Carta Pastoral e Programa para o Ano 2014-15

Carta Pastoral e Programa para o Ano 2014-15

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Carta Pastoral do Sr. Bispo de Santarém: “A Alegria do Evangelho Rejuvenesce a Igreja” e programa pastoral para o ano de 2014-2015.

 

A Alegria do Evangelho Rejuvenesce a Igreja

  1. Uma nova etapa evangelizadora

O Papa Francisco, na conhecida Exortação Apostólica “Evangelii Gaudium”, convida a Igreja a sair para levar a toda a gente a alegria do Evangelho que enche o coração e a vida daqueles que se encontram com Jesus. Na verdade, garante o Papa, é essa alegria que pode vencer a tristeza individualista que brota do coração comodista e mesquinho, da busca desordenada de prazeres superficiais, da consciência isolada. Muitos, também entre os crentes, afirma Francisco, caem no risco de se fecharem nos próprios interesses sem espaço para os outros, sem lugar para os pobres, sem ouvido para a voz de Deus, transformando-se em pessoas ressentidas, queixosas, sem vida (Cf. EG 1 e2).

A fé exprime-se no amor e na alegria

Realmente a fé cristã exprime-se no amor, na fraternidade e na irradiação da alegria. Amor e alegria são os primeiros frutos do Espírito Santo e os critérios da autenticidade da fé. Um cristão com cara de vinagre, triste e azedo, fechado em si mesmo, não mostra a autêntica fé em Cristo Ressuscitado. Na verdade, a fé gera alegria quando é vivida no coração, com afecto, como experiência pessoal; quando é cultivada pela inteligência através do conhecimento dos seus fundamentos; e quando é praticada pelas mãos, com fidelidade e firmeza, no amor e no serviço. Ora estas três dimensões (afecto, inteligência e prática) nem sempre são cultivadas conjugadamente. Por isso, a proposta do Papa Francisco de vivermos a fé com alegria e realizarmos uma nova etapa evangelizadora, é também o desafio a cultivarmos uma fé autêntica e plena.

De facto, o primeiro momento da fé e seu alicerce, é o encontro com Cristo Vivo. Cristão é o que descobre Cristo como Senhor e Mestre, como alguém presente e determinante na nossa vida. É a dimensão afectiva. Quem descobre Cristo como caminho para a verdade e para uma vida plena, decide-se a segui-Lo, como um discípulo segue o mestre. O encontro leva ao conhecimento, à prática da fé e ao testemunho. O discípulo é missionário, renuncia a si mesmo, sai do seu individualismo e vai ao encontro dos outros para lhes comunicar a boa nova que descobriu. Só assim a alegria do Evangelho enche o coração e a vida dos crentes.

Um novo paradigma do cristão e da Igreja

Assim o verdadeiro perfil do cristão, que o Papa Francisco apresenta na Exortação Apostólica, é o do “discípulo missionário”. A Igreja é a comunidade dos discípulos missionários. Existe para evangelizar: “Evangelizar constitui a graça e a vocação própria da Igreja e a sua mais profunda identidade” (EN 14). Não é apenas uma nova actividade ou programa. É um novo paradigma, uma nova forma para viver e testemunhar a fé. É este novo paradigma que pode rejuvenescer a Igreja e torná-la capaz de levar o Evangelho ao mundo para renovar a sociedade e construir o reino de Deus.

Esta proposta é providencial e urgente e queremos adoptá-la como inspiradora do nosso plano e programa pastoral do próximo ano 2014-2015. De facto, notamos como muitos dos nossos fiéis, comunidades e movimentos se mostram instalados, fechados e sem entusiasmo pela fé e pela vida. É a imagem de uma Igreja envelhecida, sem novidade. Às vezes parece que se respira, na Igreja e na sociedade, um ambiente de tristeza e de resignação. Nota-se, por outro lado, um certo conformismo com o pensamento e com os valores dominantes da cultura laicista (“o politicamente correcto”) e algum medo ou complexo de inferioridade em afirmar a diferença cristã perante as modas culturais (matrimónio, defesa da vida, economia, prática cristã, etc.). A Exortação Apostólica do Papa Francisco é, portanto, muito oportuna pois nos ajuda a reflectir na origem da crise que se instalou entre nós e que gera queixas e ressentimentos. O Papa Francisco afirma que a fé cristã nos compromete na solução dos problemas e aponta várias direcções para enfrentarmos os desafios e tentações do mundo actual (EG 52ss). Se nós, discípulos de Jesus Cristo, não vencermos a tentação do mundanismo, da indiferença, do conformismo, da crítica lamurienta e não sairmos ao encontro de Cristo, não alcançamos nem irradiamos a alegria do Evangelho nem damos o nosso contributo para vencer a crise, rejuvenescer a Igreja e melhorar o mundo.

