Carta Pastoral e Programa para o Ano 2016-17

Carta Pastoral e Programa para o Ano 2016-17

Carta Pastoral e Programa para o Ano 2016-17

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Carta Pastoral do Sr. Bispo de Santarém: “Caminhar para a plenitude de Cristo” e programa pastoral para o ano de 2016-2017.

 

Caminhar para a plenitude de Cristo

Introdução

Para o ano pastoral 2016 2017 escolhemos, como lema para a ação da Igreja na diocese de Santarém “Caminhar para a plenitude de Cristo”. É uma opção de fundo, definida com a ajuda do Conselho Pastoral Diocesano, com que desejamos iluminar o programa pastoral dos vários organismos diocesanos e inspirar o caminho da fé dos fiéis. É uma dimensão do cristianismo que vem das origens, tão antiga mas sempre nova e, neste momento, muito atual, oportuna e necessária.

Enquadra-se nas preocupações e acontecimentos atualmente em realce na Igreja. Antes de mais, ao ano jubilar da misericórdia. O ano encerra a 20 de Novembro mas a virtude da misericórdia é para permanecer como lâmpada a iluminar e identificar o agir da igreja e o estilo de vida cristã. Como escreve o Papa Francisco na Bula da misericórdia, esta virtude é “uma meta a alcançar com empenho e sacrifício” (MV 14). Por isso, precisa de ser estimulada pela peregrinação, ícone do caminho que cada pessoa realiza na sua existência (Cf MV 14). Para alcançar e testemunhar a misericórdia precisamos, portanto, de sair de nós mesmos e fazer caminho ao encontro dos que precisam de atenção e de ajuda.

A imagem do cristianismo como caminho e o perfil do cristão como peregrino tem sido muito realçados em todos os tempos, designadamente após o concílio Vaticano II. O verdadeiro cristão não pode instalar-se num estatuto ou patamar adquirido de uma vez para sempre. Tornamo-nos cristãos progressivamente através de um processo de conversão que dura a vida inteira. Nos tempos mais recentes, os Papas Bento XVI e Francisco têm insistido no perfil de cristão como um “discípulo missionário” que, no caminho da vida, segue Jesus e dele dá testemunho. Realmente é este o retrato do crente apresentado pelo evangelho e que vai de encontro aos anseios das pessoas em geral. No coração humano habita o desejo de crescer em todas as dimensões da existência e progredir também na sabedoria, na perfeição e na graça. Avançar no caminho do bem é uma perspetiva dinâmica e estimulante para apresentar a fé cristã e o crente nos tempos atuais.

Sendo tão relevante na Bíblia, na tradição da Igreja e no magistério atual e tão significativa para a sensibilidade das pessoas, a imagem da vida cristã como um caminho não está, porém, adquirida na mentalidade corrente e na vida pastoral. É mais comum uma visão estática e instalada do cristão, como se ficasse pronto com os sacramentos da iniciação cristã (batismo, confirmação e eucaristia). Na mesma perspetiva, a ação dos pastores é entendida como assistencial ou manutenção das tradições religiosas, dedicando-se, sobretudo, a celebrar missas, sacramentos e sacramentais. Por isso, para avançarmos na renovação missionária, achamos oportuno aprofundar a dimensão de crescimento da fé e as fontes que alimentam o caminho.

Outro acontecimento que celebramos no pastoral de 1917 é o centenário das aparições de Nossa Senhora em Fátima. Também aqui encontramos uma inspiração para o caminho do crente. Na verdade, o Santuário de Fátima tornou-se um dos lugares de peregrinação mais visitados do mundo e oferece-nos, portanto, uma boa pedagogia para concretizar a imagem da vida cristã como caminho para a santidade.

Temos ainda outra prioridade pastoral em que é também importante realçar e integrar a imagem do caminho: o amor no matrimónio e na família. As duas assembleias sinodais recentes sobre a família e a Exortação Apostólica do Papa Francisco “A Alegria do amor” vieram alertar-nos para o cuidado especial que devemos dedicar à família, base da sociedade e berço da Igreja. A alegria do amor nas famílias é também o júbilo da Igreja e a esperança de renovação do mundo. O amor, porém, é um caminho de crescimento, não atinge a perfeição com a celebração do matrimónio mas, com a graça do sacramento e o empenho dos esposos, precisa de progredir continuamente. Como escreve o Papa Francisco na referida Exortação: “Não podemos encorajar um caminho de fidelidade e doação recíproca, se não estimularmos o crescimento, a consolidação e o aprofundamento do amor conjugal e familiar. De facto, a graça do sacramento do matrimónio destina-se, antes de mais, nada a aperfeiçoar o amor dos cônjuges (AL 89). Por isso, para estimular a estabilidade do matrimónio, não basta falar das obrigações ou da doutrina mas é necessário robustecer o amor matrimonial por meio de um crescimento constante sob o impulso da graça. “O amor que não cresce começa a correr perigo” (AL 134).

Tendo presentes estas preocupações atuais da Igreja, achámos por bem escrever a presente Carta no sentido de ajudar os cristãos a crescer e a dar frutos ao longo de toda a sua existência (Cf Sl 91,(92), 13-16), para que a imagem de Deus resplandeça com mais brilho no rosto de cada um dos fiéis e das comunidades cristãs.

  1. O Caminho do Senhor

“Caminho do Senhor” (Act 9,2; 18,25) é, de facto, a primeira designação da religião cristã. Jesus Cristo, que se apresentou como o caminho, a verdade e a vida, concede aos seus discípulos a graça e a esperança de progredir sempre em ordem a uma vida plena, bela e fecunda. A fé cristã tem, portanto, no seu íntimo um dinamismo de crescimento em ordem à plenitude de Cristo.

Um caminho tem em vista alcançar uma meta e faz-se dando passos, adquirindo ritmos, percorrendo etapas. Assim pode progredir para uma finalidade e abrir horizontes sempre novos. Jesus Cristo é a meta e o guia do caminho (Heb 12, 2). Crescer na fé é aproximar-se cada vez mais da luz do Senhor, sol nascente que, das alturas, nos visita (Lc 1, 78). Na sua vida histórica, Ele próprio está a caminho para Jerusalém onde se consumará o Mistério Pascal. Após a ressurreição caminha com os discípulos. E, pela fé e pelo Espírito Santo vem, hoje, ao nosso encontro e caminha connosco para nós caminharmos com Ele.

