Carta Pastoral e Programa para o Ano 2013-14

Carta Pastoral e Programa para o Ano 2013-14

Carta Pastoral e Programa para o Ano 2013-14

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Carta Pastoral do Sr. Bispo de Santarém: “Cuidar da Fé – Cuidar do Homem” e programa pastoral para o ano de 2013-2014.

 

Cuidar da Fé – Cuidar do Homem

  1. A bênção da fé

Bendito seja Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que do alto dos Céus nos abençoou com toda a espécie de bênçãos espirituais em Cristo. N’Ele nos escolheu, antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis em caridade na sua presença (Ef 1, 3-4). O Ano da Fé, proclamado por Bento XVI e continuado pelo Papa Francisco, tem sido um apelo para descobrirmos a fé como uma bênção. De facto, como confessa São Paulo neste texto da Carta aos Efésios, a fé faz de nós filhos de Deus, herdeiros das suas bênçãos, enriquecidos pela graça de Jesus Cristo que nos orienta para a santidade e para o amor. Deus é Pai de bondade e aproximar-se d’Ele é aprender a fraternidade, a justiça e a paz. A fé enriquece e renova a existência humana. Quando nos aproximamos da luz de Deus, deixamo-nos iluminar e transformar e aprendemos a ver a vida e os outros com mais confiança, ânimo e responsabilidade. No ambiente cultural marcado pela incredulidade, é necessária uma experiência pessoal e uma vivência comunitária da fé que nos leve a tomar consciência da riqueza deste tesouro e a cultivar esta virtude teologal de modo que inspire uma forma de pensar e viver justa, verdadeira e bela. Assim, alcançamos a vida eterna, a vida em plenitude, e manifestamos a novidade cristã.

Por isso, damos graças a Deus pelo dom da fé que transforma a existência em bênção e missão. Na verdade, é uma luz que nos orienta no caminho da vida e nos abre à esperança no futuro. É uma sabedoria que nos ensina a compreender o homem na sua grandeza e fragilidade e a desenvolver o bem e a beleza que há nele. É um tesouro que enriquece a vida e que devemos pôr a render.

Dificuldades para a fé

Não é fácil viver a fé nestes tempos de descrença, materialismo e relativismo. Deparamos com muitos obstáculos: a indiferença religiosa e as dúvidas do ambiente social; as críticas que se fazem à fé e à Igreja; os sofrimentos e tragédias da existência terrena que põem à prova a nossa confiança em Deus; o apego ao comodismo e a dificuldade de sacrifício. Bastantes deixam esmorecer a fé e abandonam a prática da vida cristã. Como conclui um conhecido teólogo “encontramos hoje, no Ocidente, a primeira geração incrédula que não se põe contra Deus nem contra a Igreja mas que está a aprender a viver sem Deus e sem a Igreja”.

Ano da Fé: um tempo de graça

Para enfrentar este ambiente de descrença e relativismo precisamos de conhecer melhor a fé e cultivá-la “para que cresça a fim de iluminar o presente até se tornar estrela que mostra os horizontes do nosso caminho”(Lumen Fidei 4). Com esta finalidade nos convida o Papa Francisco, na continuação de Bento XVI, a viver o Ano da Fé, como “um tempo de graça que nos tem ajudado a sentir a grande alegria de crer” (Lumen Fidei 5). As várias iniciativas, que realizámos ao longo do ano pastoral anterior, mostraram uma Igreja viva e, segundo esperamos, desenvolveram também uma experiência mais forte de união com Deus e com a Igreja.

O Ano da Fé, que terá a sua conclusão no domingo de Cristo Rei, a 24 de Novembro de 2013, vai continuar a inspirar o nosso projecto pastoral para o ano pastoral 2013- 2014. Desejamos que, concluído o ano, se mantenha e desenvolva a alegria de viver e crescer na fé. Acreditar em Deus Pai e em Cristo Ressuscitado transforma a vida dos crentes, levando-os a vencer o mal (o egoísmo, a vaidade, a mentira, a idolatria, a luxúria, a discórdia, o cansaço, o desânimo…) e a viver à imagem de Cristo, gerando os frutos do Espírito Santo: caridade, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, temperança (Gl 5, 22-23). A fé é realmente uma bênção, é confiança na presença de Deus que nos acompanha com a sua bondade, é força espiritual que nos transforma e incentiva a sermos também fermento de transformação.