Sinais de esperança

Há sinais de procura e de abertura à novidade do Espírito Santo. Nas trevas Deus faz surgir a luz. Não nos deixemos invadir pelo pessimismo. Podemos, realmente, observar alguns raios de luz. Por exemplo, o consenso que actualmente se gera à volta do Papa Francisco mostra como as pessoas são sensíveis e acolhedoras de uma proposta de renovação espiritual e moral, de justiça, de inconformismo perante a indiferença e egoísmo. A adesão da juventude nas JMJ, tanto no Brasil como nas anteriores, mostra como também os mais novos procuram a luz, a verdade, a alegria. Estes sinais de esperança vinham já dos Santos Padres anteriores, designadamente dos dois recentemente canonizados – João XXIII e João Paulo II – que testemunharam a alegria da fé e contribuíram para uma onda de renovação na Igreja e no mundo.

Por isso, a situação que actualmente vivemos convida-nos à desinstalação e à entrega à missão para conquistarmos e irradiarmos a alegria do Evangelho. Assim alcançaremos o rejuvenescimento da Igreja: “Na doação, a vida se fortalece; e se enfraquece no comodismo e no isolamento. De facto, os que mais desfrutam da vida são os que deixam a segurança da margem e se apaixonam pela missão de comunicar a vida aos demais… Cristo torna os seus fiéis sempre novos, ainda que sejam idosos… Com a sua novidade Ele pode sempre renovar a nossa vida e a nossa comunidade” (EG 10 e 11). Sair para a missão rejuvenesce a Igreja. Eis o desafio que hoje nos é colocado.

Igreja em saída

Para viver e irradiar a alegria do Evangelho há, portanto, uma atitude prévia, um passo indispensável que não é fácil pois exige desprendimento e sacrifício: “sair”! A Igreja tem de sair; e cada um que queira seguir este caminho da evangelização também tem de sair de si mesmo: “A alegria do Evangelho contém sempre a dinâmica do êxodo e do dom, de sair de si mesmo, de caminhar e de semear sempre de novo, sempre mais além” (EG 21). O dinamismo da saída aparece constantemente recomendado na Sagrada Escritura, no Antigo Testamento, na vida de Jesus, na Igreja das origens e na vida de todos os que vivem intensamente a fé.

Para cultivar esta atitude da saída vamos apoiar-nos em dois textos bíblicos, um de São Marcos e outro dos Actos dos Apóstolos.

  1. Partir de Cristo para as periferias

Marcos 1, 29 – 31. 37b – 39: “Saindo da sinagoga, foram para casa de Simão e André, com Tiago e João. A sogra de Simão estava de cama com febre, e logo lhe falaram dela. Aproximando-se, tomou-a pela mão e levantou-a. A febre deixou-a e ela começou a servi-los …”

“Todos te procuram. Mas Ele respondeu-lhes: «Vamos para outra parte, para as aldeias vizinhas, a fim de pregar aí, pois foi para isso que Eu vim.» E foi por toda a Galileia, pregando nas sinagogas deles e expulsando os demónios.”

Na primeira parte deste texto descobrimos como o encontro com Deus vivido no templo (sinagoga), leva a sair para levar o amor de Deus à vida quotidiana, à família, aos outros. A proximidade de Deus na oração traduz-se num estilo de vida caracterizado pela proximidade dos outros, pelo encontro, pelo acompanhamento e pelo serviço. Ensina-nos que “a Igreja em saída toma a iniciativa para ir ao encontro, (…) para se envolver e entrar na vida diária dos outros, (…) assume a vida humana, tocando a carne sofredora de Cristo no povo” (EG 24).

Do templo à vida

Nos versículos 37b-39, vemos que a “saída” não termina nas pessoas próximas nem na família. Não se instala no êxito ou entusiasmo das multidões nem se limita aos grandes centros. Leva também às periferias, aos afastados e perdidos: “Vamos para as aldeias vizinhas a fim de pregar aí”. Vemos assim o dinamismo da missão: adoração de Cristo que muda o coração de cada um; saída para levar o amor de Deus aos outros, à família e à sociedade; ir às periferias.