À luz da fé em Jesus Cristo, devemos, portanto, entender a vida como um caminho para o “santuário”, para a união cada vez mais perfeita com Deus, para a luz da santidade, através do seguimento de Jesus e com a inspiração do Espírito Santo. É o que Jesus no evangelho chama “ a vida em plenitude” ou “vida eterna”. Todos os dias precisamos de dar passos neste percurso. Cristo oferece-nos um projeto de vida, ajuda-nos a crescer nele cada dia, levanta-nos quando caímos e vai à nossa frente como Luz que ilumina e como referência a ter sempre presente. O caminho que nos indica é sempre novo. Por isso, o discípulo vive em permanente procura e atenção aos sinais da novidade do Senhor, em atitude de esperança e de confiança no futuro.

Falta de confiança no futuro

A situação real que vivemos na nossa época apresenta-se muito distante desta dimensão de crescimento para a plenitude. Respira-se hoje, no ambiente social, uma sensação de crise, de envelhecimento e de recuo em muitas áreas da vida humana. A natalidade tem descido. O número dos que celebram o matrimónio baixou. A estabilidade das famílias fragilizou-se pelo aumento de divórcios. As possibilidades económicas são menores. A prática cristã, em bastantes lados, recua. A vida de muita gente parece ameaçada pelo vazio e pela falta de confiança no futuro.

Por isso, é tão urgente atualizar o apelo de Cristo no evangelho: “levanta-te e caminha” (Lc 5,28). Não nos deixemos conformar ou desanimar com a situação que observamos. Com a força do Senhor e a nossa colaboração podemos fazer alguma coisa para a mudar, se mudarmos nós também. Quando nos aproximarmos da luz de Cristo, ela brilha em nós e irradia à nossa volta. Como disse Elizabeth Leseur, uma alma que se eleva, eleva o mundo.

A fé infantil não tem significado para as questões adultas

Para crescer para a plenitude não podemos parar numa etapa. De facto, muitos cristãos crescem na compreensão e na experiência da vida, desenvolvem capacidades humanas, intelectuais, físicas, profissionais, mas permanecem na fé infantil, que deixa de ter significado para as questões adultas. Ora o dinamismo da fé reclama que, em qualquer idade, devemos dar passos e progredir, desapegar-nos do passado e olhar para o futuro, crescer na perfeição tendo por referência a semelhança com Cristo, produzindo assim, cada vez com mais abundância, os frutos do Espírito Santo (caridade, alegria, paz, paciência, benignidade…). Podemos resumir estes frutos na atitude da misericórdia, o principal atributo de Deus e a maior das virtudes cristãs. Crescer na fé é crescer na Misericórdia segundo o convite de Jesus: “Sede misericordiosos como o Pai”.

 Sinais de recomeço

Ao lado de sinais de decréscimo e de recuo na vida social, económica, moral e religiosa, não podemos deixar de verificar também sinais de recomeço e “rebentos de ressurreição” (EG 276). Muitas pessoas permanecem e vivem a fé com convicção e alegria. Numerosos adultos e jovens descobrem a beleza do cristianismo e testemunham o sentido de plenitude e de paz que recebem da fé. Há muitas famílias unidas e felizes.

Está, portanto, ao nosso alcance caminhar para uma vida com mais qualidade. Como revela o salmo 1, temos à nossa frente dois caminhos: o caminho do Senhor que torna a vida feliz e fecunda; e o caminho da indiferença (dos ímpios) onde encontramos o vazio. Seguir o caminho do Senhor leva à alegria e a paz: “Feliz o que segue o caminho do Senhor, (…). É como árvore plantada à beira das águas, dá fruto a seu tempo, a sua folhagem não murcha, tudo quanto fizer será bem sucedido” (Sl 1.3)

  1. Com os olhos fixos em Jesus

“Estando nós rodeados de tão grande número de testemunhas, ponhamos de parte todo o fardo e pecado que nos cerca e corramos com perseverança para o combate que se apresenta diante de nós, fixando os olhos em Jesus, guia da nossa fé e autor da sua perfeição” (Heb 12, 1-2).

O caminho de crescimento na fé não é uma proposta teórica, tem referências concretas. Não nasce de uma doutrina mas de uma pessoa, Jesus, guia e perfeição da nossa fé, como diz este texto da Carta aos Hebreus. No seguimento do seu exemplo, temos um grande número de testemunhas do evangelho que correram com firmeza para a meta e enfrentaram os sacrifícios do combate pelo bem e pela verdade. A vida dessas testemunhas deu fruto e alcançou êxito (Cf Hebr 13,7) e serve-nos de estímulo e apoio. Em todos os tempos e ainda hoje encontramos muitos crentes discípulos de Jesus que, pela sua bondade, retidão, misericórdia e entrega ao serviço, concretizam de forma admirável, o caminho do evangelho e nos animam a segui-lo também. Fixar os olhos em Jesus é ter como modelos aqueles que O encontraram e, com este encontro, transformaram as suas vidas.

“Queremos ver Jesus” pediram alguns interessados ao apóstolo Filipe (Jo 12, 21). O mesmo pedido nos dirigem hoje, a nós crentes, muitas pessoas com inquietações religiosas. Como podemos mostrar Jesus aos que O procuram? Antes de mais mostrando-O na nossa própria vida, pelas obras que praticamos, deixando que o evangelho nos molde e transpareça no nosso estilo de vida: “De rosto descoberto, refletindo como num espelho, a glória do Senhor, somos transformados na sua imagem cada vez mais gloriosa, pela ação do Espírito do Senhor” (2 Cor 3,18). O testemunho do amor, da paz, do serviço e da alegria convencem mais do que muitas explicações. Fixar os olhos em Jesus é, portanto, contemplá-lo, amá-lo e deixar-se configurar com Ele.

O olhar, uma janela para a luz

Pelo olhar captamos e filtramos a realidade. Quando olhamos, prestamos mais atenção a algumas coisas do que a outras. Podemos olhar e não ver. Fixar os olhos é prestar atenção às pessoas ou às realidades e acolhê-las na mente e no coração. É ver em profundidade, com afeto, para além das aparências. O que vemos com gosto e interesse, penetra na mente e influencia o coração, leva-nos a admirar e a amar essa pessoa ou realidade. Por isso, como diz o evangelho, “o olhar é a lâmpada do corpo” (Mt 6,22), é por onde entra a luz que influencia e guia o nosso caminho.