 

  1. A fé defende a dignidade do homem

O papa Francisco, na homilia de início do ministério, fez-nos um apelo; “Guardar a fé, guardar a criação, guardar o homem”. Realmente, se a fé é tão preciosa na vida humana e se se encontra ameaçada, devemos cuidar de a guardar, fortalecer e transmitir. Na verdade, quando falta esta luz tudo se torna confuso (Cf. Lumen Fidei 3). Diluem-se os critérios do bem e do mal, perde-se a orientação do percurso da existência. O sentido da dignidade humana e o fundamento da igualdade de todas as pessoas esbatem-se também. Deus tem sido uma referência sólida para a responsabilidade e um apelo constante para vencer o egoísmo e abrir-se à bondade e ao serviço. Sem amor a Deus, o amor ao próximo fica fragilizado. Sem fé em Deus, Senhor da vida e da criação, o homem julga-se dono absoluto de si e da vida, centrado na sua auto-suficiência e no seu individualismo. Sem referência ao evangelho perdem-se muitos apelos que têm sido forças de aperfeiçoamento da humanidade, como por exemplo: “servir e dar avida; amar o próximo como a si mesmo; perdoar até setenta vezes sete; não julgar para não ser julgado; bem-aventurados os misericordiosos; dai a Deus o que é de Deus e a César o que é de César…” Ao contrário do que prometiam os difusores do ateísmo do século XX, sem Deus o património moral e humanista ficou sem suporte.

Sem fé ficamos mais pobres

Viver sem fé é viver sem esperança e sem alegria, sem o sentido profundo da fraternidade e da comunidade. Em conclusão, perder a fé é cair num empobrecimento humano, pois deixamos de ver o outro como filho de Deus e irmão de quem devo cuidar. A indiferença para com Deus gera a indiferença para com o próximo e o outro corre o risco de ser visto como um estranho que incomoda.Perde-se de vista a transcendência e santidade da vida humana e a sua dignidade única e irrepetível. A verdade e a ética tornam-se dependentes das estatísticas e das ondas de opinião. Perde-se a chave de interpretação do mistério do homem pois este só encontra plena luz no mistério de Jesus Cristo filho de Deus que se fez homem.

Assim, cuidar da fé é também cuidar do homem. De facto, a fé manifesta-se no amor a Deus com todo o coração e no amor ao próximo como a si mesmo. São duas faces da atitude de crer que não se podem dissociar. Deus é, verdadeiramente, o mais importante na vida do homem, o fundamento da sua dignidade, liberdade e responsabilidade. A beleza e a bondade de Deus transparecem nas suas criaturas, sobretudo no homem criado à sua imagem e semelhança. Deus é Pai e Criador e todos os homens recebem a dignidade de filhos e são irmãos entre si. A fé em Deus dá fundamento transcendente à dignidade, liberdade e responsabilidade da pessoa humana e à fraternidade entre os homens.

A Encarnação do Verbo de Deus em Cristo e o mistério pascal confirmam e reforçam a dignidade transcendente da pessoa humana. Jesus vem habitar no meio de nós e entrega a sua vida pela nossa redenção para restaurar a santidade humana ferida pelo pecado e nos tornar, através do Espírito Santo, participantes da vida nova da Sua ressurreição. Os crentes que aderem à Sua Palavra, seguem o Seu caminho, recebem a Sua graça nos sacramentos e se deixam conduzir pelo Espírito Santo participam da Sua glorificação: “Da sua plenitude todos nós recebemos graça sobre graça” (Jo 1, 16). Por isso, cuidar da fé implica cuidar do homem, da sua dignidade, bondade e beleza.

Cuidar da fé – cuidar do homem

Neste sentido, propomos como orientação de fundo para o próximo ano: Cuidar da fé e cuidar do homem. A fé leva-nos a procurar o verdadeiro rosto de Deus, manifestado em Cristo. No rosto de Deus descobrimos a grandeza e beleza do homem criado à Sua imagem e semelhança. Esta é, igualmente, uma perspectiva que é necessário aprofundar para ultrapassarmos imagens pobres e superficiais da pessoa humana comuns na nossa época.