Outro texto significativo da missão é o arranque da evangelização para além das fronteiras de Jerusalém narrado em Actos 8, 1-8: “No mesmo dia, uma terrível perseguição caiu sobre a igreja de Jerusalém. À excepção dos Apóstolos, todos se dispersaram pelas terras da Judeia e da Samaria. Entretanto, homens piedosos sepultaram Estêvão e fizeram por ele grandes lamentações. Quanto a Saulo, devastava a Igreja: ia de casa em casa, arrastava homens e mulheres e entregava-os à prisão.

Os que tinham sido dispersos foram de aldeia em aldeia, anunciando a palavra da Boa-Nova. Foi assim que Filipe desceu a uma cidade da Samaria e aí começou a pregar Cristo. Ao ouvi-lo falar e ao vê-lo realizar milagres, as multidões aderiam unanimemente à pregação de Filipe. De facto, de muitos possessos saíam espíritos malignos, soltando grandes gritos, e numerosos paralíticos e coxos foram curados. E houve grande alegria naquela cidade”.

As provas fortalecem a missão

É a perseguição à Igreja de Jerusalém que conduz à dispersão e a dispersão promove a difusão do Evangelho. Na origem encontramos o martírio de Estêvão, o luto por este mártir, a fúria persecutória de Saulo que ia de casa em casa prender homens e mulheres, ou seja, a primeira grande perseguição inicia a evangelização. A perseguição não deixa a Igreja instalar-se mas estimula-a a revigorar o dinamismo missionário que lhe vem do seu Senhor e do Espírito Santo. É como se a perseguição provocasse um novo Pentecostes. A prova purifica e fortalece a identidade missionária da Igreja. Assim, do luto por Estêvão vem a alegria dos novos convertidos; do martírio o nascimento de novos crentes na Samaria; da diáspora o crescimento da Igreja. É pelo caminho da cruz que se alcança a alegria pascal.

  1. Caminhos de missão

O segredo do rejuvenescimento da Igreja e da sua força para a missão não está nos nossos planos ou capacidades mas na acção do Espírito Santo. Ele desceu no Pentecostes numa altura em que os discípulos estavam confusos e com medo. Mas, nessa situação, rezaram unânimes a pedir a força e a luz do Espírito Santo prometido. E, no Pentecostes, o Espírito desceu sobre eles como um vento impetuoso, pô-los em movimento, aqueceu-os e iluminou-os como línguas de fogo. Então abriram as portas e saíram para anunciar a Boa Nova de Jesus. Este é o paradigma da missão da Igreja para todos os tempos.

O Pentecostes continua a acontecer. Aconteceu com o Concílio Vaticano II. João XXIII, que sempre procurou deixar-se conduzir pelo Espírito Santo pediu, na altura, aos fiéis para rezarem para que o Concílio Vaticano II realizasse no nosso tempo os prodígios de um novo Pentecostes. Na verdade, os frutos do Concílio mostraram-se idênticos aos deste acontecimento da Igreja das origens. Ainda hoje a missão da Igreja inicia e alimenta-se com a oração. É a partir da contemplação de Cristo que abrimos as portas e saímos para o mundo em missão.

O Pentecostes como paradigma da missão

O paradigma do Pentecostes pede igualmente abertura à novidade do Espírito e acolhimento dos seus dons. Para avançarmos com a renovação da Igreja e a sua saída para o mundo não podemos estar agarrados ao “fez-se sempre assim”. Nem instalarmo-nos nos pontos de vista já adquiridos. Nem fecharmo-nos no nosso feudo “aqui mando eu”. Na verdade, para realizar a missão da Igreja, o Espírito Santo derrama em todos os fiéis dons ou carismas variados: “A cada um é dada a manifestação do Espírito Santo para proveito comum” (1Cor 12, 7). Portanto, a Igreja não vive só dos dons hierárquicos, embora estes sejam fundamentais. A sua vitalidade missionária alicerça-se igualmente nos carismas comuns dados aos fiéis em geral (a uns para exercer a caridade, a outros para testemunhar a fé, também para rezar, para transmitir sabedoria, para exercer a misericórdia e para curar, etc.). Se estes dons forem reconhecidos, chamados e postos a render para o bem comum, a Igreja será renovada pelo Espírito Santo. Se todas as actividades estiverem absorvidas pelo clero (clericalismo), então a Igreja terá reduzida a sua força missionária.