Daí a importância de fixar os olhos no que é bom, belo, positivo e deixar que esses valores entrem na nossa mente e no nosso coração e, assim, orientem a nossa vida. Porque, se deixarmos poluir o nosso olhar por imagens superficiais ou negativas (de vaidade, de pornografia, de violência), então a nossa mente e o nosso coração podem tender para esses caminhos. Fixar os olhos no mal é deixar que as trevas escureçam a mente e o coração.

Somos hoje invadidos por grande abundância de imagens negativas. Mas temos também muitas imagens e memórias positivas, muitos exemplos admiráveis que nos mostram um caminho de luz e de esperança. Para progredir no caminho da bondade, da paz, da dignidade e do amor precisamos de fixar os nossos olhos em Jesus e naqueles que se orientaram pela retidão e pela responsabilidade e contribuíram para tornar o mundo mais digno e mais fraterno.

Vós quem dizeis que Eu sou?

Quem é verdadeiramente Jesus? Sempre houve imagens e interpretações muito diversas e, por isso, devemos continuamente procurar aprofundar, na leitura do evangelho, a questão colocada pelo próprio Jesus: “Vós quem dizeis que eu sou?”(Mt 16,15). Cada crente é desafiado a dar uma resposta pessoal pois a pergunta é colocada a cada um: “Para ti quem sou Eu?” Como representamos Jesus? Que influência exerce na nossa vida, na forma de pensar, nos afetos e nas atitudes?

Jesus teve uma existência histórica, mostrou um rosto concreto, exemplificou um estilo de vida que serve de referência para os fiéis de todos os tempos. “Jesus Cristo é sempre o mesmo hoje e ontem e por toda a eternidade” (Heb 13, 8). Vamos referir algumas imagens recorrentes no evangelho que realçam traços capitais da identidade de Jesus.

A imagem que d’Ele contemplamos com mais frequência é a do “Cristo na cruz”. É a manifestação mais alta do seu amor. Por nós se entregou na cruz e ressuscitou para nossa salvação. Por isso, ao fixar os olhos em Cristo Crucificado, devemos entender a cruz à luz da ressurreição e louvar a misericórdia de Deus que “de tal modo amou o mundo que lhe entregou o Seu Filho Unigénito” (Jo. 3, 16).

Um título de Jesus muito usado na Bíblia é o de “Messias” ou “Ungido” pelo Espírito Santo. Assim estava anunciado no Antigo Testamento e com este título o reconhecem os apóstolos. Pedro, ao confessar a sua fé, dá a este título a sua riqueza profunda: “Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo” (Mt 16, 16). Não é só o “Ungido” de Deus, é também a própria presença de Deus no meio nós. Para compreendermos esta imagem precisamos de conhecer e meditar nas promessas de Deus contidas no Antigo e realizadas no Novo Testamento. Jesus é a chave para entender a Sagrada Escritura. Assim, como dizia São Jerónimo, ignorar as Escrituras é ignorar Jesus.

No presente ano da misericórdia foi muito realçada a imagem do “Bom Pastor” que vai à procura da ovelha perdida e, quando a encontra, põe-na alegremente aos ombros e, ao chegar a casa, faz uma festa com os amigos (Cf Lc 15, 1-7). No logotipo do ano da misericórdia, o desenho do Bom Pastor, de Marko Rupnik, deixa transparecer o amor com que leva aos ombros a humanidade para lhe mudar a vida. Esta imagem está associada à do “Bom Samaritano” que presta atenção ao ferido caído à beira da caminho, faz-se próximo dele, partilha o seu abandono e sofrimento, cuida das suas chagas e carrega com ele para uma estalagem a fim de o restabelecer. Nestas imagens aprendemos a concretizar na nossa existência a misericórdia do Pai: “Sede misericordiosos como o Pai”.

Ver a vida e os outros com o olhar de Jesus

Fixar os olhos em Jesus é interiorizar o seu estilo de vida e progredir na prática da misericórdia. Por isso, é, também, olhar para os outros com os olhos de compaixão e de apreço de Jesus, prestando-lhes atenção e solidariedade. Como o “Bom Pastor” e o “Bom Samaritano”, é aproximar-se dos feridos, partilhar o seu sofrimento e cuidar deles como de nós mesmos; é vencer a indiferença e estabelecer relações cordiais com todos sem distinção; é sair das suas comodidades e ir ao encontro dos que andam afastados e perdidos.

A qualidade e a fecundidade da existência cristã avaliam-se pelos frutos. A caridade traduzida na misericórdia é o primeiro fruto e também o fundamento de todos os outros. A caridade identifica o verdadeiro discípulo e é o indicador principal da perfeição da vida cristã. Crescer para a plenitude mostra-se, sobretudo, em crescer no amor. E crescer no amor não tem limites, pois é participar no amor infinito que Deus derrama em nossos corações pelo Espírito Santo.

  1. Livres e perseverantes no caminho

O trecho da carta aos Hebreus, atrás citado, exorta-nos a “pôr de parte todo o fardo e pecado que nos cerca para poder correr com perseverança para o combate que se apresenta diante de nós”. Para avançar no caminho do Senhor, temos de nos sair das estalagens onde nos acomodamos e partir para novos horizontes. Não podemos carregar connosco muitas bagagens pois dificultam a marcha. Precisamos de nos libertar de tudo o que é supérfluo, do consumismo, do medo da novidade. Por isso, seguir o caminho do Senhor é deixar muitos apegos, é travar um combate contra os obstáculos que nos desviam do exemplo de Cristo. Não há progresso espiritual sem sacrifício e persistência.

Não podemos servir a dois senhores, alerta Jesus Cristo (Cf Lc 16,13). Optar por um caminho é desviar-se de outros. Para seguir Jesus é indispensável renunciar a Satanás, ao ódio e à vingança, à ambição do dinheiro e do poder, à divisão e à indiferença. Nesse sentido, sempre que renovamos a “profissão de fé” batismal, declaramos renunciar ao pecado. Progredir para a plenitude é sair da sua ilha ou zona de conforto, é confiar e entregar-se a Deus que nos conduz para um futuro melhor. Assim, tornamo-nos mais livres e disponíveis para nos deixarmos conduzir pelo Espírito Santo.