Procurar Deus não é apenas aprofundar doutrinalmente o seu mistério. A fé não é tanto uma doutrina mas é sobretudo uma pessoa com quem comunicamos e em quem confiamos. Por isso, deve ser uma experiência vivida no coração e não apenas um conhecimento. Viver a fé é mergulhar as raízes da nossa vida na comunhão com Deus, na água viva da Sua palavra e da Sua graça, na oração assídua, na celebração dos sacramentos, sobretudo da eucaristia, e na fidelidade aos seus mandamentos. De facto, o ambiente de indiferença religiosa e de ateísmo em que vivemos parece um deserto espiritual, de aridez e secura. Cuidar da fé e do homem é vencer o vazio deste deserto, alimentando a vida espiritual e cultivar os frutos do evangelho: “Feliz o homem que põe o seu enlevo na lei do Senhor e nela medita noite e dia. É como a árvore plantada à beira da água corrente, dá fruto na estação própria e a sua folhagem não murcha” (Sl 1). São os frutos que mostram a qualidade do cristianismo e dão credibilidade ao anúncio do evangelho. Deste modo, o nosso programa pastoral situa-se na continuação e desenvolvimento do Ano da Fé.

 

  1. Jesus Cristo rosto de Deus e rosto do homem

“Corramos com perseverança o caminho que se abre à nossa frente com os olhos postos em Jesus, guia e perfeição da nossa fé” (Heb 12, 1-2). A fé é um percurso a fazer com esforço, com entusiasmo e com uma meta em vista: alcançar a semelhança cada vez mais fiel a Jesus, referência perfeita da nossa fé, “imagem do Deus invisível e primogénito de toda a criatura” (Col 1, 15). Jesus é o caminho e caminha connosco. É o nosso guia e o exemplo perfeito da fé. Não só nos acompanha no caminho mas vive em nós e pela força do Seu Espírito inspira o nosso agir “para que Cristo habite pela fé em vossos corações. Assim, enraizados na caridade, podereis compreender (…) a profundidade do amor de Cristo” (Ef 3, 17). Com Ele, e através d’Ele alcançamos a verdadeira imagem de Deus e crescemos para a plenitude humana, para o desenvolvimento do homem em todas as dimensões.

De facto, o homem é um mistério sobre o qual encontramos perspectivas diferentes, muitas delas redutoras. Quem nos pode revelar o verdadeiro rosto do homem? “O mistério do homem só se esclarece verdadeiramente no mistério do Verbo Encarnado” (GS 22). Ou seja: Deus fez-se homem, pela Encarnação do Verbo, não só para nos revelar o rosto de Deus mas também o rosto do homem.

Lava-pés: o ícone do ano

Um dos gestos que melhor identifica Jesus e que Ele associou profundamente à sua memória, é a Sua despedida dos Apóstolos na última ceia, o “lava-pés”. Juntamente com a Eucaristia constitui o seu testamento que há-de caracterizar a vida dos crentes por todas as gerações. É o ícone bíblico que nos acompanhará neste ano pastoral. “Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai, Ele, que amara os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim. Jesus, sabendo que o Pai lhe tinha dado toda a autoridade, sabendo que saíra de Deus e para Deus voltava, levantou-se da mesa, tirou o manto, tomou uma toalha que pôs à cintura. Depois deitou água na bacia e começou a lavar os pés aos discípulos e a enxugá-los com a toalha que pusera à cintura” (Jo 13, 1-5).

Este gesto de despedida mostra o fio condutor da vida de Jesus: “Ele que amara os seus amou-os até ao fim”. O fim, ou o momento culminante, foi a entrega na cruz, antecipada na última ceia pela entrega como alimento no pão consagrado da eucaristia. Para mostrar o seu amor total, tirou o manto, “não reivindicou a sua condição divina” (Filip 2, 6). O amor total traduz-se no despojamento, na humildade extrema que leva o mestre a adoptar a atitude dos escravos que lavavam os pés aos seus mestres: “humilhou-se a si mesmo tomando a condição de escravo” (Filip 2,7). O amor cristão mostra-se na humildade profunda que nos leva a baixarmo-nos diante dos outros, a sermos servos de todos e a reconhecer a dignidade dos mais humildes. Só com estes sentimentos e atitudes podemos ser fiéis à memória de Jesus, celebrar dignamente a eucaristia e participar da vida nova da ressurreição.

