveladora do seu Amor consagrado na Cruz, e que os seus Apóstolos são exortados a celebrar como memorial, força libertadora e revelação de toda a ternura de Deus.

“Tomai: isto é o meu Corpo; este é o cálice do meu sangue… Fazei isto em memória de Mim”. A Eucaristia é, portanto, a celebração permanente, em que, por Cristo e pela sua Igreja, Deus assegura a sua Aliança, o seu compromisso de fidelidade, de Bênção e bondade para com o seu Povo.

Eucaristia é decisão.

O Evangelho (Mc 14,12-16.22-26) que ouvimos reflete decisão da parte de Jesus. Estava decidido a entregar-se. Toda a sua vida foi uma entrega à vontade do Pai, também a Ceia Pascal havia de revelar esta decisão. Tudo decidido, tudo a convergir para a celebração, toda a preparação necessária, tudo previsto na “na grande sala no andar superior, alcatifada e pronta.” A celebração é descrita em tom de festa, é ali que Jesus quer celebrar a Páscoa com os seus discípulos, quer envolvê-los nesta decisão pascal, por isso “tomou o cálice, deu graças e entregou-lho”. É a nova Páscoa, que havia de marcar os novos tempos onde o Espírito havia de ser outro para libertar o homem de todo o mal.

Os discípulos não terão compreendido todo o alcance. Mas a ceia dos discípulos de Emaús, e as reuniões que os discípulos faziam quando o Senhor Ressuscitado lhe aparecia, indiciam que a celebração da Ceia Pascal era o grande momento de encontro continuado, de Cristo com os seus discípulos e toda a comunidade, que entretanto foi alargando, no tempo e no espaço, até chegar ao dia de hoje, aqui e agora.

Eucaristia é renovação.

Na 2ª leitura, tirada Carta aos Hebreus, é feita a comparação da Antiga e da Nova Aliança, diz: “Na verdade se o sangue de cabritos e de toiros, aspergidos sobre os que estão impuros, os santificam em ordem à pureza legal, quanto mais o sangue de Cristo, que pelo Espírito eterno Se ofereceu a Deus como vítima sem mancha, purificará a nossa consciência das obras mortas, para servirmos ao Deus vivo!”.

É pois importante que a participação a Eucaristia, seja para nós força de purificação. Embora não se trate do perdão sacramental da Confissão, é no entanto uma celebração da purificação da consciência. Quando, numa Missa o sacerdote convida os participantes a saudarem-se na Paz de Cristo, isso não pode ser uma mentira; esse gesto de saudação tem de conter o valor sagrado da Paz.

O autor da Carta aos hebreus tem a preocupação de afirmar a dimensão sacerdotal de Cristo. Esta dimensão deve acompanhar-nos como característica espiritual da Igreja; somos o Povo Sacerdotal, o povo que se une a Cristo e se entrega confiadamente. Na medida desta entrega sacerdotal, está a nossa purificação e a renovação dos nossos propósitos.

Diz-nos o Papa Francisco: “O encontro com Jesus nas Escrituras conduz-nos à Eucaristia, onde essa mesma Palavra atinge a sua máxima eficácia, porque é presença real d’Aquele que é a Palavra viva. Lá o único Absoluto recebe a maior adoração que se Lhe possa tributar neste mundo, porque é o próprio Cristo que Se oferece. E, quando O recebemos na Comunhão, renovamos a nossa aliança com Ele e consentimos-Lhe que realize cada vez mais a sua obra transformadora” (GE 157).

Irmãos e irmãs, a Eucaristia é fonte de renovação, refaz-nos na comunhão com Cristo, na mesma Aliança de Amor; refaz-nos na missão que o Senhor nos confia na sua Igreja, no seio da família, no voluntariado, na dedicação de maior perfeição no trabalho que tivermos de realizar. Não esquecemos que é nesta fonte de vida que se alimentam espiritualmente todos os religiosos e religiosas, os matrimoniados e aqueles que se dedicam a cuidar dos pobres.

Para que a celebração da Eucaristia aconteça, são necessários os ministros  Sacerdotes para a ela presidirem em nome de Cristo. É pois oportuno salientar o valor do ministério sacerdotal, agradecer a dedicação dos nossos padres e rezarmos pela sua santificação, para que se renovem, na fidelidade e na alegria da vida consagrada a Deus e ao bem do seu Povo e do mundo.

Também os Ministros extraordinários da Sagrada Comunhão são chamados a uma vida espiritual eucarística, procurando servir a Cristo nos irmãos doentes a quem levam a Sagrada Comunhão. Não pode haver distração ou banalidade no exercício do ministério que toca com a presença real de Cristo na Eucaristia; do cuidado e  concentração de todos os servidores e intervenientes na Liturgia da celebração da Eucaristia, depende a beleza e a alegria deste grande Sacramento que o Senhor confiou à sua Igreja.

Esta Solenidade, em dia de Quinta-feira, retoma a espiritualidade da outra Quinta-feira santa, no Tríduo Pascal. Mas, porque a Quinta-feira santa antecede a celebração da Paixão, os cristãos sentiram necessidade de uma outra Quinta-feira em que a Eucaristia tivesse mais expressão de Festa. Celebramos, pois, festivamente a Eucaristia e manifestemos publicamente a alegria deste nosso tesouro espiritual. Que seja a convergência da nossa comunhão de Igreja Diocesana e nos fortaleça e inspire no bem que havemos de realizar.

A Virgem Maria, Mãe da Igreja nos acompanha.

 

+ José Traquina

Bispo de Santarém

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