A difícil renúncia

A dimensão de renúncia e a atitude de desprendimento é estranha e difícil na atual cultura do efémero e em ambiente de consumismo e permissivismo. Vive-se ao sabor do momento, de opções provisórias, de objetivos a curto prazo. Tudo (ou quase tudo) é permitido, cada um faz o que lhe agrada sem olhar a regras ou respeitar os outros. Alguém designou este  ambiente como a “sociedade gasosa”, em que os valores e sistemas que pareciam sólidos e estáveis, se diluem e desvanecem. Deixar-se levar por esta tendência do permissivismo e do efémero é cair na insegurança, no individualismo egoísta, na superficialidade e inutilidade. A vida perde sentido, consistência e gosto. O mundo torna-se um deserto seco e árido. Porém, como a experiência nos mostra, sem sacrifício, perseverança e esforço, não se alcançam objetivos na vida (na profissionalização, no desporto, no amor estável, no percurso cristão). Caminhar para a plenitude é consequência da nossa fé na ressurreição de Jesus que nos leva a viver com alegria e com esperança e a construir a vida sobre a rocha firme do evangelho da paz, do amor e da alegria. É na fidelidade ao projeto do evangelho de Jesus que está o segredo da felicidade e da fecundidade da existência humana.

Discernir o desígnio de Deus   

Deus guia-nos neste processo de purificação do egoísmo para crescermos no amor, como um agricultor cuida em podar as árvores para que dêem fruto: “Meu Pai é o agricultor. Limpa o ramo que dá fruto para que dê ainda mais fruto” (Cf Jo 15, 1-8). Através das provações e dificuldades da existência, ensina-nos o despojamento de nós mesmos, do homem velho, para que habite em nós o homem novo.

Somos por natureza influenciados pelo ambiente de relativismo e pela tentação de andar ao sabor das modas e das inclinações pessoais que nos desviam do caminho do evangelho. Ou então cansamo-nos, deixamo-nos desanimar e paramos no caminho. Por isso, devemos estar atentos e examinar o nosso percurso para tomar consciência de alguns desvios ou faltas e prestar atenção aos sinais de Deus. Como nos recomenda São Paulo: “Não vos conformeis com este mundo; mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para saberdes discernir, segundo a vontade de Deus, o que é bom, o que lhe é agradável, o que é perfeito” (Rm 12,2). Procuremos, nesse sentido, fazer todos os dias um exame de consciência revendo os acontecimentos do dia à luz da fé, descobrindo os dons de Deus e dando por eles graças, pedindo perdão de alguns pecados. Este exercício ajuda a discernir as tentações, a vencer as nossas fragilidades e a crescer na configuração com Cristo.

  1. As fontes que alimentam o caminho

“O Caminho de Emaús”(Lc 24,13-35) tem inspirado os programas de pastoral na nossa diocese de Santarém nos últimos anos. Acompanhando o percurso dos dois discípulos que iam a caminho de uma aldeia chamada Emaús e, ao longo do caminho, foram progredindo na descoberta e na adesão a Cristo ressuscitado, procurámos também, nos últimos anos, aprofundar as fontes de vida cristã que nos levam ao encontro de Cristo e nos sustentam no caminho da fé:

  • Escuta orante da palavra de Deus que tem Cristo como referência central.
  • Celebração da eucaristia como encontro pessoal com o Senhor Ressuscitado.
  • Integração e participação na comunidade cristã.
  • Missão de testemunhar a fé no mundo e, neste, construir o reino de Deus.

Continuamente temos de regressar a estas fontes de água viva e aprofundá-las como bases em que assenta a vida cristã. Demos alguns passos mas precisamos constantemente de retomar estes exercícios espirituais para crescermos na vida cristã.

Escutar Deus e falar-Lhe

A primeira fonte que, nos tempos atuais, se reveste de importância fundamental, é a escuta orante da Palavra de Deus. Como vemos na primitiva comunidade de Jerusalém (At 2, 42-47), a “assiduidade ao ensino dos apóstolos” era a primeira coluna em que assentava a vida dos cristãos das origens. Também hoje, no despertar e no fortalecimento da fé, deve colocar-se sempre a Palavra de Deus. No ambiente de relativismo e de confusão que nos rodeia, com muitas propostas de vida ilusórias, é na meditação do evangelho que podemos fixar os olhos na genuína identidade de Jesus e n’Ele contemplar o verdadeiro rosto de Deus e a imagem fiel do homem. É no evangelho que encontramos o espelho mais fiel de Deus e do homem.

Já há vários anos que, na nossa Diocese de Santarém, se tem vindo a recomendar, com insistência, o contato assíduo com a Sagrada Escritura. A Bíblia é hoje, certamente, mais conhecida e mais consultada. Mas temos de continuar a crescer na sua leitura orante para aprendermos a escutar, com gosto e proveito espiritual, o Senhor que, através do texto sagrado, vem ao nosso encontro e fala connosco. O encanto pela escuta da Palavra de Deus progride através do exercício da leitura perseverante.

Como recomenda o Concílio Vaticano II, na constituição “Dei Verbum”, nº 25, “a leitura da Sagrada Escritura deve ser acompanhada de oração para que seja possível o diálogo entre Deus e o homem; porque «a Ele falamos, quando rezamos, a Ele ouvimos, quando lemos os divinos oráculos» (Santo Ambrósio).

A oração deve adquirir, na vida do discípulo, um ritmo diário. Assim como, diariamente, precisamos da luz, do alimento e da comunicação com a realidade e com os outros, da mesma maneira precisamos da oração quotidiana pois esta é como a luz que ilumina cada dia, o meio de comunicação e união com Deus, nosso amparo e fortaleza. A abertura e o acolhimento a Deus conduzem-nos à atenção e à responsabilidade pelos outros.