Eis o homem

O lava-pés resume as atitudes e o estilo de Jesus ao longo da sua vida histórica. O amor é o principal atributo de Jesus, imagem do Deus invisível: É a expressão fiel do apreço, da bondade e da misericórdia que Deus tem para connosco. É o estilo que deve caracterizar também os discípulos e continuadores de Jesus: “Dei-vos o exemplo para que façais o que eu fiz convosco” (Jo 13, 15).

 O amor até ao fim mostra-se de forma mais admirável no momento culminante da vida de Jesus, o mistério pascal da Morte e Ressurreição. Entregou-se pela nossa redenção e pela sua cruz nos alcança o perdão e dá sentido ao nosso sofrimento e à nossa morte, fazendo dela a entrada na vida.

Diante de Jesus de Nazaré podemos dizer: “Eis o homem”, eis uma pessoa humana plenamente realizada, bela, digna, feliz. Assim vale a pena ser homem. De facto, ao longo de todos os tempos, Jesus tem cativado e encantado muitos que deixam tudo para O seguirem. N’Ele encontram um projecto de vida entusiasmante e d’Ele recebem a força do Espírito para o seguirem.

  1. Renovar o homem e a sociedade

Olhar o homem na luz de Deus

Em Jesus aprendemos a olhar o homem na luz de Deus. A respeitar a sua dignidade de filho do Pai celeste e a apreciar todo o homem como meu irmão. O olhar da fé é um olhar de amor e misericórdia pois é assim que Deus nos olha a nós. Notamos como à nossa volta cresce a indiferença e a desconfiança em relação aos outros, vistos por vezes como concorrentes. Aquele que crê em Deus Pai deve olhar o outro com fraternidade e simpatia. Uma fraternidade traduzida no diálogo, no acolhimento aberto a todos, na aproximação dos que necessitam de ajuda.

Fazer-se próximo

O discípulo de Cristo, como o bom samaritano da parábola, faz-se próximo daquele que precisa de socorro, dá a mão ao que está caído, levanta os que estão derrubados, ajuda os necessitados. Esta parábola de Jesus desafia-nos a deixar as nossas pressas e inclinarmo-nos sobre o outro, a despojar-se de si mesmo e a abaixar-se para lhe lavar os pés. Notamos como os gestos de humildade e de consideração pelos outros realizados pelo Papa Francisco são entendidos como sinais convincentes da fé em Deus que transforma o homem. Ir ao encontro dos mais frágeis, abrir-lhes o coração e a bolsa, partilhar com eles o afecto e a ajuda, serão sempre a marca genuína do evangelho. “Aquilo que fizerdes aos mais humildes é a mim que o fazeis”.

 Cuidar da fé dos outros

Cuidar do outro à luz da fé é cuidar da fé do outro, é colaborar com a graça de Deus para lhe abrir a porta da fé e para que a luz de Cristo o ilumine. Deus concede-nos o dom da fé para a partilharmos também com todos os nossos irmãos: “Vós sois a luz do mundo. Assim brilhe a vossa luz diante dos homens…” Na verdade, segundo o evangelho,todo o discípulo de Cristo é missionário, todo o que é chamado é igualmente enviado como mensageiro da paz, da esperança e do amor. O cristão cuida do outro, não como membro de uma ONG, mas em nome do Senhor Jesus que a todos quer chamar à luz da fé.

Cuidar é educar

Cuidar do homem é promover a educação que tem uma importância decisiva no desenvolvimento global e harmonioso das pessoas e das sociedades. Foi realmente na perspectiva da educação que o Papa Francisco lembrou esta prioridade de “cuidar da fé e cuidar do homem”. Na verdade, falava da missão de São José como custódio ou educador do Menino Jesus. De facto, segundo o desígnio de Deus, foi no contexto da família de Nazaré, sob o cuidado de Maria e de José, que Jesus cresceu em idade, sabedoria e graça. É realmente no contexto da vida comunitária da família, da comunidade social e eclesial que se pode processar a educação em todas as dimensões da vida humana – física, intelectual, moral, e espiritual. Através do desenvolvimento harmonioso de cada pessoa pode-se contribuir para o crescimento da qualidade de vida e para a construção da justiça, da paz e da fraternidade. Na verdade, educar não pode limitar-se a transmitir informações ou capacidades técnicas mas é preparar cada pessoa para viver plenamente a sua vida. Como esclareceu Bento XVI: “Educar – na sua etimologia latina educere – significa conduzir para fora de si mesmo, ao encontro da realidade, rumo a uma plenitude que faz crescer a pessoa” (Mensagem de Ano Novo, 1 de Janeiro de 2012, nº 2).

