Mostrai-me Senhor o caminho da vida (Homilia da peregrinação diocesana a Fátima 30 de Abril de 2017)

Mostrai-me Senhor o caminho da vida  (Homilia da peregrinação diocesana a Fátima 30 de Abril de 2017)

Mostrai-me Senhor o caminho da vida (Homilia da peregrinação diocesana a Fátima 30 de Abril de 2017)

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Viemos em peregrinação ao santuário de Fátima onde Nossa Senhora estabeleceu a fonte das suas bênçãos, a cátedra dos seus ensinamentos. Este ano, em que comemoramos o centenário das aparições, queremos recordar e agradecer as abundantes graças que, ao longo de cem anos, derramou sobre a toda a humanidade, sobre os peregrinos que aqui acorrem confiantes, sobre a Igreja e, particularmente, sobre a nossa diocese de Santarém confiada à sua proteção. Através da mediação de Nossa Senhora, o santuário de Fátima tornou-se um lugar de encontro com Deus, uma escola de espiritualidade, de reconciliação e de paz. É incontável o número dos que aqui encontraram, com a ajuda da Mãe do Céu, a resposta à súplica do salmo que hoje cantámos: “Mostrai-me Senhor o caminho da vida”. Peregrinar a este lugar santo é fazer a experiência de um caminho de luz e de santidade, de graça e de plenitude. Todos nós queremos conhecer melhor e trilhar mais firmemente os caminhos que levam à presença do Senhor onde se encontra a alegria plena: Assim promete um salmo: “Felizes os que levam em seu coração os caminhos do santuário” (Cf Salmo)

As leituras bíblicas desta missa iluminam os nossos percursos de fé e de missão, tanto a nível pessoal como comunitário. O texto do evangelho de São Lucas, que nos apresenta o ícone dos discípulos de Emaús, é-nos particularmente familiar. Na verdade, tem inspirado e acompanhado, desde há vários anos, as propostas de ação pastoral da nossa Igreja diocesana. Confirma-nos numa certeza essencial da nossa fé cristã: na estrada da vida não vamos sozinhos nem andamos perdidos. Jesus Ressuscitado caminha connosco, restitui a esperança aos desanimados, aquece os corações frios. Acontece-nos, porém, com frequência, o mesmo que aos discípulos de Emaús: os nossos olhos estão impedidos de o reconhecer. Os impedimentos podem vir de variadas proveniências: da pressão de muitas realidades exteriores que nos dispersam; da abundância de ruídos que nos distraem; da excessiva centralização em nós mesmos que nos fecha à presença silenciosa e escondida do Senhor. Para combater estes obstáculos, as leituras deste domingo convidam-nos a recorrer a três lugares de encontro com o Senhor.

1.Lugar fundamental onde o Senhor vem ter connosco: A palavra de Deus nas Escrituras: “Explicou-lhes em todas as Escrituras o que a Ele dizia respeito”, dizia a narrativa do evangelho. A Palavra das Escrituras tem força e eficácia próprias. Os seus frutos não provêm do pregador mas da ação do Espírito Santo que as inspirou. Por isso, através das Sagradas Escrituras é Deus que vem conversar connosco. Assim compreendemos a exclamação dos dois discípulos, após terem reconhecido a presença do Senhor na fração do pão: “Não ardia cá dentro o nosso coração quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras”. Bem precisamos deste calor espiritual que desperte a nossa esperança e fortaleça o nosso ânimo nas noites frias da vida. Procuremo-lo no contato assíduo com a voz do Espírito Santo que ressoa na Bíblia Sagrada. Escutemos com os ouvidos, com a mente e com o coração. Como os pastorinhos meditavam nas palavras de Nossa Senhora para contemplarem e imitarem mais fielmente Jesus escondido e silencioso.

  1. O segundo lugar de encontro com o Ressuscitado é a participação na mesa da ceia do Senhor, ou seja, na eucaristia. Assim dizia o texto do evangelho: “Abriram-se-lhe os olhos e reconheceram-no quando se pôs à mesa”. Em vez de seguir adiante, Jesus, a pedido insistente dos discípulos, entrou e ficou com eles. Quando se pôs à mesa tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e entregou-lho. Eram os gestos familiares da última ceia a que o Senhor deixara ligada a sua memória. Então reconheceram-no e entenderam a uma nova luz tudo o que tinha acontecido.

A celebração da eucaristia é o lugar por excelência de encontro com o Senhor. Não é apenas memória. É presença sacramental que atualiza a Sua habitação no meio de nós. “Ele está no meio de nós”, proclamamos algumas vezes na celebração para avivarmos a consciência desta presença real embora invisível a nossos olhos. Nesta perspetiva a celebração da missa é essencialmente o “mistério da fé”. Aprendamos no exemplo admirável de Francisco, o pastorinho contemplativo, a cultivar o sentido vivo da presença de Jesus na eucaristia.

Todos os elementos da celebração têm a função de criar ambiente que ajude a viver este encontro com o mistério invisível: o espaço, a decoração, os ritos, os cânticos, os ministrantes, particularmente o celebrante. Todos estão ao serviço da glória do Senhor. Evitemos tudo o que possa distrair deste centro ou dar a imagem de um rito ou de uma cerimónia social em que se dê mais relevo às pessoas ou elementos exteriores do que à presença silenciosa de Jesus.

Celebrar a eucaristia é dar graças pelos dons da vida e da fé e receber a bênção para que o Espírito Santo santifique e transforme a nossa existência pela sua graça. Assim podemos refletir e irradiar no mundo a santidade dos filhos de Deus. Deste modo, reconhecendo e agradecendo os dons de Deus, procuremos fazer da existência uma bênção que contribua ao enriquecimento de todos

  1. A integração na comunidade e a missão é o terceiro lugar de encontro com o Senhor Ressuscitado, referido no evangelho deste domingo. Como diz o texto: “Partiram imediatamente e contaram o que tinha acontecido no caminho”. Regressam à comunidade que haviam deixado, fazem um caminho inverso. Mas regressam diferentes, transformados. Vinham voltados para o passado. Regressam confiantes e orientados para o futuro. O encontro com o Ressuscitado marca um recomeço e faz surgir a esperança de um mundo novo. Por isso, não podem guardar só para si este fermento de transformação. É destinado a todos. Deixam, portanto, o refúgio da sua aldeia e vão ao encontro da comunidade dos discípulos para partilhar com eles a novidade inaudita de Cristo Ressuscitado. Tinham vindo desanimados e regressam agora cheios de entusiasmo.

Ao abrir os olhos para a presença do Senhor vêm também a vida e os outros com uma nova luz. Não podem viver fechados em si mesmos como se a vida fosse uma questão privada. Os outros precisam e esperam a luz e esperança que eles receberam. O Senhor comunicou-lhes o calor da palavra que lhes aqueceu o coração, partilhou com eles o pão da vida e a bênção. Agora arde dentro deles um fogo que os faz sair em missão e reintegrarem-se na comunidade missionária para levar a boa nova ao mundo inteiro.

Na mensagem de Fátima e na vida dos pastorinhos encontramos o apelo constante à missão: “Quereis oferecer-vos a Deus”? Oferecer-se a Deus é entender a nossa vida como uma bênção e entregá-la em união com a oferta que Cristo faz de si mesmo ao Pai, oferta que se renova na eucaristia. Como os pastorinhos respondamos sim e façamos da nossa existência uma missão para que se torne uma bênção que a todos enriqueça. Como Nossa Senhora digamos também: “Eis a serva (ou servo) do Senhor faça-se em mim segundo a tua palavra”.

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