Eucaristia lugar de encontro com o Ressuscitado

A Eucaristia e os sacramentos são outra fonte que não podemos dispensar. A eucaristia dominical é o momento culminante do encontro com Jesus, guia e acompanhante do nosso caminho. É neste encontro que experimentamos mais profundamente a alegria da fé e recebemos o alimento da vida espiritual. Sem a eucaristia não temos força para crescer na estatura espiritual de Cristo. Por isso, é com tristeza que verificamos as faltas frequentes de cristãos à missa. Muitas das nossas assembleias dominicais envelheceram porque os mais novos – crianças, adolescentes e jovens – se afastaram. Com frequência foram os próprios pais que, pela sua ausência, abriram para os filhos a porta de saída. Talvez por não terem descoberto a riqueza deste mistério, são ainda bastantes os cristãos, de todas as idades, que entendem a eucaristia como um rito enfadonho.

Não podemos assistir passivamente a esta falta de participação no mistério por excelência da nossa fé. A Missa é uma graça que Deus nos oferece cada domingo para progredirmos no caminho da conversão e da luz. Precisamos de ajudar os membros das nossas comunidades a descobrir a eucaristia e os sacramentos como fonte preciosa de água viva. A realidade mostra que é possível esta experiência. De facto, paralelamente aos que se afastam, verificamos também outros que redescobrem, aproximam-se e participam com piedade e alegria na celebração eucarística, vivendo-a como uma festa em que a presença de Cristo Ressuscitado enche de esperança e alegria a nossa existência.

O caminho para a eucaristia

A descoberta da Eucaristia como centro da vida cristã deve ser feita a partir de dentro, da experiência vivida no coração de cada um, da consciência amadurecida. Hoje não basta apelar à obrigação de ir à missa sob pena de pecado. Fez-se assim em tempos passados. A pedagogia do evangelho, porém, bem como a perspetiva do Concílio Vaticano II orientam-nos a fazer a descoberta da eucaristia como o cume e a fonte da evangelização (Cf SC 10). Portanto, é necessário ir ao encontro dos que não vêm, chamá-los e acompanhá-los no caminho que leva à eucaristia.

Nesse sentido, é importante convidar os afastados para participar em exercícios espirituais que permitam uma experiência de encontro com o Senhor, como por exemplo: retiros; peregrinações; participação num curso intensivo de vida cristã; integração num movimento de espiritualidade. Outro cuidado é celebrar bem, com espiritualidade, com envolvimento da assembleia, cuidando do acolhimento, dos cânticos, da homilia, da qualidade dos ritos celebrativos e da boa comunicação entre todos. Também a formação litúrgica e mistagógica dos fiéis constitui uma etapa importante no caminho de evangelização que culmina na eucaristia.

A mesma preocupação deve estar presente na preparação e celebração de outros sacramentos: dos candidatos adultos ou jovens para o Crisma; dos pais e padrinhos para o Batismo de crianças; dos noivos para o sacramento do Matrimónio. A finalidade não é chegar à celebração do sacramento mas à vida cristã ativa. A pedagogia evangélica convida a pô-los a caminho e a educar ritmos para que continuem o caminho após a celebração: leitura orante e partilhada da palavra de Deus, acompanhada de oração; integração num grupo eclesial; participação nas atividades da comunidade.

Encontros ao redor da Palavra de Deus

Cada percurso de preparação de um sacramento ou cada iniciativa de formação cristã deve orientar para a sua continuidade. São etapas de um caminho e não metas finais. E as etapas encadeiam-se e complementam-se umas às outras em função da meta.

Para que esta dinâmica do caminho guie cada percurso ou etapa de formação, recomenda-se que funcionem, em todas as comunidades, grupos que se reúnam periodicamente para leitura orante e partilhada da Palavra de Deus (Cf EG 174. 175). O trabalho pastoral com estes “Encontros ao redor da Palavra de Deus”, produz frutos preciosos: crescimento na sabedoria do evangelho e no discernimento para conduzir a vida pela fé; experiência gratificante da união fraterna no grupo, fortalecendo laços amizade e de apoio mútuo; iniciativas de evangelização  envolvendo o grupo como fermento de vida cristã.

As pessoas sentem hoje gosto e necessidade de refletir e de rezar em grupo. Frequentemente, após um percurso de preparação para um sacramento, sobretudo para o Crisma, manifestam esse desejo. Como algumas experiências concretas mostram, não é difícil concretizar esta proposta. Podem reunir-se nos espaços da comunidade cristã ou nas casas de quem quiser acolher o grupo. Podem designar-se Grupos de “lectio divina”, “Grupos ao redor da Palavra”, ou “Casas do evangelho”. Esta última designação, divulgada em muitos países da Europa, faz lembrar a Igreja doméstica, reunida nas casas, com ambiente fraterno e abrangendo as várias idades, com programas adequados a cada fase etária que contribuem à transmissão da fé e perseverança dos mais novos.

Crescimento orgânico em Igreja

Outra coluna fundamental que apoia o caminho da fé é a vida comunitária. Deus chama-nos à comunhão com Seu Filho e concede-nos a força do Espírito Santo para nos abrirmos à comunicação com Deus e com os outros. A Igreja, como confessamos no Credo, é “Comunhão dos Santos”, ou seja, comunhão espiritual gerada pelo Espírito Santo, que nos faz participantes do mesmo Senhor, do mesmo ministério, da mesma fé e dos mesmos sacramentos. A Comunhão dos Santos precisa de se expressar também na dimensão humana, na comunhão fraterna, no encontro e proximidade mútuas, na partilha da amizade e da ajuda, no cuidado de uns pelos outros. O forte individualismo e a solidão que muitos experimentam, tornam ainda mais necessário cuidar desta fonte da vida cristã. De facto, não há vida cristã sem comunidade. E não há comunidade sem renúncia ao egoísmo e ao individualismo e conversão ao amor de Deus e do próximo. Crescer na fé é, também, crescer na relação comunitária.

As nossas comunidades, pelo seu tamanho e tradições, nem sempre proporcionam esta convivência próxima. Por isso, se deve favorecer a constituição e integração de pequenos grupos de dimensão humana ou de Movimentos Eclesiais que criem relação humana próxima e acompanhamento pessoal. Os grupos eclesiais, gerados pela Palavra de Deus, tornam-se fermento de vida comunitária e de evangelização nas comunidades tradicionais. Por isso, as paróquias precisam dos grupos e estes precisam das paróquias. Nestas podem os pequenos grupos e Movimentos vencer o risco do particularismo (“espírito de capelinha”) e abrir-se à comunhão com a Igreja una, santa, católica e apostólica.