Uma comunidade cristã, carismática na sua globalidade, implica que o presbítero que preside evite concentrar todos os carismas ou funções na sua pessoa, como se tivesse a síntese dos carismas, e se esforce, ao contrário, por prestar atenção, chamar e integrar os carismas diversos dos fiéis, cultivando o carisma da síntese e envolvendo o maior número de pessoas na missão da Igreja. Pede ainda que se promovam os ministérios laicais como expressão prática dos carismas dos leigos.

Missão dos discípulos

A nova evangelização não é tarefa de alguns cristãos especialmente dotados, mas “deve implicar um novo protagonismo de cada um dos baptizados” (EG 120). Pertence a todo o povo de Deus. Como esclarece o livro dos Actos, no texto citado, quem anunciava o evangelho eram todos “os que tinham sido dispersos”. Esta envolvência de todos os crentes implica outra “saída” dos nossos esquemas: da Igreja entendida a partir do binómio clero-leigos (Igreja docente e Igreja discente) para a Igreja povo de Deus em que todos são enriquecidos com carismas para a missão. E, na continuação, pede ainda outra mudança ou “saída”: do perfil do cristão tradicional, “o praticante” passivo, ao cristão “discípulo missionário”, que participa com alegria e zelo na missão. É um perfil mais dinâmico e motivador pois nos desafia a todos a caminhar, a progredir, a crescer em sabedoria e em graça. E nos assegura que todos temos uma missão, que Deus precisa de cada um de nós para realizar o Seu desígnio de salvação.

Nesta perspectiva, “a Igreja em saída é a comunidade dos discípulos que primeireiam, (tomam a iniciativa), que se envolvem, que acompanham, que frutificam, que festejam” (EG 24). Estes quatro verbos (envolver-se, acompanhar, frutificar, celebrar) precedidos de um movimento – tomar a iniciativa – orientam a missão do discípulo. Todos somos discípulos, todos caminhamos e progredimos, todos tomamos iniciativas para enfrentar os desafios, despertar do torpor, sensibilizar para a fé. Envolver-se, vencer a indiferença, sentir-se interpelado pela situação dos outros. Acompanhar, aproximar-se e cuidar dos outros, agir em rede, trabalhar em equipa, reconhecendo, acolhendo e dando espaço aos dons diferentes do Espírito Santo. Frutificar, esforçando-se por traduzir a Palavra e o culto na vida quotidiana dando frutos segundo o Espírito Santo (amor, alegria, paz e paciência…). Celebrar, descobrir as bênçãos e dons com que Deus enriquece a nossa vida e a Igreja e, pela liturgia, dar-lhe graças entregando-nos nas suas mãos e confiando na sua providência. “A Igreja evangeliza e se evangeliza com a beleza da liturgia que é também celebração da actividade evangelizadora e fonte de um renovado impulso para se dar” (EG 24).

Família primeira comunidade missionária

A família cristã enquanto Igreja doméstica é também a primeira comunidade missionária. É a nível familiar que os quatro verbos, atrás referidos, encontram aplicação prática. Os membros da família, na verdade, estão envolvidos no mesmo amor e preocupações, cuidam uns dos outros, acompanham-se mutuamente, exercem influência mútua para o bem. Na transmissão da fé é decisiva a influência da família, pois os pais gostam de comunicar aos filhos o que encontram de belo e bom para a vida. E que mensagem mais bela e luminosa do que o Evangelho para iluminar a vida e orientar no caminho do bem? Os filhos são frequentemente encaminhados no percurso da fé com a ajuda dos pais, dos avós e familiares. Mas hoje também muitos pais se aproximam da Igreja motivados pelos filhos. A família toca o coração e é no coração que se decide a fé. Por isso, embora seja difícil a missão de educar na fé em família, é também bela e gratificante.

Temos, actualmente, menos famílias estáveis e estruturadas. Há, realmente, mais divórcios, aumentam as uniões de facto. Mas a proposta evangélica do matrimónio fiel e indissolúvel corresponde aos anseios profundos do coração humano de amor fiel e para sempre. E a graça do sacramento é fundamental para fortalecer a união e a missão do Matrimónio. Por isso, embora tenhamos pena desta situação, não desanimemos de propor, sempre que tenhamos oportunidade, o ideal católico do Matrimónio. É errado deixar os outros à deriva com o pretexto de que cada um é que escolhe o seu rumo. As nossas escolhas são sempre influenciadas pelos exemplos que nos tocam, pelas pessoas que nos amam e pelas que admiramos. Educar é conduzir pela mão no caminho do bem, da verdade, do pleno desenvolvimento. A fé é um caminho para o bem, para a vida plena. Privar a educação da dimensão espiritual torna-a mais limitada e fragilizada.

