Missa crismal 2017 – Homilia de D. Manuel Pelino Domingues, bispo de Santarém

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Sem comentários em Missa crismal 2017 – Homilia de D. Manuel Pelino Domingues, bispo de Santarém
“O Espírito do Senhor está sobre mim Ele me ungiu e me enviou a anunciar uma boa nova”
Na celebração da Missa Crismal cumpre-se para todos nós este anúncio. Também nós recebemos a unção do Espírito Santo que nos coroa com a graça, a bondade e a alegria. “Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura”, declarou Jesus em Nazaré.” Nesta Missa Crismal de Quinta Feira Santa, podemos declarar o mesmo, nós discípulos do Senhor, pois fomos ungidos pelo Espírito no Batismo e na Confirmação. Este anúncio atualiza-se particularmente para os sacerdotes ordenados para o ministério e ungidos para servir o povo de Deus. Todos somos, portanto, convidados a contemplar e a interiorizar esta proclamação: “O Espírito do Senhor está sobre mim”.
Na condição de ungidos pelo Espírito, saúdo cordialmente todos os presentes: presbíteros; diáconos; religiosos (as); seminaristas, noviço, acólitos, fiéis leigos. Demos graças a Deus pela unção do Espírito Santo que faz de nós um reino de sacerdotes, enriquece a nossa existência com a bênção de Deus e nos chama a ser no mundo uma fonte de bênçãos. A todos desejo a alegria, a consolação e o louvor do Espírito Santo.
As leituras bíblicas que escutámos revelam-nos dois movimentos da força do Espírito Santo: um movimento vertical, pelo qual o Espírito está sobre nós, vem do alto, é unção espiritual que nos é infundida. E um movimento horizontal que nos envia aos pobres, aos caídos, aos feridos, aos aflitos e oprimidos. A Unção não é para guardar para cada um – tornar-se-ia rançosa; nem para engrandecimento ou brilho pessoal – seria uma corrupção. A Unção faz de nós servos disponíveis, livres dos apegos, sobretudo do apego a nós mesmos, para levar cura e misericórdia, consolação e graça aos atribulados e infelizes.
Estas duas vertentes são complementares e devem andar sempre associadas. A nossa missão sacerdotal não se compreende sem o dom do Espírito Santo: Ele é como vento impetuoso que nos impele a sair de nós mesmos e a pormo-nos a caminho; é como um fogo interior que nos faz arder em zelo e não nos deixa fechar na acédia egoísta ou desanimar no pessimismo estéril (Cf EG 81.84). A alegria e eficácia do exercício do ministério ordenado encontram-se na harmoniosa conjugação destas duas vertentes no programa de cada dia: os momentos de oração; e os tempos dedicados à atividade pastoral. Sem vida interior cultivada nos momentos de oração, de leitura orante da Palavra de Deus, de celebração e adoração, o nosso ministério ficaria sem alma nem sentido. É o dom do Espírito Santo que nos permite criar pontes entre a graça e a vida quotidiana e faz jorrar em nós a água viva que pode vencer a secura do ambiente envolvente, marcado pelo individualismo e pela indiferença. Por isso, como nos recomenda o Papa Francisco, precisamos de invocar o Espírito Santo cada dia, de pedir constantemente a Sua graça para que abra o nosso coração frio e sacuda a nossa vida tíbia e superficial (Cf EG .264)
Mas a espiritualidade, sem o compromisso da missão e a exigência da caridade, seria intimismo e fuga. A experiência de amizade com Jesus conduz-nos ao encontro daqueles que Ele quer iluminar, curar, libertar. A missão é uma paixão por Jesus e uma paixão pelo seu povo (EG 268). Não é, de modo nenhum, um apêndice, ou um ornamento. O verdadeiro discípulo é sempre missionário. Cada um de nós deverá dizer com sinceridade: “Eu sou uma missão nesta terra e para isso estou neste mundo: para iluminar, abençoar, vivificar levantar, curar libertar” (EG 273).
A entrega entusiasta à missão dá encanto, fecundidade e plenitude à vida do sacerdote. Comunicar com as pessoas, partilhar as suas alegrias e sofrimentos, curar as suas feridas, apoiar e ajudar nas suas necessidades são fonte de enriquecimento e encanto tanto para o missionário como para aqueles a quem leva a boa nova. “O que seria o pastor que se compreendesse como bênção? Não seria certamente o dono e o senhor do redil que se serve das ovelhas como sua propriedade (…). Seria antes o servo que assiste, observa e acompanha o caminho por vezes lentíssimo, de cada homem e mulher com empatia, lucidez, paciência e tenacidade, inventividade e afeto” ( Elmar Salmann, “Vitalidade da Bênção”, Prefácio, pg 9)
Ao renovarmos hoje as nossas promessas sacerdotais clarifiquemos e interiorizemos as motivações da nossa missão sacerdotal: a experiência pessoal de encontro, de amizade com Jesus e de contemplação do Seu mistério, (Cf EG 262 e 264); a convicção de que existe nas pessoas e nos povos, pela ação do Espírito Santo, uma ânsia mesmo inconsciente de conhecer a verdade acerca de Deus e do homem, do caminho que conduz à libertação do pecado e da morte(Cf EG 265); a certeza de que o evangelho dá resposta às necessidades mais profundas da pessoa (Cf EG 265).
Vivemos em tempos de mudança. Desmoronou-se um mundo estável, seguro e adivinha-se um mundo novo. As categorias centrais do cristianismo, a forma de pensar, de viver e de exprimir a fé tornam-se estranhas numa cultura agnóstica. Haverá lugar para Deus? Não duvidamos que sim. Mas temos de procurar os sinais da sua presença e os caminhos novos para levar a sua luz às pessoas da nossa época.
Na minha experiência religiosa, sempre me tocou e inspirou esta apresentação de Jesus de Nazaré. Por isso, a escolhi como lema do episcopado, já lá vão vinte e nove anos. Parece-me que ainda hoje a escolheria. Os anos fortaleceram ainda mais a convicção de que o encontro com Cristo oferece um caminho de esperança, uma fonte de alegria e uma base sólida de apoio à nossa frágil existência e ao exercício do sagrado ministério. Com a passagem dos anos aprendemos a confiar sobretudo na ação do Espírito Santo a procurar a sua luz, a prestar atenção aos seus sinais e a recorrer mais assiduamente à sua inspiração. Por isso, tenho insistido oportuna e importunamente na escuta da voz do Espírito Santo que ressoa na Sagrada Escritura. Não me tenho cansado de recomendar a “lectio divina” como exercício espiritual que ilumina e aquece o nosso coração com a presença consoladora de Deus. Como no tempo dos apóstolos, a igreja cresce quando se desenvolve a escuta e o anúncio da Palavra de Deus (Cf At 6, 1-4).
Nossa Senhora viveu exemplarmente os dois movimentos do Espírito Santo: acolheu a sua ação e disponibilizou-se, como serva, para colaborar. Logo após a Anunciação correu apressadamente a visitar sua parente Isabel para a ajudar e com ela partilhar a alegria da Boa Nova. Alegremo-nos e aprendamos com ela.
Somos apenas servos e não donos. Não devemos procurar possuir espaços, mas desencadear processos de crescimento espiritual e humano. Compete-nos semear mesmo que não vejamos os frutos. Ao renovar as promessas sacerdotais, entreguemos ao Senhor o nosso trabalho apostólico pedindo que o aceite e faça frutificar a seu tempo.
Santarém 13 de Abril de 2017
+Manuel Pelino Domingues, bispo de Santarém

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