Na verdade, a Igreja cresce por ação do Espírito Santo que a todos distribui carismas para que todos participem no “ministério” ou serviço eclesial que tem por finalidade o aperfeiçoamento dos cristãos, o crescimento deles à medida de Cristo na sua plenitude, e a edificação do corpo de Cristo. Como diz a Carta aos Efésios: “Praticando a verdade na caridade cresceremos em tudo para a cabeça que é Cristo. É por Ele que o corpo inteiro, coordenado e unido por meio de todas as junturas, opera o seu crescimento orgânico segundo a atividade de cada uma das partes a fim de se edificar na caridade” (Ef 4, 15-16)

  1. Caminhos que mutuamente comunicam e se influenciam

Não crescemos sozinhos mas no seio de uma comunidade – familiar, eclesial e social. Cada pessoa que cresce estimula outros a crescer e contribui ao crescimento da comunidade em que está integrado, como atrás referimos. Por isso, se cruzam e se influenciam mutuamente os caminhos de crescimento pessoal, familiar e comunitário.

Crescimento pessoal

Como Jesus, devemos também nós crescer em idade, em sabedoria e em graça (Cf Lc 2,52). O desenvolvimento para a plenitude precisa de ser global, de atingir todas as dimensões da pessoa. Crescemos visivelmente no corpo. Mas o desenvolvimento físico tem de ser acompanhado pelo crescimento espiritual e intelectual, afetivo e social. Senão criam-se desequilíbrios.

Em cada idade precisamos de um crescimento adequado que responda às experiências e problemas próprios. Como disse o Papa Francisco aos bispos portugueses na “visita ad limina” de Setembro de 2015,“não podemos teimar em vestir o vestido da primeira comunhão aos jovens e adolescentes”. Cada idade precisa de um vestido religioso ou melhor dizendo, uma proposta de formação adequada à sua medida. O que era lindo e eficaz para uma idade pode não servir para outra. Aos cinquenta anos ou setenta anos somos diferentes do que éramos aos dez ou vinte. Não só nas medidas do vestido. Mas também – que não é menos importante para a geração atual – no modelo, ou seja, na forma, no estilo e pedagogia da evangelização.

Desenvolvimento global das crianças e adolescentes

O crescimento em todas as dimensões (física, intelectual, cultural, moral e religiosa) é necessário, antes de mais, para as crianças e adolescentes. A dimensão religiosa não pode estar ausente nestas idades, pois abre ao mistério de Deus e à relação cordial com os outros, dá orientação à vida e ajuda a definir critérios e a adquirir referências. A simbologia cristã (narrativas bíblicas, tradições da piedade popular, celebrações litúrgicas da comunidade) oferece uma interpretação do mundo e da vida que desperta para o amor, a justiça, o respeito pelos outros e a alegria (por exemplo o Natal, a Páscoa, os Santos Padroeiros…).

A educação religiosa das crianças é feita, em primeira mão, pelos pais e familiares através de esclarecimentos oportunos dados aos “porquês” dos mais pequenos, dos gestos religiosos vividos em família, do ambiente de união e afeto que deve reinar no lar. É completada e aprofundada pela catequese na comunidade e pela educação moral e religiosa na escola (EMRC) – duas formas diferentes e complementares de educação cristã, a primeira mais confessional, a segunda mais orientada ao diálogo com a cultura e aos valores humanos.

É louvável o esforço tanto da catequese como da EMRC por responder aos desafios dos tempos atuais renovando a pedagogia de apresentar a boa nova de sempre em linguagem acessível e significativa para a sensibilidade atual das crianças e adolescentes.

Os tempos mudaram e as condições de educação cristã são diferentes. Por isso, os fiéis adultos, educadores responsáveis e exemplos de fé para os mais novos, precisam de compreender as novas acentuações que hoje devem ser tidas em conta na transmissão da fé. Antes de mais, a espiritualidade. De facto, a finalidade da catequese é levar ao encontro e à amizade com Jesus. Por isso, não pode reduzir-se ao ensino da doutrina, preceitos religiosos e comportamento moral. Mas precisa de pôr a caminho cuidando do encontro com o Senhor, do sentido da presença de Deus e da oração, da escuta da Palavra, da contemplação e da adoração. São estas atitudes interiores que motivam para aprender as outras dimensões e para seguir o caminho da fé.

Educação cristã de adolescentes

Aos adolescentes a educação cristã oferece diálogo e esclarecimento sobre muitas questões e problemas próprios da idade; ajuda a descobrir o amor verdadeiro e a saber distingui-los das manifestações que o banalizam e degradam; proporciona ainda integração e acompanhamento num grupo de amizade sólida e ajuda a vencer a tentação de se isolar e afastar das assembleias comunitárias. A catequese para adolescentes precisa de prestar atenção ao desejo deles de participar ativamente, à oportunidade de experiências de voluntariado, ao diálogo aberto e esclarecedor dos seus problemas. Nesse sentido, é aconselhável programar com eles encontros menos frequentes e mais longos e ricos (ritmo quinzenal, com maior duração, em vez de semanal mais breve).

Preparação para a Confirmação

Entre a adolescência e a juventude, após o percurso de dez anos de catequese, prepara-se a celebração do Crisma. Na prática pastoral é a altura oportuna para consolidar a iniciação cristã, fidelizando ritmos e amadurecendo algumas dimensões da fé, como a experiência de oração, a participação na eucaristia, a colaboração na paróquia e a presença ativa na sociedade. Por isso, temos recomendado um ano de preparação próxima, pelo menos, que proporcione exercícios espirituais e atividades religiosas em ordem a fundamentar uma experiência pessoal de encontro com Cristo e de integração na comunidade cristã. A preocupação principal não é a de formar um cristão perfeito, ou concluir o caminho da fé. Devemos constantemente esclarecer os candidatos e familiares que o sacramento do Crisma não é meta final mas etapa importante no crescimento para a plenitude. Por isso, importa pô- los a caminho e conduzi-los para uma próxima etapa de formação (ligada à pastoral juvenil ou a grupos de adultos, consoante a situação).