Dificuldades actuais na educação

Notamos actualmente bastantes dificuldades com a educação social e moral dos mais novos. Possivelmente porque tudo se relativiza e não se tem em vista um perfil claro de pessoa com valores humanos definidos (a consciência da inclinação ao mal, o respeito pela dignidade humana, a liberdade associada à responsabilidade, a necessidade de esforço e disciplina, a colaboração no bem comum …).

Apesar de tantos meios técnicos de comunicação, muitos, entre os novos, vivem fechados no seu mundo. Habituam-se a todas as comodidades, exigem todos os direitos, mas mostram dificuldade em sacrificar-se, servir e cumprir os deveres respectivos. Parece muito verídico o retrato que, a respeito desta geração, traçou o cardeal Bergoglio, hoje Papa Francisco: “O drama da nossa época é que o adolescente vive num mundo que à sua volta não saiu ainda da adolescência. Os jovens crescem numa sociedade que nada lhes pede, não os educa ao sacrifício e ao trabalho, nem sabe já o que seja a beleza e a verdade das coisas”.

O caminho estreito para a vida

Por isso, em vez de lamentar esta situação, devemos ter presente que ela é fruto da educação que os superprotegeu e mimou mas não os preparou para enfrentar as dificuldades e provações da vida e vencer as crises. Passar do “eu” para “o outro”, para o “nós” e para a comunidade não depende tanto de técnicas ou de pedagogias mas de comunidades educativas e de educadores que se dediquem com afecto e firmeza a acompanhar os mais novos pelo caminho que eles próprios seguem. O educador é um guia e uma testemunha que incentiva os educandos a fazer o mesmo caminho que ele próprio faz.

Educar é orientar no “caminho estreito” da renúncia a si mesmo para alcançar a verdadeira liberdade e dignidade, sempre associadas ao serviço e à participação na comunidade. Por vezes os pais, encarregados de educação e educadores da fé, para evitar incómodos e poupar os mais novos a sacrifícios, deixam seguir o “caminho largo” da facilidade, dos caprichos do momento, do relativismo e do egoísmo. Mas o caminho largo gera insegurança e perde-se em muitas veredas. O caminho da vida e da verdade é Cristo: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. Segui-Lo, pelo caminho do sacrifício, é encontrar a luz e a vida em plenitude.

Com a onda de ateísmo do século XX herdámos a cultura do individualismo, da superficialidade, do imediatismo. A crise de fé traduziu-se numa crise moral, social e agora também económica a financeira. Mas a realidade muda e todos nós podemos contribuir para a sua renovação. A fé leva-nos a acreditar e a crescer numa vida nova, como novas criaturas, e a semear o mundo novo do Reino de Deus. É esperança e incentivo a construir um futuro mais fraterno e justo: “A fé é luz que vem do futuro, que descerra diante de nós horizontes grandes e nos leva a ultrapassar o nosso “eu” isolado abrindo-o à amplitude da comunhão” (Lumen Fidei 4). Cuidar da fé e cuidar do homem é um apelo e uma força para crescer na vida espiritual e na perfeição humana pois nos abre à acção do Espírito que renova todas as coisas.

 

Santarém 31 de Julho de 2013, memória de Santo Inácio de Loiola

+ Manuel Pelino Domingues, Bispo de Santarém


 