A bela missão da família cristã

Defendamos, portanto, as condições para a união e proximidade da família, para a fecundidade e educação no seu seio e ajudemos as famílias a desempenhar a sua preciosa missão. É, sobretudo, na relação de afecto familiar que os mais novos encontram o ambiente para se desenvolverem harmoniosamente. Neste sentido, os pais precisam de se envolver mais activamente nas estruturas participativas da escola e da sociedade e cuidar que os seus filhos vivam as assembleias festivas dos principais acontecimentos do mistério cristão (Natal, Páscoa, outras festas e domingos).

Para constituir uma família é preciso “sair”: “deixará o homem seu pai e sua mãe para se unir à sua mulher…”. Não é só sair do tronco familiar para constituir um novo tronco. É preciso também sair de si mesmo, morrer para si mesmo como o grão de trigo para dar fruto. O ambiente de hedonismo individualista não favorece a saída de si mesmo para se consagrar a um projecto de vida em comum, à geração de novas vidas e ao seu desenvolvimento harmonioso. Por isso precisamos da fé. Ajudemos as famílias a exercer, à luz da fé, a bela missão de formar comunidades de amor, de vida e de transmissão dos valores de matriz cristã de forma que se tornem verdadeiras comunidades missionárias. Ofereçamos-lhes sugestões de gestos, ritos, orações e tradições da piedade popular para a vivência das quadras litúrgicas, das festas e da vida quotidiana. Ajudemos a acender a luz da fé para que seja farol que guie durante toda a vida.

Sinodalidade

“Importante é não caminhar sozinho, mas ter sempre em conta os irmãos e, de modo especial, a guia dos bispos” (EG 33). Na Igreja, “como Povo unido na unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Lumen Gentium 4), não podemos caminhar sozinhos, cada um à sua maneira e no seu segredo. Temos de fazer caminhos juntos, em diálogo constante, partilhando, “abrindo o jogo”, como equipa e não cada um autónomo ou fechado no seu feudo. É a sinodalidade da Igreja. Aconselhamo-nos e cuidamos uns dos outros porque reconhecemos que todos têm dons ou carismas do Espírito Santo; acompanhamos e deixamo-nos acompanhar, criamos envolvência de todos, pois o bem de todos está sempre acima do bem individual de cada um.

O Corpo de Cristo cresce com o contributo, conjugado e unido, de cada uma das partes (Cf. Ef 4, 16). Por isso, a sinodalidade pede-nos para combater o individualismo e vencer a tentação de privatizar as funções eclesiais. Agimos em Igreja e para a Igreja quando acertamos o passo com o conjunto da comunidade e seguimos as orientações dadas pelo Bispo.

Níveis da sinodalidade

Na nossa diocese de Santarém precisamos de desenvolver a sinodalidade a vários níveis. Antes de mais no interior da comunidade, onde o pastor não deve tomar decisões nem governar sem escutar os organismos de consulta e aconselhamento como são os Conselhos Pastorais e para Assuntos Económicos e Patrimoniais. Outro nível é o dos organismos da Cúria Diocesana segundo a Nota Pastoral publicada em 16 de Julho de 2013. Também a nível dos presbíteros é vivamente recomendado a reflexão e a acção em equipa dos padres que exercem o ministério em paróquias vizinhas. Indispensáveis na missão dos padres são as reuniões de vigararia onde se cresce na vida fraterna e espiritual e se reflecte e programa a acção de conjunto.

Outro nível actualmente importante é a sinodalidade vivida a nível de comunidades que formam vigararias ou polos. O empobrecimento demográfico de algumas paróquias, a escassez de recursos pastorais de outras, a necessidade de sair do seu âmbito e partilhar experiências aconselha ao funcionamento de Conselhos vicariais e jornadas celebrativas que criem unidade e ajuda mútua na evangelização.

Conversão missionária

Recomenda insistentemente o Papa Francisco que todas as estruturas em que se exerce a pastoral ordinária se tornem mais missionárias e que os agentes pastorais se coloquem numa atitude constante de saída (Cf. EG 27-29). Por isso, a diocese, sob a orientação do bispo, é também chamada à conversão missionária (Cf. EG 30-31). Não basta, portanto, assistir o povo fiel. É necessário sair ao encontro dos que estão fora, dirigir-se às periferias onde estão os pobres, onde há sofrimento e marginalização. Esse é o mandato de Cristo.