Pastoral juvenil

A Pastoral juvenil precisa também de apoio forte e perseverante da comunidade cristã e seus responsáveis. Cabe-lhe a tarefa de congregar os jovens em encontros periódicos que conjuguem formação, convívios e atividades. Os jovens mostram-se interessados em experiências de espiritualidade (retiros, Jornadas Mundiais da Juventude, peregrinações a Taizé ou a Fátima) e revelam gosto por atividades missionárias. É importante ter em conta, nesta fase etária, o desenvolvimento do sentido de grupo e do desejo de participação ativa de todos os membros. Estes devem ser incentivados a intervir como responsáveis interessados e não como ouvintes ou destinatários passivos.

Formação cristã de adultos

A formação cristã dos adultos está profundamente associada à das outras idades. Ninguém pode dar o que não tem. Para encaminhar e apoiar a formação dos mais novos, os adultos precisam de cuidar da sua própria formação. Por isso, a Igreja tem insistido na importância fundamental da educação da fé dos adultos. A catequese para esta faixa etária foi recomendada pela Exortação Apostólica “Catechesi Tradendae”, (João Paulo II, 1979, CT), “como a principal forma de catequese, porque se dirige a pessoas que têm as maiores responsabilidades e capacidades para viverem a mensagem cristã na sua forma plenamente desenvolvida” (CT 43). Desde então várias modalidades se desenvolveram: catecumenado de adultos para os sacramentos da iniciação cristã (todos ou algum); Movimentos Eclesiais de formação (equipas de Nossa Senhora; cursos Alpha, de Cristandade, Caminho Neo-catecumenal e muitos outros); preparação de noivos para o sacramento do Matrimónio; preparação de pais e padrinhos para o Batismo de crianças; promoção de grupos ao redor da Palavra de Deus atrás referidos; formação de animadores a nível vicarial; e ainda outras.

Neste momento, é importante conjugar estas várias iniciativas de modo que encaminhem e se complementem umas às outras, como etapas de um percurso dinâmico e não como metas isoladas umas das outras. Assim, os que participam nalgum destes percursos de preparação devem ser motivados para outra etapa que lhe dê continuidade. Por exemplo, a formação de noivos procure motivar para movimentos de casais ou familiares; a preparação de pais para o Batismo de crianças para a catequese familiar; e, de modo geral, para a leitura orante da Sagrada Escritura pessoal ou em grupo.

Crescimento do amor conjugal e familiar

A Exortação Apostólica “A Alegria do Amor”, (AL) declara, logo no início, que, apesar dos numerosos sinais de crise do matrimónio, o desejo de família permanece vivo, especialmente entre os jovens e isso incentiva a Igreja a proclamar o anúncio cristão sobre a família como uma boa notícia (AL 1).

Este documento do Papa Francisco insiste no “crescimento, consolidação e aprofundamento do amor conjugal e familiar. De fato, a graça do sacramento do matrimónio destina-se, antes de mais nada, a aperfeiçoar o amor dos cônjuges” (AL 89). “O amor manifesta-se e cresce (AL 133, 134). A Exortação apresenta, de forma clara e convincente, a beleza do sacramento do Matrimónio, hoje pouco estimado, e recomenda a todas as famílias cristãs das nossas paróquias, ou comunidades e movimentos que as integram, que ofereçam caminhos e propostas para apoiar e reavivar as famílias (capítulo VI).

Como preocupações da pastoral familiar destaca a preparação para o matrimónio e o acompanhamento de casais, sobretudo casais jovens. Deste modo, a pastoral do matrimónio abrange: – o “antes da celebração” em que se procura ajudar os jovens a descobrir o valor e a riqueza do Matrimónio e preparar os noivos para este sacramento; – a própria celebração; – e o “depois” do sacramento em que se deve oferecer acompanhamento nos primeiros anos da vida matrimonial. Nesta última etapa precisamos de começar quase do princípio mas com dedicação, pois se torna decisiva para o crescimento e consolidação do amor matrimonial.

Chama também a atenção para a necessidade de formar agentes leigos de pastoral familiar que ajudem a encarnar as propostas pastorais nas situações reais e nas preocupações concretas das famílias (AL 204).

Os cristãos alma do mundo

A vida cristã, quando cresce, irradia também para o mundo, onde cada cristão deve ser luz e fermento do Reino de Deus que é justiça, paz e alegria. “Os cristãos são no mundo o que a alma é no corpo”, afirma a “Carta a Diogneto” um documento do século II: “Vivem nas mesmas cidades que as outras pessoas mas a sua forma de viver é sempre admirável e passa aos olhos de todos como um prodígio. São de carne mas não vivem segundo a carne”.

Realmente, a proposta de vida do evangelho é contrária às inclinações da carne, como afirma a referida Carta a Diogneto, ou seja, não se rege pelas inclinações da natureza humana mas apresenta-se diferente da vida do mundo que segue a vaidade, a inveja, o poder, a mentira. Quem vive segundo a evangelho não vive para si mesmo, não se guia pelo egoísmo, pela indiferença, pela agressividade, pela aparência. Mas abre o coração aos outros, dá-lhes atenção, partilha com eles o que tem de bom, respeita toda a gente, perdoa. Viver segundo evangelho transforma não só o coração de cada um, mas igualmente a relação entre as pessoas, a forma de ver e agir, a maneira de lidar com as realidades quotidianas do trabalho, da economia, da educação, da moral, como concretiza a citada “Carta”. Sendo um património espiritual, o cristianismo não deixa de ser uma fonte de cultura, uma forma de entender e orientar as realidades da vida.

Alertou o papa Francisco, na visita ao Parlamento Europeu em Estrasburgo (25 Novembro de 2014), para a “impressão crescente de uma Europa cansada e envelhecida, não fértil e sem vitalidade, onde os grandes ideais que a inspiraram parecem ter perdido o seu fascínio”. Ao receber o prémio Carlos Magno, em 6 de Maio de 2016, de novo chamou a atenção para a decadência do ideal humanista europeu: “Que te sucedeu Europa humanista, paladina dos direitos humanos, da democracia, da liberdade?” De facto, ao pôr de lado as raízes cristãs, o Velho Continente perdeu a sua alma. Mas o Papa manifestou também a convicção de que a capacidade de se levantar e começar de novo pertence à alma da Europa. Daí o apelo que lançou a todos os homens de boa vontade, crentes e jovens em particular, para sonhar e recuperar a alma europeia participando ativamente como operadores de mudança e transformação, desenvolvendo três capacidades: capacidade de integrar; capacidade de dialogar; capacidade de gerar.