Linhas se Acção Pastoral

  1. Cuidar do crescimento da fé: como experiência pessoal de encontro e amizade com o Senhor; como vivência comunitária; e como sabedoria que nos ensina a compreender o homem e a vida e a orientá-la.
  2. Cultivar a alegria de crer e o empenho pela nova evangelização.
  3. Reflectir sobre o perfil cristão de pessoa à luz de Cristo imagem de Deus e do homem.
  4. Esclarecer critérios de educação e formar a família como principal escola de formação integral.
  5. Cuidar da educação da fé em relação com a vida e com a cultura guiando na experiência pessoal de fé e na integração na comunidade.
  6. Defender o direito dos pais e alunos à frequência da EMRC de modo a valorizar a dimensão espiritual e moral na formação integral e reforçar a colaboração entre pais, professores de EMRC e párocos nesta área.
  7. Estruturar a corresponsabilidade pastoral nas comunidades cristãs.
  8. Sensibilizar os fiéis para a presença activa nas iniciativas e associações ligadas com a actividade social e cultural.
  9. Desenvolver nas comunidades a cultura da solidariedade.
  10. Colaborar empenhadamente na construção da paz e da justiça na sociedade.
  11. Revitalizar os organismos diocesanos da Cúria e conjugar a sua acção e a sua relação com as paróquias e movimentos.
  12. Desenvolver os meios de comunicação social como instrumento de evangelização.

 

Propostas

  1. Oferecer aos fiéis exercícios espirituais que fortaleçam a fé, como: retiros, momentos de oração pessoal e comunitária.
  2. Revitalizar o sacramento da Reconciliação que nos leva a reconstruir a vida e a fortalecer a alegria da fé.
  3. Promover acções de formação e alargar a constituição de grupos de estudo e de “lectio divina” que realcem a sabedoria da fé (interpretação da vida, do homem e da sociedade).
  4. Promover a formação das famílias e nas famílias.
  5. Organizar Jornadas Vicariais para todos os educadores (pais, avós, encarregados de educação, catequistas, professores de EMRC, animadores de movimentos eclesiais e de grupos paroquiais, colaboradores pastorais) que aprofundem o perfil de pessoa e o caminho da educação.
  6. Intensificar a celebração eucarística dominical como fonte e escola de comunhão com Deus e de serviço fraterno, valorizando o ícone do Lava-pés.
  7. Reforçar, em todas as paróquias, o funcionamento dos Conselhos Paroquiais Pastorais e para os Bens Económicos e Patrimoniais.
  8. Discernir, escolher e promover a preparação qualificada de alguns fiéis para o exercício de Ministérios Laicais.
  9. Desenvolver nas comunidades o espírito de serviço mútuo e a atenção aos mais carenciados, convidando novos membros para os grupos socio-caritativos e cuidando da sua formação.
  10. Impulsionar nas comunidades os “Grupos de Acolhimento e Missão”.

 

Meios de Apoio

  • Carta Encíclica do Sumo Pontífice Francisco “Lumen Fidei”.
  • Carta Pastoral do Bispo Diocesano “Cuidar da fé – Cuidar do homem”.
  • Actos dos Apóstolos.
  • Guião Diocesano da Lectio divina “Crescer na fé – Servir a pessoa”.
  • Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo contemporâneo “Gaudium et Spes”.
  • Ícone do Lava-pés.

 

Breve Resumo da Carta Pastoral e Questões para Reflectir

Cuidar da Fé – Cuidar do Homem 

  1. A fé: uma boa nova e uma bênção

A celebração do Ano da Fé é um apelo para fortalecer a fé e vivê-la com alegria. No nosso ambiente cultural marcado pela incredulidade e pelo cansaço em relação ao cristianismo, é necessário procurar aprofundar três dimensões da fé:

  • Uma experiência pessoal de encontro e de amizade com o Senhor.
  • Uma vivência comunitária do cristianismo.
  • Uma sabedoria, ou seja que a fé inspire uma forma de pensar e de viver justa, verdadeira e bela.

Questões:

  1. Como aprofundar a experiência pessoal de encontro e de amizade com o Senhor? Como fazer uma experiência comunitária da fé? Como alcançar a sabedoria da fé?
  2. Que obstáculos encontramos na vivência e na transmissão da fé?
  3. Para vencer estes obstáculos precisamos de travar o bom combate da fé, como afirma São Paulo. Como travar este combate? (Com que armas e exercícios?)
  1. A fé gera um homem novo (com dignidade e rectidão)

Ao contrário do que prometiam os difusores do ateísmo do século XX, sem Deus o património moral e humanista fica sem suporte. A indiferença para com Deus leva à indiferença para com os outros, à “globalização da indiferença” (Papa Francisco em Lampedusa).