Na realidade, estamos frequentemente absorvidos pela preocupação de garantir a assistência religiosa aos praticantes e aos que pedem sacramentos e serviços religiosos e corremos o risco de cair na introversão eclesial (Cf. EG 27). Na acção pastoral estamos mais habituados a recomendar: “venham” (venham à missa, venham às reuniões…); ou então a pedir: “tragam” (tragam os filhos para baptizar, tragam-nos à catequese…). A conversão missionária implica uma mudança de atitude. Além de recomendar que venham à missa e à catequese, que venham pedir e celebrar os sacramentos, temos de insistir também: ide ao encontro dos que sofrem, dos que estão caídos à beira dos caminhos, dos que andam por atalhos por não conhecerem o caminho da vida. Saí para levar a paz e a alegria do Evangelho, o calor da amizade e do cuidado fraterno. Ide chamar para a ceia do Senhor, para o seio da comunidade, pois na casa de Deus há lugar para todos. Conclusão: temos de chamar para a comunhão e também de enviar em missão.

Novas experiências missionárias

A conversão missionária das estruturas e dos agentes da Igreja pede novas iniciativas e experiências missionárias. De facto, estas têm surgido em várias partes do mundo em resposta aos apelos dos Papas, de João Paulo II a Bento XVI e agora do papa Francisco. Também na nossa diocese de Santarém se têm realizado experiências missionárias com entusiasmo dos que as realizam e adesão dos que as acolhem. Grupos de jovens que saem pela rua cantando, saudando e convidando para um momento de oração ou iniciativa de formação. Semanas missionárias animadas por jovens vindos de fora e também pelos nossos. Missões populares participadas por leigos. Experiências que proporcionam o Primeiro Anúncio em ordem ao encontro com Cristo e ao aprofundamento da fé. É preciso, em resposta à Exortação do Papa Francisco, tornar estas experiências habituais e integrá-las no percurso da iniciação cristã e da formação dos fiéis. Torna-se agora indispensável pôr em funcionamento, a nível paroquial ou inter-paroquial, o “Grupo de Acolhimento e Missão” que, além de animar experiências missionárias, anima também com o pároco a conversão missionária da paróquia. A nível de diocese precisamos de garantir a formação dos animadores missionários.

Igreja em saída” para levar a todos a alegria do Evangelho tem sido a preocupação predominante do Papa Francisco. Já antes de ser eleito Papa, o cardeal Bergoglio vivia intensamente este dinamismo da Igreja que sai para levar o evangelho às periferias. Nas reuniões gerais que os cardeais realizaram em Roma, antes do Conclave, entre 4 e 11 de Março de 2013, para uma reflexão conjunta sobre a situação interna da Igreja e o perfil do novo Papa, o cardeal de Buenos Aires apresentou a sua reflexão onde se encontra já esta orientação: “A Igreja é convidada a sair de si mesma e ir para as periferias não só geográficas mas também existenciais. Uma Igreja auto-referencial adoece… O futuro Papa deve ser um homem que, a partir da adoração e da contemplação de Jesus Cristo, ajude a Igreja a sair de si mesma”.

Queremos adoptar esta recomendação do Papa Francisco como opção prioritária do nosso programa pastoral para 2014-2015. A Igreja renova-se e rejuvenesce quando sai em missão (EG 23, 24, 25, 27, 34…). Precisamos sair dos nossos grupos ou círculos habituais de convivência e de actividade pastoral, de sair dos acampamentos seguros e ir pelos caminhos do mundo levar Jesus aos de fora. Não podemos fechar Jesus nas nossas paróquias, grupos, igrejas ou sacristias. Devemos abrir-Lhe as portas para que seja luz e salvação para os que ainda não O encontraram. Nesse sentido, devemos partir da adoração e da contemplação de Cristo e caminhar com Ele para testemunharmos o que vemos, contemplamos e vivemos. Como discípulos que vivem com o Senhor e missionários que partilham com todos a alegria do Evangelho. “Todos os que se encontraram com o amor de Deus em Cristo (…) são discípulos missionários” (EG 120).

 

Dada em Santarém e Casa Episcopal, aos 31 do mês de Julho de 2014, memória de Santo Inácio de Loiola

+ Manuel Pelino Domingues, Bispo de Santarém

NuvemCartaPastoral1415

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