Assim entendemos o testemunho da fé no mundo: irradiar à nossa volta as consequências sociais, culturais e morais da fé. Todos nós, como discípulos de Jesus, somos enviados em missão para infundir no mundo o espírito de verdade, de bondade, de serviço gratuito, de justiça e de paz. O ano da misericórdia convidou-nos a concretizar algumas das novidades da moral evangélica: vencer o egoísmo e a indiferença e partilhar o que temos e o que somos; tornar-se próximo de todos, dando-lhes atenção e ajuda em todas as dimensões da vida humana (corporal e espiritual); cuidar da dignidade e dos direitos de todos, sobretudo dos mais humildes e excluídos; cultivar as relações cordiais e ser fermento de fraternidade entre toda a gente.

Deus comunica-nos os Seus dons da salvação – a fé, a esperança e o amor – para os partilharmos com todos: “Ide pelo mundo inteiro e proclamai o evangelho a toda a criatura” (Mc 16, 15). O evangelho torna-se visível e credível nas obras dos discípulos e das comunidades. “Vendo as vossas boas obras glorifiquem o vosso Pai que está nos céus”(Mt 5,16).

Conclusão

“Alegrei-me quando me disseram: Vamos para a casa do Senhor” Sl 121 (122)

Temos consciência de que a vida é um caminho, de que o tempo não volta para trás mas avança sempre para o futuro. Como será o futuro? Reserva-nos muitas surpresas, como nos diz a experiência. Não está nas nossas mãos e, frequentemente, não segue os nossos programas. Os problemas sociais e económicos que atualmente vivemos, levam-nos a ter medo do futuro e, muitas vezes, a viver a nostalgia do passado.

Neste contexto, compreendemos a mensagem cristã de esperança e de responsabilidade pelo futuro. A fé apresenta-se como um caminho, não é uma situação ou um patamar alcançado mas um processo a realizar constantemente. Não é extática mas dinâmica. Não andamos à deriva, sem orientação. Somos peregrinos que perseguem uma meta estabelecida por Deus, uma meta feliz que responde aos nossos sonhos de paz, verdade e felicidade. Por isso, peregrinamos com alegria. Será uma ilusão? O salmo citado responde: “Alegrei-me quando me disseram: vamos para a casa do Senhor”.

Não fomos nós que inventámos a meta. Foi-nos atribuída por Deus e anunciada por um grande número de testemunhas que peregrinaram antes de nós e nos “disseram” a sua experiência. Os nossos pais na fé entenderam a existência como uma peregrinação e realizaram-na com confiança e alegria. A começar por Abraão que “pela fé, ao ser chamado, obedeceu e partiu para um lugar que havia de receber como herança e partiu sem saber para onde ia (…), pois esperava a cidade bem alicerçada, cujo arquiteto e construtor é o próprio Deus” (Heb 11, 8.10). Na continuação de Abraão, também os profetas, os apóstolos e, sobretudo, Jesus Cristo e aqueles que, em todos os tempos, O seguiram, nos comunicaram a mesma convicção: caminhamos para o santuário de Deus.

Ponhamo-nos, pois, a caminho com alegria e com responsabilidade. Cada um tem uma missão pessoal única a cumprir. No tempo da nossa peregrinação temos de tornar o mundo mais fraterno e habitável e construir a eternidade. Não deixemos passar o tempo inutilmente. Como pede São Paulo: “Sede alegres, trabalhai na vossa perfeição, vivei em paz”(2 Cor 13,11). A referência da nossa perfeição é Jesus Cristo, o Homem Novo e fermento de uma nova humanidade onde reina o amor, a paz e a justiça. Quando deixamos que a luz de Cristo nos ilumine, tornamo-nos também luzes de esperança e fermento de um mundo novo.

Nossa Senhora estrela da peregrinação

Ao celebrarmos o centenário das aparições de Nossa Senhora em Fátima, fixemos os olhos na Mãe de Jesus e Nossa Mãe, estrela e protetora dos discípulos de Seu Filho. A sua vida terrena foi uma peregrinação na fé. Depois de acolher na Anunciação a mensagem do anjo e se disponibilizar, como humilde serva, para cumprir a vontade Deus, pôs-se a caminho para visitar sua prima Isabel. Ao longo da vida histórica, guiada pelo Espírito Santo, muitas vezes retomou o caminho para ir ao encontro de Seu Filho e dos seus discípulos. Enquanto peregrinava ia refletindo em tudo o que via e ouvia e meditando no seu coração. Assim progrediu de modo admirável na fé, na sabedoria e no amor. Passou, certamente, por momentos de prova, sofrimento, dúvidas e desânimo. Mas a sua peregrinação na fé culminou na Páscoa, no Pentecostes e na elevação ao céu.

Junto do trono de Deus continua a “acompanhar solicitamente os irmãos de seu filho que peregrinam no meio de angústias e perigos até que cheguem à pátria feliz” LG 62). A visitação que realizou aos pastorinhos de Fátima, num momento dramático da história humana, é um sinal comovente da sua solicitude materna. Veio recordar-nos o apelo do evangelho à oração, à penitência e à conversão para vencermos o poder do mal, tão forte há cem anos e tão impressionante no mundo de hoje. Como muitas vezes nas Sagradas Escrituras, através de Nossa Senhora de Fátima, Deus veio procurar justos que colaborassem para salvar a cidade dos homens e prometeu a vitória final da graça e da misericórdia de Deus, como declarou Bento XVI na homilia em Fátima a 13 de maio de 2010.

Dando graças por tantas bênçãos recebidas ao longo destes cem anos de peregrinações a Fátima, aprofundemos a atualidade da mensagem aos pastorinhos e façamos da peregrinação ao Santuário um estímulo ao crescimento na fé, na esperança e na caridade.

Oremos ao Senhor para que nos conceda o dom do Espírito Santo e nos conduza ao cumprimento da Sua vontade em ordem a progredirmos para a perfeição proposta por Jesus Cristo que veio trazer- nos a vida em plenitude (Cf Jo 10,10).

 

Santarém, 31 de Julho de 2016

+ Manuel Pelino Domingues, Bispo de Santarém

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