Reconhecer Deus como Pai e Cristo como irmão é ver também o outro como o irmão a quem devo amar. À luz da fé, sentimos dirigida a nós a pergunta feita por Deus a Caím: “Onde está o teu irmão?”. Assim, guardar a fé é guardar o outro vendo em todo o homem um irmão.

Questões:

  1. Em que se nota o empobrecimento humano provocado pela indiferença? Quais os enganos do ateísmo? Qual o saldo do ateísmo moderno?
  2. Que ameaças são hoje feitas à pessoa humana? Como devemos “guardar (ou cuidar) o homem”? 
  1. Jesus Cristo caminho novo (rosto de Deus e rosto do homem)

Para cuidar da fé e do homem há um caminho novo a fazer, o caminho de Jesus. Jesus é o caminho, o guia e a meta do caminho. “O mistério do homem só se esclarece verdadeiramente no mistério do Verbo Encarnado” (GS 22). Que perfil humano nos propõe Cristo?

Um dos gestos que melhor identifica Jesus é o “lava-pés”. Juntamente com a Eucaristia, constitui o seu testamento que há-de caracterizar a vida dos crentes por todas as gerações.

Questões:

  1. Que atitudes nos propõe o Lava-pés?
  2. Que valores identificam o perfil de pessoa digna e recta (o homem novo) que devemos ter em vista na educação? Quais os defeitos a combater? Como alcançar este perfil de pessoa? (Algumas regras da educação a cuidar)
  3. Quais as principais dificuldades da educação na actualidade? Como define o perfil de um educador e de uma comunidade educativa?
  1. A fé fermento de um mundo novo (Renovar o homem e a sociedade)

A fé transforma o coração do crente e é fermento de um mundo novo. Renova porque leva a começar sempre de novo. Quem acredita converte-se e acredita que é possível a mudança que começa em si próprio.

O ano da fé coloca-nos o desafio de vencer o cansaço e o desânimo na vida cristã e de encontrar um “modo novo e rejuvenescido de ser cristão” (Bento XVI). Uma Igreja envelhecida, acomodada à situação, não evangeliza. Precisamos de aprofundar convicções e de sentir a alegria da fé para podermos anunciar novamente Cristo ao homem contemporâneo.

Questões

  1. Como caracteriza o mundo novo do Reino de Deus? Como podemos e devemos ser fermento do mundo novo?
  2. Como revitalizar o sacramento da Reconciliação que nos “dá a graça de um novo início” e nos faz experimentar a “alegria de uma verdadeira libertação”? (Cf. Ecclesia in Europa 76 e 77)
  3. Como cultivar a “grande alegria de crer” em ordem a dar continuidade ao ano da fé? (Cf. Lumen Fidei 5)

Nota Pastoral

Corresponsabilidade e Ministérios Laicais

A celebração dos cinquenta anos do Concílio vaticano II e do “Ano da Fé” convidam-nos a renovar a Igreja na perspectiva da eclesiologia conciliar de comunhão e missão, tal como confessamos no Credo: “Creio no Espírito Santo, na Santa Igreja Católica, na comunhão dos Santos”. Na verdade, a Igreja não nasce da vontade dos homens mas sim do desígnio de Deus, realizado em Cristo, e vive da força do Espírito Santo que desceu no Pentecostes e continua a guiá-la e a enriquecê-la com os seus dons. É pela força do Espírito que a Igreja é santa, mesmo que sejamos pecadores, e forma a comunhão dos santos apesar do nosso individualismo e resistências.

O Espírito Santo é o fundamento da igualdade e da corresponsabilidade de todos os fiéis: “Em cada um se manifestam os dons do Espírito Santo para o bem comum” (1Cor 12, 7). A todos os membros da Igreja, portanto, são concedidos carismas para participar na missão da Igreja. Se todos são chamados a participar, todos devem ser responsáveis. Corresponsabilidade significa, neste sentido, reconhecer os dons de todos os membros da Igreja e a todos pedir a colaboração adequada aos carismas que receberam. Na verdade, a missão da igreja não é realizada apenas pelo clero mas participada por todo o povo de Deus animado pelo Espírito Santo.

Concluímos, assim, que todos os fiéis são chamados à comunhão eclesial e todos devem ser corresponsáveis pela missão. Não da mesma forma mas cada um por uma função própria consoante o carisma que recebeu, à semelhança de um corpo coordenado e unido onde cada membro tem uma função à sua medida: “A partir de Cristo, o Corpo inteiro, bem ajustado e unido, por meio de toda a espécie de articulações que o sustentam, segundo uma força à medida de cada uma das partes, realiza o seu crescimento como Corpo, para se construir a si próprio no amor” (Ef 4, 16).

Para promover a corresponsabilidade dos fiéis precisamos de ter presente o horizonte amplo da missão evangelizadora da Igreja. Se, nessa perspectiva, prestarmos atenção aos carismas dos membros da comunidade podemos descobrir os que manifestam talentos adequados para essas funções e chamá-los pessoalmente. Depois, então, devemos prepará-los e confiar-lhes oficialmente essa missão na acção pastoral das comunidades. Deste modo, cada colaborador pode saber o que tem a fazer e ocupar o seu lugar sem estar continuamente à espera de ordens. Para formar comunidades vivas e corresponsáveis é necessária a atribuição e a delegação de tarefas pastorais. Nesse sentido, recomendamos aos Párocos que procurem chamar e preparar colaboradores para a missão da Igreja de modo a dinamizar a evangelização.

Tendo presentes estas considerações, entendo que, neste momento, é necessário desenvolver a corresponsabilidade pastoral na nossa diocese de Santarém. Depois de ouvir o Conselho Presbiteral, acho por bem publicar as seguintes orientações:

  1. Estruturar a corresponsabilidade nas comunidades cristãs. A prática da corresponsabilidade exige o funcionamento de organismos paroquiais com estatuto reconhecido. Consideramos como fundamental e indispensável em todas as comunidades paroquiais o Conselho para Assuntos Económicos e Patrimoniais e o Conselho Pastoral Paroquial (ou interparoquial). Procurem, portanto, os Párocos que, nas suas paróquias, estes Conselhos estejam activos e actualizados e coordenem, em comunhão com eles, o dinamismo dos vários serviços pastorais da comunidade cristã: Equipa de catequistas e sua direcção que cuide da catequese para todas as idades; Serviço da liturgia que coordene as várias funções desta área pastoral; Serviço da caridade animado pela “Caritas” ou pelas Conferências Vicentinas ou por outros grupos paroquiais. Recomenda-se também que a pastoral familiar e a pastoral juvenil tenham na paróquia equipas ou grupos que as animem. Assim estruturadas e coordenadas pelo seu Pastor e pelo Conselho Pastoral Paroquial, podem as comunidades cristãs aparecer como o primeiro sujeito da evangelização.
  2. Valorização de alguns ministérios laicais. As circunstâncias actuais aconselham a chamar, a preparar e a nomear alguns fiéis leigos para o desempenho de responsabilidades ou ofícios necessários para a evangelização. Assim recomenda a Exortação Apostólica “Chritifideles Laici” (nº 23): “Os pastores devem reconhecer e promover os ofícios e as funções dos fiéis leigos que têm o seu fundamento sacramental no Baptismo e na Confirmação bem como, para muitos deles, no Matrimónio. E quando a necessidade ou utilidade da Igreja o pedir, podem segundo as normas estabelecidas pelo direito universal, confiar aos leigos certos ofícios e certas funções que, embora ligadas ao seu próprio ministério de pastores, não exigem, contudo, o sacramento da Ordem” (Cf. Cânones 230, 231).

Neste contexto entendemos que se devem valorizar alguns ministérios laicais, além do ministério extraordinário da distribuição da Eucaristia, tais como: catequista formador; acólito responsável de equipa; leitor coordenador; ministro das ADAP; ministro de acompanhamento das exéquias (vigília de oração pelos defuntos e acompanhamento ao cemitério).

A decisão de pôr em funcionamento o chamamento, a preparação e a nomeação destes ministérios laicais deve passar pela vigararia ou zona e não apenas pelas paróquias.

O Concílio Vaticano II propôs uma renovação permanente da Igreja na dimensão da comunhão eclesial e da corresponsabilidade de todos os fiéis. Na procura desta renovação, precisamos de dar estes passos para que a igreja se torne um sinal significativo e eficaz da salvação de Jesus Cristo.

Santarém, 21 de Setembro de 2013

+Manuel Pelino Domingues, bispo de Santarém

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